Em 05/08/2014
 

Fazer e desfazer caixas

Erika Reiman fala esta semana da linda relação e construção entre o psicanalista e a criança e dos processos de encontro e despedida.


Fazer e desfazer caixas.

 

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     A espera pela primeira entrevista sempre nos traz uma certa curiosidade. Ainda mais quando é com os pais de um possível “pacientinho”, já que esse é o primeiro contato com a criança. Mas, é a criança que os pais me trazem. Após esse primeiro momento fico imaginando como será essa pessoinha, será que vai gostar de mim, que vai gostar do consultório, o que faremos juntas, como será o nosso primeiro encontro, será que vai quebrar todo o consultório... muitos medos, inúmeras expectativas, apesar de saber que não devo tê-las, mas é impossível! Tudo isso me inunda, desde a hora do primeiro contato, passando pelo momento de “montar” a caixa da criança (obviamente que é apenas a caixa inicial) até, finalmente, o conhecer a criança.

 

       Chegou o grande dia, a luz acende e quando abro a porta ali está a criança real, com seus cabelinhos enfeitados, roupinhas com bichinhos e com um olhar bem intenso, pelo qual me apaixono, onde posso ver muita expectativa, receio e principalmente, curiosidade.

 

     Nesse nosso primeiro encontro a caixa está sob a mesa com muitas coisas ao seu redor para que a criança possa escolher o que usará. No início, todos são objetos sem vida.

Massinhas sem forma, tintas sem cor, bonecos sem nome, carrinhos sem motor, folhas em branco... A criança olha para esses objetos timidamente e depois os escolhe ansiosamente e os coloca em sua caixa e em seguida, vai me apresentando seu mundo, me convida para participar dele e assim vamos criando o nosso mundo, a nossa relação.

 

      Tantas risadas, choros sufocados, muitos chutes, alguns beliscões e caras feias, mas também inúmeros abraços e sorrisos. Esse é o momento que entro em contato com a bruxa, com a princesa, com a arara, com o ET, com o cozinheiro... com a minha criança. Vários personagens, várias estórias em uma só sessão, algumas de muito terror, outras de muito amor. Viajamos entre a impotência e a onipotência, podemos tudo contra todos e nada contra ninguém, criamos e descriamos mundos.

 

      Vários encontros e desencontros vão ocorrendo em nossa estória até que chega o dia da despedida. E mesmo sabendo que o pacientinho conseguiu desenvolver recursos para lidar com aquilo que o trouxe para análise (objetivo do nosso trabalho), ainda assim, é difícil dizer adeus

 

        Vamos desmontar a caixa, a criança vai escolher o que levar e o que vai deixar. O cavalo vai correr em outros campos, a família 101 vai se mudar, a floresta de massinha ficará deserta, o castelo de papelão não terá mais seus inquilinos, as cidades voltam a ser blocos de madeira... o consultório fica vazio. Sem dúvida o momento mais difícil é o desmontar a caixa, pois é a concretização dessa separação.

 

       A criança sai levando com ela alguns objetos de sua caixa com todos os seus significados e deixa comigo algumas de suas histórias e principalmente, nossas histórias. E quando olho para girafa escuto uma enorme risada que ficou ali. De repente, olho para o meu braço e vejo (lembro) a enorme tatuagem de aranha que também ficou em mim. Aos poucos a tristeza vai saindo e dando espaço a uma enorme alegria de ter tido a oportunidade de pertencer a um mundo tão cheio de vida e então quem começa a me fazer companhia é a saudade.

 

       A nuvem escura se vai e um novo dia ensolarado nasce, o telefone toca, uma nova entrevista é marcada com outros pais, e novamente me vejo imersa por vários sentimentos e expectativas. E assim começa uma nova história.

 

       O que sinto de mais apaixonante nesse trabalho é que vejo em mim se formar uma colcha de retalhos, de vínculos, de histórias de tantas crianças diferentes. Crianças essas que vão me deixando conhecer o que elas têm de melhor e de pior. Podem então, aceitar suas bruxas e fadas, seus policiais e ladrões...      

 

      Atender criança é um grande caminhar entre o encantamento e a desilusão. É entrar em contato com medos escondidos, coragem esquecida, voltar a ser criança por pelo menos cinquenta minutos. Algumas histórias tão sofridas, onde me vejo diante de olhares onde a inocência foi perdida, roubada. Inúmeros sentimentos sombrios me atormentam junto a criança. Por outro lado, ver os fantasmas deixarem a nossa sala, os ladrões serem presos, os malvados serem mortos é no mínimo gratificante. A esperança ressurge e vejo a importância do meu trabalho.


 

 

Erika Reimann

Psicanalista em Formação do Instituto Virgínia Leone Bicudo da Sociedade de Psicanálise de Brasília

erikareimannd@gmail.com

data de publicação: 05/08/2014

 

 

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