Em 28/03/2017
 

Ponyo e o olhar psicanalítico pela janela da amizade

O filme Ponyo será discutido durante o projeto Psicanálise & Cinema do NPA no dia 30 de Março.


* As ideias e opiniões contidas no texto são de responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião do NPA.
 
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Ponyo e o olhar psicanalítico pela janela da amizade
 
Esse filme trata-se da história de Ponyo que é meio peixe, meio menina que vive no fundo do mar e quer desbravar outros lugares e encontra um menino na beira do mar. Com esse encontro ela se desenvolve em forma humana por inteiro, mesmo que ainda menina. O seu pai é humano, mas vive no fundo do mar graças a porções mágicas não aceita que ela saia de seu lar e se mostrando raivoso e procura trazê-la de volta. Porém ela persiste em sua busca e vive uma jornada ao lado de seu novo amigo enfrentando vários desafios e aventuras. 
 
Eu entendo que a busca pelo novo nos é necessária para nos desenvolver e o viver a experiência nos transforma, mas que para isso nós escolhemos pessoas que nos acompanham para que sobrevivamos à jornada da vida. Entendo ainda que essas pessoas são nossos amigos, namorados, professores, tutores para nos ajudar a despertar o que há em nós. 
 
Até aqui eu estaria falando de senso comum, então, para a psicanálise, eu faria a tradução que nós investimos nossa libido em objetos que nós escolhemos como referências e que nossos pais são os primeiros em que investimos a libido. No filme, o pai de Ponyo  não permite que ela encontre outras pessoas, o que pode acontecer com pais rígidos, críticos, autoritários, mas também pode representar o próprio indivíduo, falando melhor, o superego do indivíduo que pode ser bastante rigoroso e exigente e não aceitar novas formas de ser que não aquelas idealizadas primeiramente com o contato com os pais. Assim, a pessoa não permite a auto-descoberta no contato com outras pessoas diferentes delas e reconstruir aquilo que conheceu no contato com os seus pais. 
 
Assim, entendo que o contato com os pais é o primeiro de muitos que temos ao longo da nossa vida que se traduz numa aventura quando nos permitimos descobrir e conhecer o que em nós desperta a cada encontro com alguém ou algo novo.
 
O menino, por outro lado, não tem irmãos e sente falta do pai que também está no mar. Ao encontrar Ponyo na beira da praia, investe o amor que provavelmente gostaria de dispor ao pai faltoso e assim cria uma nova amizade. Com isso, o filme também fala da importância da falta para que o indivíduo possa construir novos laços. Podemos pensar também na teoria de Bion que fala da importância da frustração para a criação de um pensamento que são novos significados que povoarão a mente do indivíduo e, com isso, a construção de sua própria teoria e individualidade. 
 
Para mim, a principal mensagem desse filme foi o papel da fraternidade na vida humana. A relação com nossos pais é primordial, mas o irmão, a párea, é aquele com quem compartilhamos nossa frustração de não possuirmos nossos objetos de amor primeiros que são nossos pais, mas também nossos professores, quando fazemos amizade com nossos colegas de sala de aula, são nossos colegas de trabalho, quando não podemos ter a plena atenção ou o papel de gestores no nosso trabalho. Então, com o “irmão”, ou amigo, nós podemos nos amparar na nossa dor de não ser os nossos ideais, o nosso consolo de possui-los ou nosso exemplo a seguir para não os matar. O parricídio também é um tabu, como o incesto e brigar com um irmão pode ser uma saída mais viável do que enfrentar o nosso “superior”. 
 
Para encontrar esse amigo é preciso suportar a separação das figuras idealizadas e eu acredito que encontrar o irmão é uma forma de encontrar amparo para essa dor. Então, eu acredito que o encontro com “irmãos” se faz concomitantemente à separação das primeiras figuras idealizadas. Essa capacidade de suportar a frustração foi chamada por Bion de capacidade de não saber, ou capacidade negativa, ou “-K” e é essencial para o desenvolvimento do indivíduo e de seus símbolos e vínculos significantes. 
 
Finalizo, então dizendo que um amigo que veio do mar é aquela que cada um se permite ao encontrar outro que tem origens semelhantes e compartilha essa características comuns, boas e ruins, conosco, inclusive de vir do mar como eu acredito que todos nós viemos um dia.
 
Helena Pinho de Sá
Psiquiatra
Psicanalista em formação (Sociedade Psicanalítica do Recife)
Membro do Núcleo Psicanalítico de Aracaju
Membro-fundador do Instituto Psicanalítico de Formação e Pesquisa A. B. Ferrari no Brasil
Professora da Universidade Federal de Sergipe

 

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