Em 17/06/2014
 

Fernando Pessoa: Da vida à obra e a obra como vida

Sua personalidade esquizoide impediu-o de estabelecer relações afetivas sólidas, mas lhe possibilitou construir um império literário que o tornou um dos maiores poetas portugueses.


Fernando Pessoa: Da vida à obra e a obra como vida.

 

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Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, na cidade de Lisboa, em Portugal. Foi o primogênito de Joaquim Seabra Pessoa e Maria Madalena Pinheiro Nogueira, ambos com uma vida cultural bastante ativa. O pai trabalhava no Ministério da Justiça durante o dia e a noite como cronista musical de um jornal. A mãe tinha muito gosto pela leitura e, além do português também lia em francês. Aos quatro anos Pessoa já lia e escrevia em português.

 

Não eram abastados, mas viviam confortavelmente num amplo apartamento em Lisboa. Sua avó paterna Dionísia morava junto deles e sofria de graves problemas psiquiátricos. Fernando Pessoa nunca conseguiu ter uma relação íntima, apesar da proximidade, com a avó. Mas a teve com as tias avós, principalmente a tia materna Maria, figura muito importante na vida do poeta.

 

Quando tinha quatro anos de idade, nasce em 21 de janeiro de 1893 seu irmão Jorge, que infelizmente foi acometido com a doença que assombrava há anos seu pai: a tuberculose. No nascimento do segundo filho Joaquim Pessoa já se encontrava bastante debilitado e veio a falecer em 13 de julho do mesmo ano. No segundo dia de 1894 falece seu irmão Jorge. Duas perdas muito significativas num curto espaço de tempo.

 

Pouco tempo depois da morte de seu filho Jorge, a mãe de Pessoa conhece um oficial da Marinha, João Miguel Rosa, o qual vem a ser seu segundo marido. Casaram-se no final do ano de 1895 e em virtude do ofício do padrasto de Pessoa mudaram-se para Durban, na África, no ano de 1896. Viveu na África do Sul por nove anos, mas pouco se tem documentado de sua passagem por lá, mesmo que seus escritos já estivessem em produção.

 

Em 1905 retorna a Lisboa e sua vida se estabelece na capital portuguesa novamente. Iniciou o curso de letras, mas não concluiu. Aliás, a dificuldade de concluir projetos parecia ser uma característica de Fernando Pessoa.

 

Fixado residência na sua Lisboa, Pessoa foi empresário, tradutor, jornalista, crítico literário, comentarista, astrólogo, enfim, fez e falou uma série de coisas por ele mesmo ou através dos seus diversos personagens criados, seus heterônimos, os quais falaremos de três (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis) especificamente mais adiante neste trabalho.

 

Do segundo casamento da mãe teve dois irmãos, Henriqueta e Luis, com os quais mantinha uma proximidade maior, visto que tinha muita dificuldade em fazer amizades. Frequentava cafés, conversava, discutia, mas não se entregava verdadeiramente. A relação que mais se aproximou deste tipo de intimidade foi com o também poeta Mario de Sá Carneiro. No plano afetivo teve uma única namorada, Ofélia. Na verdade namorico. Em sua biografia não há indícios de que Fernando Pessoa tenha tido uma única relação sexual.

 

O poeta português viveu intensamente, na sua solidão, o seu desassossego. Faleceu em 1935, aos 47 anos de uma provável cirrose hepática.

 

 

O “EU PROFUNDO” e “OS OUTROS EUS”

 

 

Ao me deparar um pouco mais com a obra e a vida de Fernando Pessoa me surgiu um primeiro questionamento: EU PROFUNDO? Que pessoa viveu a vida de Fernando Pessoa? Da biografia e dos livros que tive um pouco mais de intimidade, encontrei um excepcional poeta e inquietante questionador da alma, despedaçada alma.

 

Fernando Pessoa, a pessoa, era franzino, desajeitado, tímido e envergonhado. Por outro lado um lutador de causas sociais e políticas.

 

Passou a vida assombrado pelo medo de desenvolver a loucura da avó paterna (que morava com o filho e a nora, tinha uma demência que por vezes se manifestava com intensa violência e, não gostava de crianças) e a tuberculose do pai, que também vitimou seu irmão.

 

Quando pequeno, amigos quase não tinha, mas brincava muito com os irmãos. Desde esta época começaram a surgir seus personagens. “Éramos as personagens de uma história continuamente inventada por ele”, contou Henriqueta (irmã) numa entrevista do ano de 1985.

 

Apesar de ter uma vida social aparentemente rica de afazeres, era um homem extremamente só na sua intimidade. Na sua biografia de Zenith e Vieira consta que “Pessoa, ao longo dos 47 anos de vida, terá ficado muitas vezes de pé junto à janela, pouco participante do que acontecia em redor mas intimamente presente, gravando tudo o que via e sentia no fundo indelével da memória, ou da alma”.

 

Com uma capacidade intelectual riquíssima e uma sensibilidade e percepção muito aguçadas, Fernando Pessoa foi se construindo enquanto um verdadeiro artista. Artista este, que dado o seu desassossego mental, transformou em poesia e prosa o seu emaranhado de emoções. De tão intensas e confusionais o papel não deu conta. Pessoa recorreu ao místico, aos espíritos, para que estes o ajudassem a dar respostas às suas inquietações. Além disso, desdobrou-se em “vários” para manter-se vivo.

 

Muitos foram os heterônimos criados por Pessoa para coexistirem junto dele, mas os mais conhecidos são Alberto Caeiro, Álvaro de Campos (que saiu do papel e certa vez foi encontrar-se com sua única namorada- Ofélia) e Ricardo Reis. Cada um deles tinha uma profissão e características distintas de personalidade.

 

O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho, continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Vôo outro - eis tudo. Do ponto de vista humano - em que ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque - sou um hístero-neurastênico na inteligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibeza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessa-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que, por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso, sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir.

 

Inúmeras poderiam ser as reflexões e discussões acerca da obra de Fernando Pessoa. Talvez salte aos olhos a questão da despersonalização e as considerações e teorizações que poderiam ser feitas a respeito desta. Mas o próprio poeta nos diz não ser necessário. Em seus escritos e autoanálise se mostra “consciente” da sua personalidade fragmentada (pode não compreender) e que talvez esta tenha sido o grande feito de sua obra.

 

Desde cedo Pessoa aprendeu a expressar sua dor, seus desejos e vontades através da escrita. Seu primeiro poema conhecido, o qual dedicou à sua mãe, foi recitado para ela mediante sua indecisão de levá-lo, ou não, para morar com ela e o novo marido na África. Com isso podemos nos deparar com a sutileza do poeta em captar os sentimentos e neste caso o medo/ódio de ser abandonado.

 

 

À minha querida mamã

 

Eis-me aqui em Portugal

Nas terras onde eu nasci.

Por muito que goste delas,

Ainda gosto mais de ti.

 

Entendemos que ele se “dividiu” em vários como uma forma de sobreviver às perdas e frustrações e também como uma defesa contra o terror de enlouquecer, haja visto tenha sido criado em meio a loucura da avó. Assim pôde viver um pouco mais em cada um de seus personagens a medida que eles se expressavam e, como Álvaro de Campos, viviam por ele.

 

Além disso, os “outros” também funcionavam como uma resistência ao crescimento. Sendo muitos não se é efetivamente nenhum e sendo assim Fernando Pessoa nunca conseguiu assumir uma postura de homem adulto. Tamanha era sua dificuldade em se relacionar devido ao intenso sofrimento, que os heterônimos foram criados para lhe auxiliar a lidar com a dor e a dificuldade de saber quem se é, bem como viver coisas (mesmo que através do delírio e alucinação) que sua instância superegoica não permitia. Na biografia (Zenith/Vieira) tem uma passagem que diz que Álvaro de Campos escreveu num certo momento que Fernando Pessoa nunca existiu...

 

Sua personalidade esquizoide impediu-o de estabelecer relações afetivas sólidas, mas lhe possibilitou construir um império literário que o tornou um dos maiores poetas portugueses.

 

Priscylla Rotta Gonçalves

Psicóloga CRP 07/15140

Analista em Formação pela Sociedade Psicanalítica de Pelotas- SPPel

pryrotta@gmail.com

data de publicação: 17/06/2014

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