Em 03/12/2013
 

As representações das dinâmicas familiares na tela da televisão

O que podemos pensar a respeito daquilo que é posto nas novelas? É possível compreender as dinâmicas familiares pela tela da televisão? Elas são retratos da vida comum? Esta semana Petruska Menezes traz o olhar psicanalítico sobre as relações familiares


As representações das dinâmicas familiares na tela da televisão

 

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Nas duas últimas semanas, quem assiste novela tem acompanhado cenas – com grande repercussão nas redes sociais – de uma família que vem se desmembrando. Tido como vilão, o personagem do filho, nos capítulos iniciais, almejando a diretoria e a herança do hospital da família (confundindo o poder com a aceitação do pai, principalmente) sequestra e abandona em uma caçamba sua sobrinha recém-nascida.

 

Nos capítulos das últimas semanas, a família descobre a atrocidade cometida pelo personagem e, horrorizada com o ocorrido, expulsa-o da empresa e de casa. Mas o autor da novela, brilhantemente, não se contenta em “punir o vilão”, e resolve mostrar o outro lado da moeda. O filho “excomungado” descobre que foi preterido desde criança, que seu período de gestação foi turbulento e ainda que, durante o parto, tanto ele como a mãe quase morreram. Ele descobre também que a mãe perdeu logo cedo a possibilidade de amamentá-lo, pois seu leite “secou”, tendo ele sido amamentado por uma ama de leite. Ele se tornou uma criança que chorava muito e, por conta desse choro, a babá, procurando dar atenção a ele, não viu quando seu irmão mais velho caiu e se afogou na piscina. Com essa perda, a mãe entrou em depressão e se afastou dele por dois longos anos de sua infância. Somente depois desse período – enorme para uma criança – passou a cuidar exclusivamente dele, dedicando-lhe toda a atenção. Numa conversa com o pai, este o culpa pela morte do irmão e, mais uma vez, renega-o por seus traços afeminados e por sua “escolha” sexual.

 

Essa história, mesmo sendo fictícia, nos oferece elementos para especular algumas coisas do ponto de vista da psicanálise. Os bebês nascem com uma maior ou menor capacidade de suportar as alterações do ambiente, as mudanças de seu corpo e de lidar com suas emoções e sentimentos. Uns terão maior tolerância ao se decepcionar com os acontecimentos da vida, tendo, portanto, maior resiliência. Outros precisarão ser estimulados a isso, a buscar recursos em si para lidar com as adversidades da vida, com a descoberta de seu corpo e com seus sentimentos. Mas, nesse processo, o amor e o cuidado dos pais são fundamentais. Só é possível dar amor quando se recebe amor. Na criação dos filhos, os pais (ou os seus representantes) precisam ter uma capacidade mínima de acolhimento, carinho, dedicação e amor, pois esses sentimentos serão o alimento para o desenvolvimento de uma criança com capacidade de lidar com o mundo. Tanto a criança calma, tolerante, sorridente e que pouco chora quanto a que chora muito e demanda muitos cuidados necessitam desse alimento afetivo dos pais. Para suportar as dores e as situações que a vida nos coloca, todos nós, desde pequenos, precisamos de um ambiente favorável para desenvolvermos a capacidade interna de tolerância.

 

Na conversa com o pai, o filho diz algo do tipo: “Mas, pai, um homem pode nascer afeminado e ser homem, ou ser muito másculo e gostar de homens. Eu era uma criança...”. Na busca da construção de sua identidade e tentando religar os pontos que constroem o seu passado e podem justificar alguns sentimentos de seus pais por ele, o filho passa a compreender sua história de uma nova maneira e, durante a conversa com o pai, protesta: “Mas eu era um bebê, vocês estão me culpando pela morte de alguém porque eu chorei e a babá foi me socorrer?”

 

E agora? O autor nos brinda com a realidade, revelando-nos que ninguém é totalmente mau ou totalmente bom. Os pais, tentando diminuir o sentimento de culpa pela perda de um filho, passam a projetar esse sentimento em outras pessoas. A mãe culpa a babá, e o pai, o bebê. Nosso protagonista ainda diz: “E vocês? Não têm culpa? Não poderiam ter posto uma lona na piscina, uma gradinha?”.  O autor dá uma reviravolta nos sentimentos do público, que até então julgava o personagem como um vilão perverso e inescrupuloso, e passa a mostrar o pai e a mãe como pessoas que não souberam ou não puderam acolher seus filhos. Tudo isso também mostra que a vida vai nos apresentando acontecimentos incontroláveis levando-nos, em parte, a fazer escolhas e, em parte, a somente vivê-las ou suportá-las.

 

Uma criança que passou dois anos de sua vida órfã de pai e mãe vivos pode ter algum comprometimento afetivo. Quando a mãe sai da depressão e se dá conta de que tem outro filho, empenha todas as suas energias nos cuidados com o filho sobrevivente e intensifica ao extremo sua relação com ele, de forma a não permitir nem ao pai e nem a ninguém invadir essa relação, recheada de culpa e de tentativas de reparação. A forma como o personagem constrói sua identidade é invasivamente modelada pela mãe, que excluía o pai e não o deixava se aproximar, o que ele mesmo verbalizou na conversa com o filho. Acredito que o autor queira representar, pela atuação dos personagens, o que acontece em muitos casos da vida real, na qual não existem vilões e mocinhos, mas pessoas que constroem sua identidade de acordo com a capacidade de suportar a frustração, as adversidades da vida, em conjunto com aquilo que recebem dos que estão a sua volta. Estamos falando de sentimentos. Somente recebendo sentimentos bons (amor, carinho, atenção) é que o bebê pode desenvolver ferramentas internas para reproduzi-los e interagir com as pessoas.

 

O intuito destas reflexões não é justificar a má conduta do personagem, muito menos isentá-lo de suas responsabilidades, até porque a influência do acolhimento dos pais se relaciona também ao que receberam dos seus próprios pais, dos pais dos pais (avós) e assim sucessivamente. A ideia é que possamos refletir sobre o que estamos fazendo de melhor por nós mesmos e pelos outros. Através da representação da vida, a novela nos permite pensar sobre nossas atitudes e, se quisermos, construir caminhos com mais compreensão e amor. Não é possível ser somente bom ou somente mau. Fazer das experiências da vida um aprendizado é a diferença na possibilidade de mudança. A “compreensão de Ser” se dá, em parte, pelo conhecimento do que se viveu e, em parte, pelo que trazemos conosco desde o nascimento. O crescimento e a troca entre pessoas é fundamental, principalmente entre familiares. Enfim, o conhecimento de si mesmo em conjunto com o que recebemos de quem amamos na infância nos ajuda a construir o nosso caminho e fazer as nossas escolhas.


 

 

Petruska Passos Menezes

Psicóloga CRP19/636,

Psicanalista em Formação pelo NPA/SPRPE

petruska@ymail.com

data de publicação: 03/12/2013

 

 

Perfil da Psicóloga Petruska Menezes 

 

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