Em 11/03/2014
 

Ninfomaníaca

As diversas formas de olhar o vazio interno cada vez mais presente nos dias de hoje é o assunto do PsiQuo desta semana que o aponta pela arte. Confira o que Ana Rita Menezes escreve.


Ninfomaníaca, Arnaldo Antunes e algumas reflexões sobre o vazio.

 

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Alguns dias atrás assisti ao filme Ninfomaníaca. Impactante, não pelas cenas de sexo explícito, mas pelo sentimento de vazio da personagem, Zoe.

 

Pensando sobre o filme me veio à mente uma canção de Arnaldo Antunes.  “Socorro! Não estou sentindo nada” nos diz o autor. Lembro que quando escutei essa música pela primeira vez fui tomada por uma sensação de angustia, vazio e uma grande dor.

 

¨Socorro!

Não estou sentindo nada

Nem medo, nem calor, nem fogo

Não vai dar mais pra chorar

Nem pra rir ...

 

Socorro!

Alguma alma mesmo que penada me empreste suas penas.

Já não sinto amor, nem dor.

Já não sinto nada...

Socorro!

Alguém me dê um coração

Que esse já não bate nem apanha.

Por favor!

Uma emoção pequena, qualquer coisa!

Qualquer coisa que se sinta...

Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva...

Socorro!

Alguma rua que me dê sentido

Em qualquer cruzamento

Acostamento, encruzilhada

Socorro! Eu já não sinto nada...¨

 

Socorro, canta Arnaldo Antunes; Socorro, sussurra Zoe entre lágrimas quando, num misto de perplexidade e dor na cena final do filme, se dá conta que não sente nada.

 Socorro, pedem-nos nossos pacientes.

 

O bebê humano nasce indefeso, dependente, num completo estado e sentimento de desamparo e vazio. Necessita de uma mãe (ou cuidador) que o acolha, que o alimente física e emocionalmente; que o sustente e dê sentido as sensações iniciais e confusas.

 

De um “outro” que exerça a “função materna”.

 

Através dessa relação entre a mãe e seu bebê, o psiquismo desse ser em formação vai se organizando e a “função materna” é incorporada pelo bebê como um símbolo com o qual ele pode contar quando a mãe não está ou quando, na vida adulta, se vê diante de situações limites que reativam essas sensações primitivas de desamparo.

 

Quando a “função materna” é inexistente ou insuficiente a “falta”, o vazio é incorporado na mente do bebê como algo presente e quando confrontado com situações limites esses bebês, agora crescidos e vestidos como adultos, só encontram a falta, o vazio, o desamparo.

 

Inseridos numa cultura narcísica e imediatista, é cada vez maior o número de pessoas que buscam externamente “qualquer coisa” para aliviar suas angustias numa tentativa de preencher um vazio paradoxalmente habitado por angustias muito primitivas

 

Sexo, drogas, comida, compras, consumidos de forma voraz e compulsiva, se tornam a única solução possível encontrada pelo sujeito para fazer desaparecer a dor mental do desamparo, do aniquilamento.

 

Na contramão dessa cultura, a psicanálise oferece um outro caminho. Mais longo, doloroso e sofrido como as dores intrínsecas ao processo de crescimento. Mas libertador.

Juntos, paciente e psicanalista, iniciam uma viagem cujo roteiro vai sendo traçado a cada encontro. Uma viagem em direção ao vazio. Juntos construirão novos espaços, abrirão portas para os afetos, janelas para a esperança.

 

Novos espaços onde o vazio será preenchido pela VIDA.

 

 

Ana Rita Menezes da Silva de Pineyro

Psiquiatra,

Postulante a formação psicanalítica pela Sociedade Psicanalítica do Recife.

anaritamenezessp@gmail.com

data de publicação: 11/03/2014

 

 

2 comentário(s) | Envie seu comentário
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Comentário(s)
postado por Sergio Buonamassa em 11/03/2014 às 07:02

Bom dia. Mais uma artigo extremamente interessante, muito bem escrito, direto, objetivo, de fácil compreensão para quem, como eu, não pertence a uma área especifica, consegue através a leitura, entender. Me chamou atenção um trecho da música que aqui reporto: " Socorro! Alguém me dê um coração que este já não bate nem apanha. Por favor......". Se um coração não bate mais, não "apanha", se uma pessoa não "sente" mais dores algumas, nossa, tal pessoa está morta!!!! Pois é, aprendi na minha pele que a dor, qualquer que seja, forte ou fraca, é um privilegio dos vivos. Em alguns ambientes que frequentei, era passado que a "dor era a única companhia nos momentos de solidão"....Em parte é verdade; em parte eu acredito que a dor, quando aparece, é algo que nos mantem vivo, aquela força que nos leva para frente. Hoje, em um mundo praticamente "virtual", onde o que vale não é o que SOMOS mas o que TEMOS ou o que REPRESENTAMOS, vale tudo para "aliviar" a dor: comprar compulsoriamente algo que não precisamos, fazer uso(abuso) de tudo quanto é classificado como "droga", seja licita ou ilícita, tudo serve para "fugir" de algo que incomoda!!! Onde é que as pessoas "falam olhando-se"? Todos "presos" em canais de "chats", quanto mais, melhor, "virtualmente unidos", mas na realidade cada um no seu pequeno espaço....Lamentável, muito lamentável mesmo!!! Não entro no mérito da relação mãe/filho, é algo que não conheço do ponto de vista psicanalítico, mas confio plenamente em quanto li. Bom, parabenizo a autora, conheço ele bem, sei do potencial dela, sei bem o que ela almeja e que, com certeza, irá alcançar, conseguir, claro, com esforço, com "dor", mas isso tudo faz parte de algo simples, que nós temos a capacidade de complicar: VIDA. Cordialmente, Sergio Buonamassa
postado por Helena Pinho de Sá em 12/03/2014 às 21:49

Parabéns pela coragem de comentar filme tão indigesto! Concordo com você que o mais impactante de "Ninfomaníaca" foi o vazio da personagem. Que angústia que deu!!! Aí quando você traz a feliz música de Arnaldo Antunes é como um bálsamo que preenche e acalma esse sentimento terrorífico, como faz uma canção de ninar! E, posteriormente, suas palavras de reflexão então acomodam e tornam essa experiência em algo mais fácil para pensarmos! Valeu Ana!
 

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