Em 18/08/2015
 

Sobre Vazios, Navios e Vida

Petruska Menezes resolveu navegar pelos caminhos da vida e convida a todos a compartilhar desses pensamentos no “Psicanálise e Quotidiano” dessa semana.


Sobre Vazios, Navios e Vida

 

 

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Ao acordar, um raio de sol toca suavemente a pele, lembrando àquele que sofre que começou mais um dia. Abrir os olhos é a maior dor. É a primeira. É a lembrança de que existem mais horas vazias que precisarão ser preenchidas. Acordar para aquele que está no vazio é fugir do escuro de sua intimidade para os sentimentos de invasão do mundo. Um mundo real, sentido como frio, frio semelhante ao do seu coração.

 

A dor do vazio é uma dor de ter de ser, pois não é a de não acreditar na possibilidade de viver, de não compreender o que sente, tendo a opressão da angústia como sombra para a claridade que entra pela janela. O sentimento de vazio não se preenche com belezas, com riquezas nem com poder. Não é uma qualidade de ser pobre e, muito menos,de ignorar os ricos. Ser humano é o suficiente para mergulhar nisso.

 

Estamos na era do vazio, em um mundo cada vez mais cheio de certezas, de necessidades criadas e relações unilaterais. Coisas que não conseguem preencher o vazio. Quanto mais se tem, mas vazio se fica. É peneira que não “tapa” o Sol. É um tempo infinito na correria e atrasos do dia a dia. É não se permitir ter escolhas, pois escolher é abrir mão de algo. Quem está no vazio não consegue abrir mão de nada.

 

Solidão é o cardápio do dia. Prato aself service, servido mesmo na multidão. Talvez a única coisa que preencha os dias de vazios eternos seja a angústia, “gemelar” de quem está só, “sem si”. Solidão, dor, angústia, vazio. Sentimentos e sensações que podem precisar de uma vida para ser compreendidos. Resolvidos? Nunca. Aceitos? Talvez. Se abrir os olhos pela manhã mostra que a vida continua e que não é possível, simplesmente, se livrar do vazio, o que devemos buscar então? Pergunta sem resposta.

 

Somente dando um salto mortal na intimidade vazia do mundo interior é que se pode morrer e renascer. Somente navegando nas águas turvas da angústia é que se possa encontrar a esperança e o alívio.  Apenas na dor é que se pode compreender e transpor barreiras e somente na solidão é que se pode se encontrar.

 

Somente vivendo. Vivendo em plenitude tudo o que é possível ser sentido é que o vazio pode dar espaço para o amor. Ele nunca deixará de existir, mas com amor tudo é possível. A doação afetiva ao outro que gera o encontro e o vínculo é interessante. Se doando, se preenche. Engraçada essa vida! Se eu me doei, para mim e para você, eu tiro e estou me preenchendo. E quanto mais se tenta preencher o vazio com coisas, mas vazio ele fica.

 

E onde se encontra o amor? Outra pergunta difícil. O amor vem das relações. Vem do eu e do você. Nasce de mim com minha mãe e com meu pai e se solidifica com a prática. Amor é como o mercúrio: vermelho – cor que assusta, mas quando passa na ferida nem dói e “cura”. Convido você, que sofre, que se sente vazio, que tem angústia, dor, desespero a se perguntar o que realmente está buscando. E se já começou sua busca, passou por perto de algum tipo de sentimento?

 

Muitas pessoas acreditam que a solução, então, é não sentir. Anestesiar é melhor! Triste engano. Dor foi feita para ser sentida. Assim como a alegria. Muito mais que um culto à dor, é um culto à vida. Vida que é composta de sentimentos bons e ruins, sentimentos que ensinam, embora possam machucar. Isso é o que temos de melhor no dia de hoje que está começando. Passarinho cantando e fazendo o ninho. Às vezes, chuva escorrendo pela janela. Às vezes, um raio de Sol entrando e tocando a pele. E a pergunta deve continuar: o que você quer buscar então? Não viver atrelado à crença de que sentir, sonhar, amar são perigosos, pois podem machucar e, assim, deixar seu navio no cais e acorrentado por âncoras. Por que não se permitir navegar por entre oceanos desconhecidos, por mares ainda não navegados e cheios de surpresas – tempestades e calmarias - a serem sentidas e desvendadas, sentindo a vida a cada doce e único momento?

 

 

Petruska Passos Menezes

Psicóloga CRP19/0636,

Psicanalista IPA

data de publicação: 18/08/2015

 

 

 

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