Em 16/09/2014
 

Buenos Aires: Aromas, Sabores e Saberes.

Adalberto Goulart nos fala hoje sobre um encontro com milhares de almas, ocorrido em Buenos Aires, em busca de proteger a vida, a cultura e a sociedade que tentamos construir.


Buenos Aires: Aromas, Sabores e Saberes.

 

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 “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos

nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas,

não foi marcado. 

Não será exposto às fraquezas,

ao desalento,

ao amor,

ao poema”.

Manoel de Barro

 

Em 2001, no belo ensaio “Indivíduo – universo dos mitos”, publicado na Revista Brasileira de Psicanálise, Armando Ferrari nos lembra a função da psicanálise em identificar impulsos inconscientes que estão na base das manifestações humanas, resgatando uma aparente falta de significado (mitos, rituais e costumes das sociedades primitivas), mas que também nas organizações mais complexas, quando se perdem a origem e seu significado original.

 

O fato de tais manifestações serem difundidas em culturas separadas temporalmente e geograficamente, nos faz pensar que se refiram a um patrimônio de toda a humanidade, inacessível e desconhecido em sua profundidade e de que talvez seja um traço da revolução original que marcou o início da distinção entre humanidade e animalidade, ocorrida há 10 milhões de anos, momentoem que extremas mudanças ambientais ocorreram, associada a um processo de evolução por seleção natural, que culminou nas adaptações hominídeas conhecidas pelo termo hominização. Alterações ambientais e hominização teriam interagido, originando as formas mais complexas de comportamento, destacando-se o processo de alteração do impulso etológico, sobretudo acrescentando-se o movimento pulsional e suas representações psíquicas, que, diferentemente do instinto etológico, variam de indivíduo para indivíduo.

 

A pesquisa psicanalítica nos mostra que esses traços deixados pela evolução/revolução persistem em cada um de nós, ativos e presentes e podem emergir sob determinadas condições, estando na base do nosso imaginário onírico.

 

Müller (1863), afirma que o mundo mítico é simplesmente o mundo da aparência gerada pela auto-ilusão originária necessária ao nosso ser, uma deficiência de nossa estrutura, quando pensamento e palavra não coincidem, “visto que confrontada com o objeto representável, a imagem nada mais é que adaptação e alteração subjetiva”, uma vez que a ideia e a palavra deverão exprimir um acontecimento objetivo e subjetivo ao mesmo tempo.

 

A linguagem poderá atingir uma dimensão fantasmagórica, como as expressões artísticas. Não seria uma simples sublimação da realidade ou manifestação da fantasia, mas, para o sujeito, seria a totalidade da realidade, quando o olhar subjetivo transforma o mundo observado.

 

Perdida a animalidade, o ser humano pode então imaginar, colocando fora de si um deus onipotente, idealizado para ocupar o lugar da instintualidade etológica.

 

Portanto, habita, em cada um de nós, um selvagem primitivo, com sua concepção animista do universo e da vida, cujos resíduos e traços da sua existência podem se manifestar, como nos sonhos, nos sintomas neuróticos e psicóticos, com a crença na onisciência e onipotência do pensamento e a magia a ela associada, com a atribuição de poderes mágicos a pessoas e coisas externas, quando o mundo era povoado por espíritos dos seres humanos e as exigências da realidade não eram consideradas.

 

Não se torna conhecido, mas sim reconhecido, estabelecido nas origens do desenvolvimento mental primitivo e que, por alguma razão, toca a consciência, deixando um estado anteriormente oculto e causando estranheza, medo, pavor, pânico.

 

As crises convulsivas da epilepsia, as conversões da histeria e a própria loucura costumam causar a mesma sensação de estranhamento em pessoas leigas, que podem atribuí-las à ação de forças ocultas, espíritos do mal, ao mesmo tempo em que temem a presença destas forças em si mesmas.

 

Freud já sustentava que a sensação de estranhamento causada pela psicanálise em muitas pessoas teria origem semelhante, afinal é função da nossa ciência revelar o oculto presente em cada um de nós.

 

Até que se reconheça que os espíritos despertados não são anunciadores da morte, mas de fato os protetores da vida.

 

E assim nos vimos em Buenos Aires, entre aromas, sabores e saberes, no período de 01 a 06 de setembro passado, para o XXX Congresso Latinoamericano de Psicanálise, que teve como tema “Realidades e Ficções”, em um encontro com milhares de almas em busca de proteger a vida, a cultura e a sociedade que tentamos construir.


 

Adalberto Goulart

 Membro Efetivo e Analista Didata IPA -   NPA/SPRPE

adalbertogoulart@uol.com.br

data de publicação: 16/09/2014

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