Em 30/06/2015
 

Virtualidades

Somos capazes de distinguir o que é real do que é virtual nos tempos modernos? Essas e outras questões são pensadas por Adriana Nagalli.


Virtualidades

 

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Toda revolução provoca um impacto sobre as relações humanas e introduz novas questões filosóficas e culturais.  Chama muito  minha atenção como o universo virtual, promove inúmeras discussões, inclusive entre os psicanalistas,  visando compreender as consequências de estarmos "linkados" ao outro.

 

Somos capazes de distinguir o que é real do que é virtual?

 

Em sua origem, proveniente do Latim Medieval, virtual quer dizer virtude, força ou potência.Os significados são diversos, mas destaco dois que me permitem desenvolver algumas ideias.

 

-O que não existe como realidade, mas sim como potencia ou faculdade.

-O que equivale a outra coisa, podendo fazer as vezes desta, em virtude ou atividade.

 

É assim que esse universo se mostra a nós e como vivemos colados ao mundo exterior e interior, para descrever ou tentar compreendê-lo, não posso deixar de considerar que faço parte dele, ora envolvida e fascinada, ora observando.

 

Me pergunto então:

 

Percebemos todo o tempo o outro, quando está de corpo presente? Quando nos apaixonamos, estamos ligados ao outro de fato ou depositamos algo que em potencial existe em nós mesmos.

 

“O amor, na prática, é sempre ao contrário”.Cazuza

 

O que quero dizer é que da mesma forma que é possível construir, a partir do exterior, um sistema realmente capaz de envolver e capturar o ser humano, algo que provém do mundo interno também é. Isso ocorre quando nossa necessidade de confirmar, questionar ou conjecturar a respeito do que se está sendo percebido fica obscurecida. Se isso persistir, não há investigação, não há fome de conhecimento, de desejo. O valor da experiência fica destituído e abre as portas para o surgimento da confusão dentro/fora, pois a natureza da percepção saudável é ativa, viva, curiosa.

 

Pensando um pouco mais:

 

Em um bebê que é amorosamente  protegido de certas invasões e ainda não tem recursos para perceber detalhes, predomina uma espécie de atividade de pensamento que está ligada ao prazer. Essa atividade é o fantasiar que começa nas brincadeiras infantis e prossegue como devaneio e procura abandonar a dependência da realidade.

 

A vida imaginativa é liberada das exigências da realidade com a finalidade de realizar desejos.Assim também surgem os sonhos e o início de todo desenvolvimento mental. Freud ligou os sonhos aos fenômenos alucinatórios e a alucinação foi para ele o primeiro modo de atividade do aparelho psíquico. Mas esse mundo virtual interno é rompido pela realidade, pelas necessidades e mesmo assim uma porção de virtualidade caminha sempre junto com uma porção de realidade.

 

Retornando aos sonhos, que  tornam visível o que se tornou invisível, eles são  como realidades virtuais  operando livremente. Há sempre em jogo satisfações narcísicas que representam o desejo de uma relação exclusiva, única, especial. Sonhar é antes de tudo tentar manter a impossível união com a mãe, preservar uma totalidade indivisa, mover-se num espaço anterior ao tempo.

 

O uso da tecnologia pode estar a serviço de manter essa totalidade, aderindo a algo que substitua um vazio.O de ser humano, só e incompleto.

 

Na solidão virtual, a adição à excitação substitui um vazio, o de ser humano e, portanto, incompleto.

 

O mundo virtual externo pode repetir a presença de um mundo alucinatório infantil. Aquilo que ouvimos, a voz, o ninar, o sussurro de uma voz materna que atribui sentido à experiência emocional, passa a ser reencontrada em diversos modelos.(recomendo o filme HER, de Spike Jonze)

 

Para que o psiquismo se desenvolva é preciso outro ser humano. O que antes era sensorial  vai se transformando em psíquico através do contato com vivências emocionais. O contato real com o outro não pode ser controlado e  instala a possibilidade da espera, da esperança, mitigando a violência das urgências vitais.

 

Mesmo que seja uma tarefa para a vida toda, buscar reencontrar em outros pessoas, um grande amor perdido, pode ser uma motivação para a imaginação, novos sonhos e através da palavra carregar para longe  a dor da solidão e a possível condição de sua elaboração.

 

E nada mais cura senão o amor... Alguns voam por meio da arte, outros da religião, a maioria, do amor. Mas quando voamos os pousos nem sempre são suaves. Desencontros, encontros,sofrimento  e crescimento são parte que compõe um todo.

 

Estar de fato com o outro pode não levar ao que pensamos ou desejamos, mas independentemente do resultado ele pode ser um chamado à seriedade e à verdade. Se o amor não for isso ? se não tiver um efeito construtivo  e real ?  então ele não passa de uma forma exagerada de prazer.

 

O Silêncio das Estrelas

 

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos Como um Deus e amanheço mortal

E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim Ver que toda essa procura não tem fim E o que é que eu procuro afinal?

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal O que não pode ser dito, afinal Ser um homem em busca de mais, de mais Afinal, feito estrelas que brilham em paz, em paz

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos Como um deus e amanheço mortal

Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal O que não pode ser dito, afinal Ser um homem em busca de mais

 

Lenine

 

Adriana Maria Nagalli de Oliveira

 Psicanalista

Membro Efetivo e Diretora de Extensão do GEPCampinas/IPA 

Membro Associado da SBPSP/IPA

amnagalli@gmail.com

data de publicação: 30/06/2015

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