Em 07/07/2015
 

Tinder: Medo do medo.

No Psiquo dessa semana João reflete a respeito do medo da aproximação entre as pessoas, abordando a temática do aplicativo Tinder. Confira!


Tinder: Medo do medo.

 

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Você conhece um aplicativo chamado Tinder? É capaz de acreditar que o grande amor de sua vida pode se encontrar infiltrado em um ambiente virtual de relacionamentos? Pois bem, o Tinder está aí para difundir essa ideia. Esse aplicativo que se revela como um catálogo de encontros vinculado ao login do perfil do facebook traz a expectativa de "encontrar alguém”. De que maneira?

 

Tinder é um ambiente virtual que supera as idades. Não existe uma idade definida para seu uso. As mais variadas idades participam efetivamente da busca de um 'match' (termo utilizado para as combinações que são realizadas no próprio aplicativo). O match é quando alguém ao olhar sua foto se interessa pelo que vê e aperta em um botão representado por um coração. Para que isso ocorra, ambos devem estar interessados e clicar no coração que é o SIM da aceitação e atração. Caso ocorra o intuito de rejeitar a pessoa que se mostra na fotografia principal, existe a possibilidade de apertar o botão com um X para eliminar qualquer oportunidade de combinação.

 

Não perderei tempo tentando explicar o funcionamento em si desse aplicativo, mas é importante refletir sobre o seu funcionamento de um outro modo. O coração que indica o despertar do gosto, da atração pelo outro que se evidencia na foto de destaque, não encontra-se pintado com a cor frequentemente associada ao coração, isto é, vermelha. Nesse ponto temo um dado de extrema curiosidade. A cor do coração é verde. Isso me faz refletir quanto ao fato de que o verde no coração não aponta a sua existência de maneira impensada, sem nenhum propósito. É preciso lembrar que culturalmente associamos o verde à esperança, e daí, a pergunta que não quer calar: Coração- esperança?

 

O coração-esperança parece estar mais atento que nunca. Será que o amor está escondido nesse lindo rosto que sou capaz de apreciar via imagem fotográfica? Será que o amor está no match que acabei de receber? Onde está o amor? Essas são algumas perguntas que o inconsciente da era virtual pode ter  para seus tormentos contemporâneos. Temos, assim, a angústia de se relacionar, o amor que parece não existir, o outro que só pode ser na beleza de uma fotografia calculada para a atração sem nenhum vestígio da condição de ser da falta, etc. Sabemos que a era virtual tem como finalidade maior reduzir todas as constatações da falta. Estamos falando de um desejo de ser herói sem lutar e sem se deparar com os percursos dolorosos que na vida somos obrigados a viver.

 

O príncipe encantado e a princesa querem se encontrar por vias intermediárias. O medo do encontro direto e real permanece registrado e a esperança procura outro mundo para habitar.Viver lá fora torna-se arriscado. A proteção contra as agonias do contato com o outro se glorifica no vislumbrar da "certeza" criada pelos direcionamentos virtuais.

 

Ouvi certo dia que um garoto de olhar atento havia se interessado por uma menina em um bar. Seu coração começou a cantar a música da arritmia e o medo de convidá-la para uma boa conversa lhe tomou na raiz do seu ser. Mas uma saída existiria, afinal, o que não existe atualmente para driblar as barreiras do contato presencial? Ativou o seu aplicativo do Tinder e esperou, com confiança de que iria encontrar, aparecer a menina que fez seus olhos estalarem o encantamento. E sim! Ela apareceu. O coração-esperança recebeu uma nova proposta e o match foi concedido. A menina sentiu o mesmo encantamento. Só assim puderam se aproximar e o beijo emergiu na intensidade de um furacão. Trata-se da força do contato!

 

Com isso podemos notar que o medo do NÃO, da rejeição, de ter o ego ferido, faz com que o aplicativo sirva, também, como uma forma de aliviar a angústia do não  saber. O garoto, por medo, não se aproximou da moça, mas encontrou uma outra forma para a sua investigação de desejo. O mesmo ocorreu com a moça. Ambos vivenciaram um forte estado de medo. O outro na contemporaneidade jamais pode se apresentar totalmente como desconhecido. Para tanto, o aplicativo nos ajuda a saber se é "sim" ou se é "não".Posso ou não posso me aproximar?

 

A vida perde, assim, a sua qualidade misteriosa. O mistério tirou férias. A sedução dorme sem sinais de despertar. É muito mais fácil, por exemplo, investigar a vida pelo facebook de uma determinada pessoa que nos interessa do que perguntar diretamente a ela sobre os seus gostos, desejos, círculos de identidade, etc.O coração-esperança nunca se cansa. Ainda que tenhamos a consciência de que muitos utilizam o aplicativo para o sexo casual, buscando assim eliminar a sensação de vazio que tanto aflige o sujeito atual.

 

Pode-se perceber que existe uma tentativa das pessoas de se manterem próximas de alguma maneira. Não podemos negar que a tecnologia nos ajudou de uma forma incalculável em diversos sentidos, mas também não podemos negar que o caminho se tornou mais longo para se alcançar a experiência na realidade, no sentido de contato direto com os outros e com si mesmo.

 

O remédio é a coragem!

 

João Paulo Corumba de Santana

Psicólogo CRP 19/2697 e

Coordenador do Projeto Psicanálise e Literatura do NPA

jpcorumba@hotmail.com

data de publicação: 07/07/2015

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