Em 07/02/2014
 

O virtual, o homem e a Psicanálise

A autora faz um ensaio sobre a influência da internet e do virtual na vida do homem moderno, procurando entender como a Psicanálise pode participar e auxiliar na compreensão dessa nova tecnologia da comunicação.


O virtual, o homem e a Psicanálise[1]

 

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O mundo contemporâneo trouxe consigo o desenvolvimento de muitos e novos recursos para a vida humana. As novas tecnologias proporcionam mais conforto e comodidade à humanidade. Uma ferramenta criada em tempos de guerra hoje ganha espaço e incrementa os meios de comunicação, permitindo a comunicação por meio de diversos recursos (ou aplicativos) de vídeo e áudio, em tempo real, em qualquer lugar do mundo. Falamos da internet, que foi desenvolvida inicialmente como uma rede para manter as forças armadas americanas em comunicação ininterrupta em caso de uma invasão inimiga, mas ganhou espaço em toda a sociedade. Segundo Pereira e Coelho,

 

A Internet surgiu nos Estados Unidos na década de 1960. Inicialmente era uma rede de computadores interligados para fins militares. Para os americanos era imprescindível a velocidade da informação no caso de sabotagem ou de uma investida bélica soviética. A rede tinha a intenção de ser independente e autônoma, de não centralizar o poder de informação (PEREIRA; COELHO, [2011?], p. 2).

 

Mas foi somente em 1995 que teve início a era comercial da internet no Brasil e no mundo, com 400 milhões de pessoas do mundo inteiro já se comunicando por meio dela (PEREIRA; COELHO [2011?]).

 

Seu uso foi estendido ao público mundial e possibilitou que o tempo e a distância fossem superados. Hoje é possível fazer uma reunião de uma empresa multinacional sem que os dirigentes precisem se ausentar de seus países, reduzindo custos e tempo. Filhos que estudam ou trabalham em outras cidades podem se comunicar diariamente com suas famílias e compartilhar experiências, mesmo estando a quilômetros de distância.

 

Além dessas novas possibilidades, a internet aproximou pessoas e horizontalizou classes sociais. Uma vez ligada à rede, a pessoa pode conhecer outras às quais até então não teria acesso por sua condição social. E, indo mais além, as redes sociais podem ligar e fornecer informações constantes dos hábitos e atitudes das pessoas.

 

O termo virtual ganhou força, e tudo que está vinculado à rede é chamado de virtual: relações virtuais, compras virtuais, lojas virtuais, seres virtuais. O virtual virou sinônimo do que não é concreto. Daquilo que, por uma determinada “supressão” do tempo, do espaço geográfico e do corpo enquanto concretude da existência humana, precisa ser reapresentado e, talvez, recriado nesse novo mundo.

 

A internet deveria ser, então, um agente de união entre as pessoas. Deveria promover mais relações e intimidade. Entretanto, não parece que seja isso que ocorra. As pessoas se sentem cada vez mais sozinhas e chegam aos consultórios queixando-se de dores e sensações que não sabem descrever, sentimentos de solidão e desamparo que muitas vezes se agravam com a idade.

 

O que mudou? O ser humano mudou? Diante dessa nova tecnologia, começaram as dúvidas sobre até onde as relações humanas podem chegar sem se descaracterizar ou se esvaziar de emoções e afetos. Os vínculos nesse novo mundo virtual serão reais? E como fica a Psicanálise, ciência do sentir e do pensar, diante desse novo paradigma?

 

 

 

O virtual

 

 

O mundo virtual não necessariamente começou com a internet. Virtual vem do latim medieval virtualis, derivado de virtus, que significa força, potência (LÉVY, 2009). Inicialmente, o conceito de virtual refere-se àquilo que está em potencial, o vir-a-ser. 

 

Pierre Lévy (2009) traz outro conceito de virtual. Ele acredita que o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Baseado em conceitos de Deleuze, Lévy (2009, p. 15) diz que “o possível já está todo constituído, mas permanece no limbo” sendo igual ao real, mas faltando-lhe a existência. O virtual é “como um complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização” (LÉVY, 2009, p. 16). Ele dá como exemplo o problema da semente, que é fazer brotar uma árvore. A semente traz em si virtualmente uma árvore, que deve ser atualizada para se tornar árvore. A atualização é uma solução que não está contida no enunciado, pois ela é “criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades” (LÉVY, 2009 p. 16).

 

Para Lévy (2009), o real é similar ao possível, enquanto que o atual não se assemelha ao virtual, mas lhe dá as respostas.

 

A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. Consiste em uma passagem do atual ao virtual, em uma ‘elevação à potência’ da entidade considerada. A virtualização não é uma desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir principalmente por sua atualidade (uma ‘solução’), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático. Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mudar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular (LÉVY, 2009, p. 16-17).

 

Lévy (1999, p.17), citando Ferreira-Lemos (2011) entende que

 

a ‘virtualização’ constitui a essência da mutação em curso, um movimento de heterogênese do humano ou um devir; e nos consente afirmar que o virtual nos permite uma saída do aqui e agora – ou seja, do espaço e tempo e uma mudança nos corpos. Utiliza-se do termo ‘ciberespaço’ e o neologismo ‘cibercultura’, que diz respeito às técnicas – materiais e intelectuais – das práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem com o crescimento do ciberespaço.

 

Lévy acredita que o processo de virtualizar algo é dar liberdade de pensamento e abrir campos para o vir-a-ser. É poder se pensar além do que se é, expandindo a possibilidade de pensar. Observando isso com o olhar psicanalítico, a virtualização exposta por Lévy dá a possibilidade de fantasiar. Segal (1993) aponta que, para Klein, as fantasias possuem um aspecto de satisfação do desejo, mas também um aspecto de defesa, pois a cisão e a projeção – como também os impulsos –, que são mecanismos de defesa, são expressas também pelas fantasias.

 

Se continuarmos com a nossa analogia, poderíamos dizer que a virtualização é um novo olhar sobre as fantasias. É utilizar a criatividade e o pensamento para chegar ao que não está na realidade. É pensar sobre o que não é real e com isso ajudar a construir a realidade. Então, Segal continua:

 

 Uma atividade mental superior, como o pensar, é um interjogo entre fantasia e realidade. Não abordamos a realidade com a mente em branco. Abordamos a realidade como expectativas baseadas em nossas fantasias pré-conscientes ou inconscientes e a vivenciamos, não apenas na infância, mas através de toda a nossa vida, como um constante implemento e teste de nossas fantasias de encontro à realidade. O que é o teste da realidade? Só se pode testar uma hipótese. As fantasias inconscientes são como uma série de hipóteses que podem ser testadas pela realidade (SEGAL, 1978 apud SEGAL, 1993, p.31).

 

O corpo é um componente do real enquanto no tempo presente e fator limitador. O corpo traz os dados de tempo e espaço ao ser humano. Ele delimita suas ações e desejos. Além disso, o corpo tem limitações para absorver a própria realidade, pois a percepção é frágil e nunca completa.

 

Cheniaux (2008, p. 27) afirma que a percepção “é um fenômeno ativo, psíquico, central e subjetivo”, que resulta de impressões sensoriais parciais e da associação destas às representações. Ou seja, nosso aparelho perceptivo necessita da capacidade de integração e da imaginação para construir o que chamamos de realidade.

 

Isso ocorre porque cada célula que funciona como um receptor sensorial em contato com o mundo externo só é sensível a um tipo de estímulo. Por exemplo, células oculares captam a luminosidade, mas não podem captar sons. Todas as formas de energia que chegam ao receptor são convertidas em energia eletroquímica (transdução do estímulo) e depois há a codificação neural. Simplificando esse sistema, as informações vão para o tálamo e depois para o córtex. O tálamo funciona como uma espécie de filtro para dar maior acuidade às informações sensoriais. Cabe ao córtex e a outras áreas cerebrais darem sentido às informações recebidas, integrando-as, pois cada informação passa por áreas cerebrais diferentes. As informações receptivas também utilizam as representações mentais como meio de compreensão dos estímulos. A atenção seletiva, a motivação e as emoções influenciam o processo de conhecimento perceptivo, selecionando o que é importante e descartando aquilo que julga “não ser necessário” (CHENIAUX, 2008).

 

A partir dos estímulos sensoriais, a mente reconstrói sua realidade e remonta suas experiências utilizando a fantasia. O cérebro é organizador das informações sensoriais, dando sentido ao que é recebido através das emoções. Aquilo que falta à sua compreensão é criado de forma a gerar a compreensão. É como uma espécie de quebra-cabeças: onde falta uma peça, o cérebro a cria de forma que possa entender a figura montada.  Esse processo é ilustrado a seguir:

Descrição: O quadrado está desenhado?


Na figura acima, tendemos a ver um quadrado branco. Entretanto, não temos linhas que formam esse quadrado. Faz parte da construção cerebral completar o que falta. Então, a primeira dificuldade de percepção da realidade se dá na decodificação cerebral dos estímulos externos. Junta-se a isso a capacidade de lidar com os prazeres e as frustrações dos desejos humanos, que a fantasia vem auxiliar. Lidar com a realidade se torna intolerável sem a capacidade de fantasiar. Segal acrescenta:

 

 

A personalidade cresce, amadurece e se desenvolve. O crescimento e a evolução de um indivíduo devem-se não apenas ao crescimento fisiológico e à maturação do aparelho perceptual – memória etc. –, como também à experiência acumulada e ao aprender com a realidade. Esse aprender com a realidade, por sua vez, está associado à evolução e às mudanças na vida de fantasia. As fantasias evoluem. Há uma luta constante entre as fantasias onipotentes do bebê e o encontro de realidades boas e más. (SEGAL, 1993, p.41)

 

A fantasia vem em auxílio do aparelho mental e do trabalho psíquico de tolerar a realidade e poder adaptar-se a ela. Diferente de Freud, que observava a fantasia como um processo secundário, Klein acredita que as fantasias inconscientes são a atividade primária de tudo, como os sonhos, sintomas, impulsos e defesas. Vejamos:

 

 

Penso que o elemento realmente forte e estimulante do pensamento de Freud é que a fantasia não é uma atividade primária. Ela tem as mesmas raízes dos sonhos, dos sintomas, dos atos falhos e da arte, e é comparável a eles; ela não é subjacente aos sonhos, aos sintomas, ao pensamento e à arte. Para Klein, ao contrário, a fantasia inconsciente é uma atividade primária nuclear, uma expressão original tanto de impulsos como de defesas, e está em contínua interação com a percepção, modificando-a, mas também sendo modificada por ela. Com o amadurecimento e a experiência crescente, as fantasias tornam-se mais complexas, com componentes sensoriais e motivações mais diferenciados, e são elaboradas de diversos modos. Portanto, Klein formula que as fantasias inconscientes são subjacentes aos sonhos, aos sintomas, à percepção, ao pensamento e à criatividade. Elas não se introduzem num sonho; são “a matéria de que são feitos os sonhos (SEGAL, 1993, p. 44).

 

 

Tendo a fantasia como base para a vida e o trabalho psíquico, podemos pensar que o virtual, da forma como Lévy apresenta – como sendo o estar em potencial e  transformar a realidade em algo novo que até então não foi pensado – pode ser associado com a possibilidade de o pensamento psicanalítico ter a fantasia como sua ferramenta de trabalho, como recurso para essa potencialização.

 

Seguindo esse pensamento, podemos afirmar que o ser humano encontra-se no meio do caminho: de um lado está a realidade, instância última da percepção e, do outro, o inconsciente, instância última do psiquismo. Estamos no meio porque nunca conseguiremos atingir e ter consciência plena do nosso inconsciente e também nunca teremos essa mesma consciência plena da realidade e dos estímulos que estão a nossa volta. Vejamos a figura:

 

 

O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; “em sua natureza mais íntima, ele nos é tão des-conhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pela comunicação de nossos órgãos sensoriais” (FREUD, 1900, apud FERREIRA-LEMOS, 2011, p. 62).

 

Podemos pensar que o homem vive em um mundo virtual, visto que a verdade absoluta do mundo externo e a realidade interna inconsciente não estão ao alcance da consciência. Rossi (2012) afirma: “Em síntese, o mundo cultural, inventado, virtual é onde ele vive. Está apoiado no real, mas não o conhece, da mesma maneira que alguém que vive numa casa não conhece seus alicerces e, se quiser desenterrá-lo para conhecê-los, a casa cairá”.

 

 

O mundo

 

 

O mundo atual vem sofrendo grandes transformações pela mão do homem. Os avanços tecnológicos, o desenvolvimento da agricultura, da indústria e o crescimento populacional provocaram transformações na vida e na cultura humana. As mulheres saíram de casa, ingressaram no mercado de trabalho. Os meios de transporte e de comunicação se tornaram mais rápidos e diversificados. A vida parece ter ficado “mais corrida”. Entretanto, o que deveria servir para unir e integrar o homem fez o contrário. A violência aumentou em índices assustadores. Em consequência, as pessoas têm se protegido mais. O mundo se tornou mais competitivo, narcísico. As relações humanas se tornaram inconstantes, superficiais e raramente é possível se envolver. Bauman (2007) chama isso de vida líquida:

 

 

A “vida líquida” e a “modernidade líquida” estão intimamente ligadas. A “vida líquida” é uma forma de vida que tende a ser levada à frente numa sociedade líquido-moderna. “Líquido-moderna” é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir. A liquidez da vida e a sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, não podem manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo (BAUMAN, 2007, p. 7).

 

Na sociedade pós-moderna, tudo é “para ontem”, nada pode ter tempo para maturar. As atividades têm que ser feitas ao mesmo tempo. Os relacionamentos começam e terminam em instantes. Hoje se está com um, amanhã com outro, e a isso se chama erroneamente de liberdade. Nunca houve tanta dificuldade de se relacionar, de construir uma família, embora cresça a cada dia a quantidade de casamentos nas igrejas. Bauman (2004, p. 36) nos socorre nesse momento, nomeando as relações atuais como “relações de bolso”. “Uma “relação de bolso” é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade”.

 

 

A internet

 

 

A internet, como um meio de comunicação que facilita a união de pessoas, acabou se tornando, nesse mundo violento e egocêntrico, algo que veio como uma barreira de proteção para os relacionamentos. Bauman acrescenta a esse pensamento que o virtual  faz com que se gaste menos tempo buscando desenvolver habilidades para se relacionar (Bauman, 2004). Ele continua, afirmando que a internet “promete uma navegação segura (ou pelo menos não-fatal) por entre os recifes da solidão e do compromisso, do flagelo da exclusão e dos férreos grilhões dos vínculos demasiadamente estreitos, de um desprendimento irreparável e de uma irrevogável vinculação” (BAUMAN, 2004, p. 51-52).

 

A presença física deixou de ser imprescindível nesse modelo de comunicação e relacionamento, dando mais espaço para as fantasias. Fantasias do que “eu” queria ser, das capacidades que queria possuir, da idade que gostaria de ter. Enfim, o corpo saiu de cena, temporariamente, para dar vazão à fantasia do meu ideal de ego. É lógico que não acontece isso com todos. Mas, nesse mundo altamente competitivo e narcísico, o “meu” vazio dá lugar àquilo que “eu” acredito que me preenche. Mas isso, muitas vezes, temporariamente, porque, se existe espaço para uma real aproximação, o corpo, como delimitador da realidade, precisa aparecer como ele é. Observemos a argumentação de Pereira e Coelho a partir do pensamento de Semerene:

 

O corpo sempre definiu o espaço do próprio e do individual, na medida em que, sendo único e singular, confere a seu possuidor um lugar específico. A ausência de corpo físico, traduzida por ausência de suporte corporal físico para a relação, faz com que a identidade perca sua territorialização orgânica, o que abre para a possibilidade de invenção de identidades fictícias que nunca serão desmentidas pela identidade corporal própria de cada um, podendo a pessoa, inclusive, possuir mais de uma identidade, como nos fakes. Apesar da ausência do corpo no espaço virtual, a Internet não é um meio que pretere o corpo em prol das ideias, pois a maioria dos conversadores virtuais pede fotos do outro interlocutor e, mesmo nas conversas, as primeiras perguntas são na maioria das vezes uma descrição do físico (SEMERENE, 1999 apud PEREIRA; COELHO, [2011?], p. 9).

 

Assim, antes da identificação com a realidade, pode existir um espaço para a fantasia. Para a construção do que eu desejo, e não do que eu sou. Esse espaço é possível e não necessariamente prejudicial. É o espaço do sonhar e do se permitir. Ele pode passar a ser prejudicial quando foge completamente da realidade. Mas essa liberdade temporária de ir e vir entre identidades pode estimular a capacidade criativa. Pode ser semelhante ao brincar infantil, momento em que a criança imagina ser o adulto, pai ou mãe, o médico, o juiz, o motorista etc. O que vai mostrar se pode ser patológico  o investimento na fantasia é a retirada total da realidade.

 

O ciberespaço é propício à fantasia porque a tela que se abre para o ‘virtual’, deixando a ‘realidade’ em suspenso, desterritorializando-se, adentrando o espaço, também virtual, de uma janela da fantasia. A virtualização assemelha-se, assim, à fantasia, pois emerge, igualmente, de lacunas na realidade. Tanto na virtualização quanto na fantasia o sujeito tenta preencher os furos da realidade, tenta obter satisfação. (FERREIRA-LEMOS, 2011, p. 62)

 

A utilização da internet não é em si algo prejudicial. Ela é um recurso, uma ferramenta que o homem utiliza. Ao utilizar esse meio de comunicação e, consequentemente, de relação, ele projeta tudo o que é ele, consciente e inconscientemente. Do mesmo jeito que o homem cria universidades que transmitem conhecimentos por cursos “virtuais” em teletransferências, chats ou salas de discussão, propiciando o desenvolvimento social e educacional, o pedófilo pode utilizá-la como instrumento para seu ato destrutivo. O meio, o veículo de transmissão, não é o responsável pela conduta atual da nossa sociedade líquida, mas o homem que está na frente da tela. E cabe a ele dirigir seus investimentos nessa forma de comunicação em benefício de si e dos outros ou não.

 

O homem

 

Pensando que o homem se mostra independente do meio, podemos fazer uma especulação acerca de quem é o homem que está na frente da máquina. Buscando o homem, podemos entender os movimentos existentes na grande rede mundial.

 

O homem atual é um homem assustado, que sofre com as mudanças que ele mesmo produziu. Roudinesco (2003), em seu estudo sobre a evolução das famílias, mostra que elas vêm se transformando muito, principalmente nos últimos tempos. A autora diz que a evolução da ordem familiar se distingue em três grandes períodos: a tradicional, que serve para assegurar a transmissão de um patrimônio, a moderna, que enaltece os afetos e é modelada entre o final do século XVIII e meados de XX, e a família contemporânea ou pós-moderna, que surge a partir de 1960, na qual dois indivíduos buscam relações íntimas ou realização pessoal sem que para isso seja necessária uma união eterna. Os laços sociais passam a ser sexualizados. A feminilidade separa-se da maternidade. Essas constantes mudanças influenciaram negativamente o casamento, que perdeu força simbólica e não representa mais o ato fundador da família. Roudinesco continua, afirmando que a família contemporânea é frágil, neurótica e consciente de sua desordem, mas continua a recriar-se através do equilíbrio que a vida social não mais fornece. Surgem famílias monoparentais, coparentais, recompostas, multiparentais etc., e a família passa a ter o poder descentralizado. Ela é reconstruída de forma horizontal, com múltiplas aparências e com o individualismo moderno. O nome, que trazia simbolicamente a soberania da hereditariedade, não é mais a prova da paternidade, devido aos avanços na procriação. Tudo isso mexe com a representação materna e paterna.

 

O ser humano, diante disso, fica confuso e relativamente órfão. A família como modelo co-construtor da identidade se torna fluida, como nos coloca Bauman, e o homem precisa adaptar-se às novas mudanças impostas por ele.

 

A Psicanálise

 

E qual é então o papel da Psicanálise diante dessas modificações do homem e da cultura? Pereira e Coelho nos fornecem uma resposta, pelo pensamento de Kehl:

 

A psicanálise ainda é chamada para oferecer justificativas para o mal-estar, contudo a psicanálise deve convocar a palavra a trabalhar tentando escutar e acolher os efeitos que ela produz, inclusive no campo social. Para ela, o psicanalista não interfere como explicador, mas como questionador expondo a fragilidade que existe sob a aparência das certezas estabelecidas (KEHL, 2002 apud PEREIRA; COELHO, [2011?], p. 18).

 

Cabe à Psicanálise continuar questionando as ciências e os saberes, os sentimentos e sensações. Mergulhar cada vez mais em tudo que é humano, na realidade e na fantasia. Expandir o conhecimento e possibilitar o pensar como forma de encontrar novos recursos humanos para lidar com a vida. Citando Forbes (2005), Pereira e Coelho continuam a desenvolver sua tese:

 

Uma psicanálise pode dar aos analisandos hoje a possibilidade de serem homens e mulheres prontos a todas as circunstâncias, implicando não temer nem recuar diante do encontro, mas suportar e se responsabilizar singularmente pelo acaso que toda circunstância traz, e ainda, ser a sua consequência (FORBES, 2005 apud PEREIRA; COELHO, [2011?], p. 18).

 

É preciso superar os próprios limites, na certeza de se permitir interagir com o meio e com os outros como pessoas diferentes do eu, com ou sem os recursos da internet. A internet pode ser um recurso complementar ao trabalho analítico – como o é o telefone para os agendamentos – e/ou um meio que dá acesso à imaginação e à fantasia. Pode ser feita a escuta do que perpassa esse novo modelo de comunicação e interação. Assim como no corpo humano precisamos codificar percepções sensoriais e transformá-las para fazer a compreensão cerebral e responder ao mundo externo, podemos afirmar que mais um veículo de comunicação pode criar pontes e conhecimento ou não, a partir de como o homem o utiliza.

 

Não afirmo que o setting pode ser de todo substituído pelo ciberespaço ou espaço virtual. Talvez em algumas necessárias intervenções, dentro do processo em andamento – como no caso de uma viagem mais longa – possa servir, temporariamente, como meio de viabilizar a análise. Mas isso ainda é uma possibilidade, uma especulação, que precisa de realização, experiências e pesquisas para se comprovar útil.

 

Enquanto isso, nos dias de hoje, podemos verificar como nossos pacientes utilizam a internet, via projeção e introjeção e, como um acréscimo ao trabalho analítico, entender como ele funciona e como ele se relaciona.

 

REFERÊNCIAS

 

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade das relações humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

CHENIAUX JÚNIOR, Elie. Sensopercepção. In:_________. Manual de Psicopatologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008 (cap.7).

FERREIRA-LEMOS, Patrícia do Prado.  Navegar é fantasiar: relações virtuais e psicanálise. Psico, Porto Alegre, PUC-RS, v.42, n.1, p. 59-66, jan/mar. 2011. Disponível em:. Acesso em: 28 out. 2011.

LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 2009.

PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. Capítulo II: Período Sistemático. In:________. História da Filosofia. 17. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1995, p.114-123.

PEREIRA, Júlio César Mendez; COELHO, Solange. Relações sociais virtuais: uma leitura psicanalítica, [2011?]. Disponível em:

. Acesso em: 28 out. 2011.

ROSSI, Claudio. Invenção-Tradição. In: Congresso da Federação Psicanalítica da América Latina. Invenção e tradição, 2012 (publicação distribuída aos participantes antes da realização do congresso).

ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

SEGAL, Hanna. Sonho, Fantasia e Arte. Rio de Janeiro: Imago, 1993.

 


 

Sinopse: A autora faz um ensaio sobre a influência da internet e do virtual na vida do homem moderno, procurando entender como a Psicanálise pode participar e auxiliar na compreensão dessa nova tecnologia da comunicação. Utiliza-se do estudo das fantasias, da filosofia, das neurociências, da sociologia e da compreensão do contexto familiar atual para apoiar suas reflexões, buscando entender qual o papel do psicanalista diante do mundo virtual.

 

Palavras-chave: ser humano, relações virtuais, Psicanálise, fantasias.

 

Abstract: The authormakesanessayontheinfluenceofthe Internet andthe virtual lifeofmodernmantryingtounderstandhowpsychoanalysiscanparticipateandassist in theunderstandingofthis new communication technology. She uses thestudyofthe fantasies, philosophy, neuroscience, sociologyandcurrentunderstandingofthefamilycontexttosupportyourstudyseekingtounderstandthe role ofthepsychoanalystonthe virtual world.

 

Keywords: human, virtual relations, Psychoanalysis, fantasy.

 

 

 

Petruska Passos Menezes

Psicóloga 19/0636

Psicanalista em Formação pelo NPA/SPRPE

petruska@ymail.com

data de publicação: 07/02/2014

 

 


[1]A versão original deste trabalho foi apresentada na XI Jornada de Psicanálise de Aracaju, do Núcleo Psicanalítico de Aracaju, em novembro de 2011, e publicada na Revista de Psicanálise Reverie (v. 5, n. 1, 2012), do Grupo de Estudos de Fortaleza.

 

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