Em 28/11/2017
 

Sobre o Pré-Congresso Bion em Aracaju

Por Adalberto Goulart, Presidente do Núcleo Psicanalítico de Aracaju e Membro Efetivo e Didata da SPRPE


O site do Encontro Internacional Bion 2018, que será realizado na cidade de Ribeirão Preto (SP) entre os dias 26 a 28 de Julho, publicou um texto escrito pelo psicanalista Adalberto Goulart (Presidente do Núcleo Psicanalítico de Aracaju e Membro Efetivo e Didata da SPRPE), falando sobre o evento preparatório que ocorreu em Aracaju nos dias 24 e 25 de Novembro de 2017, o Pré-Congresso Bion - "Pensamentos Selvagens".

 

Confira aqui a publicação original e abaixo a reprodução do texto:

 

por Adalberto Goulart, Presidente do Núcleo Psicanalítico de Aracaju e Membro Efetivo e Didata da SPRPE

 
Inicio com um agradecimento muito especial à SBPRP, representada aqui pelo Dr. José Cesario Francisco Jr., amigo já de longas datas, a quem tenho grande admiração e respeito.
 
Após as edições da Argentina, do próprio Brasil, do Chile, da Espanha, dos Estados Unidos, da França, do Marrocos e da Itália, a SBPRP sediará em julho do próximo ano o Encontro Internacional Bion2018, recebendo importantes pensadores de sua obra de diversos países.
 
Aceitamos com honra e responsabilidade o convite feito por SBPRP para organizarmos este Pré-Congresso, à semelhança do que já ocorreu em setembro na própria Ribeirão Preto, em novembro, no Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Fortaleza, e dos que ocorrerão na Itália, em Curitiba, Goiânia e Brasília, dentre outros.
 
Agradeço ainda a todos os colegas do Núcleo Psicanalítico de Aracaju, em especial ao seu Diretor Científico, Dr. Yusaku Soussumi, que prontamente abraçaram o projeto.
 
E agradeço também, de maneira especial, aos Drs. Deocleciano Bendocchi Alves, Claudio Castelo Filho, Carlos de Almeida Vieira, Daniel Delouya, Sônia Soussumi e Márcia Câmara, todos importantes pensadores da obra de Bion, por terem gentilmente atendido ao nosso chamado para este encontro.
 
Penso, com o Dr. Wilfred R. Bion, que temos uma dívida de gratidão com os nossos ancestrais. Não apenas aos de nossa família ou de nossa família psicanalítica. Não apenas aos conhecidos, mas também aos desconhecidos. Não apenas aos ancestrais da nossa recente humanidade, mas a todos os nossos ancestrais desde as primeiras formas de vida.
 
Pois bem: Qual é o nosso interesse? Para que estamos reunidos aqui? Sobre o que iremos conversar? Poderíamos dizer, é claro, Psicanálise. No entanto, simplesmente essa palavra não significa nada. É um termo usado quando queremos falar sobre isso, mas não diz o que isso é. Não é possível cheirá-la, nem tocá-la, nem olhá-la. É muito difícil, de fato, afirmar qual é o componente sensível da Psicanálise. Desta maneira o Dr. Wilfred Bion inicia um dos seus seminários italianos, em Roma, em 1977 e com estas palavras também desejo iniciar este nosso Pré-Congresso Bion em Aracaju aqui agora, o que tentarei fazer citando algumas passagens de seu pensamento contidos nos Seminários Italianos (Ed. Blucher, 2017) e em Domesticando Pensamentos Selvagens (Ed. Blucher, 2016).
 
Numa referência a Freud 1926, Dr. Bion nos lembra: Há mais continuidade entre a vida intrauterina e a infância precoce do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos permite acreditar.
 
Qual seria então a data do nosso nascimento?, pergunta Bion. Qual foi o local do nosso nascimento? Quando foi que nossas fossas óticas se tornaram funcionais, durante a ocasião em que apareceu a nossa terceira protovértebra? Quando nossas fossas auditivas se tornaram funcionais?
 
E prossegue, assinalando que embriologistas descrevem fissuras branquiais e falam da evidência da sobrevivência delas no corpo humano. Seria mais viável se algum dia fomos peixes, ou se ainda fôssemos, ou se ainda conservamos elementos que persistem na nossa constituição que seriam apropriados à nossa natureza de peixes? Também falam sobre caudas vestigiais. Se tais vestígios existem em relação ao corpo, por que não estariam acontecendo em algum lugar em relação ao que chamamos de mente? Seria possível que algumas de nossas características seriam mais compreensíveis se fôssemos animais aquáticos ou se vivêssemos nas árvores?
 
Bion inicia o resgate da origem da mente na essência do corpo, no funcionamento somático, como Freud nunca deixou de pensar e que, no entanto, permaneceu apartado do pensamento psicanalítico durante muitos anos.
 
Quem ou o que poderá vir em nosso auxílio para tantas importantes e difíceis questões?
 
Bion nos ensina que a ajuda mais importante que um psicanalista poderá ter não provém do seu analista, nem de seu supervisor, nem de professor, nem de livros ou de textos, mas de seu paciente. Apenas ele sabe o que é sentir ser ele ou ela. Apenas ele sabe o que é ter ideias como ele tem. Não existe tal coisa como corpo e mente, existe um ele ou ela único específico.
 
Daí a importância de podermos ouvir, ver, cheirar, sentir qual é a informação que o paciente está tentando transmitir, ele é o único que conhece os fatos, ninguém mais.
 
O que temos de mais valioso é a evidência e as informações que os nossos sentidos nos trazem, somos, portanto, dependentes de um sistema nervoso saudável que pode ser excitado.
 
Quais são, então, as terminações nervosas que estão sendo estimuladas no analista? A partir desses estímulos, ele é convidado a expressar sua opinião sobre quem ele é e não sobre quem é o paciente ou analisando. Não poderia ser diferente.
 
Mais do que qualquer história, relato ou informação recebida, o que de fato nos interessa e poderá nos ser útil, é a evidência disponível diretamente aos nossos sentidos, quando estamos diante de um paciente, dizia o Dr. Bion. Os pacientes são os nossos maiores mestres, a quem devemos respeito e humildade.
 
Bion conta que certa vez lhe perguntaram se, em análise, ele alguma vez fez algo além de falar? Ao que ele teria respondido: sim, fico calado. Dizia que em análise preferia poder permanecer em silêncio para que os seus ruídos não se somassem aos ruídos dos pacientes, privilegiando assim o que podem captar os seus sentidos, por exemplo os ruídos de uma pessoa começando a ter esperança de que poderá ser resgatada.
 
Chamando a atenção para a importância da linguagem e do quanto deverá ser o mais clara e precisa possível, nos diz que em análise a linguagem é indistinta da ação, manifestando o encontro de inconscientes na sessão.
 
Em diversas ocasiões nos disse que o amor à verdade é um dos principais atributos que um psicanalista precisa ter e que, de maneira geral, a mente humana tende a fugir de verdades penosas. Em relação aos nossos pacientes, diz que é muito difícil acreditarem que falamos realmente o que queremos dizer. De certa forma, os pacientes estão cobertos de razão, muito pouca gente fala o que quer dizer, o que dificulta acreditar que é isso o que o analista está fazendo. Levará um certo tempo, portanto, até que os nossos analisandos comecem a desconfiar de que, de fato, falamos o que queremos dizer.
 
Por outro lado, nos diz que a fala é uma habilidade adquirida muito recentemente na curta história da humanidade, sendo assim, seria perigoso ignorar o fato de que há muitas outras formas de comunicação.
 
Lembra, por exemplo, que psicóticos e borderlines têm conhecimento de coisas que a maioria de nós aprendeu a esquecer. A emoção é comunicada de uma pessoa para outra, de um sistema corpo/mente a outro sistema corpo/mente sem passar necessariamente pela fala.
 
Tornamo-nos tão inteligentes, diz o Dr. Bion, que já ouvi dizer que as ideias não existem nas crianças e embriões porque as fibras não estão mielinizadas e, portanto, não conseguem pensar, o que não faz o menor sentido se observarmos uma criança bem pequena, um bebê ou mesmo, com os recursos que temos hoje, se observarmos o comportamento da vida pré-natal. Existem ideias que jamais foram conscientes. Além disso, pode existir algum outro estado de mente, talvez um  estado de mente inacessível, nem consciente, nem inconsciente, condizente com as raízes do aparato mental mergulhadas nas entranhas do corpo.
 
O que buscamos então? Talvez apresentar essa pessoa pós-natal, que é altamente inteligente, ao altamente inteligente embrião, que poderia contar histórias muito diferentes sobre os mesmos fatos, convida-nos a imaginar, o Dr. Bion.
 
Estamos em todo lugar cercados pelos destroços das curas, os restos dos destroços do desastre no qual alguém foi abatido pela cura, abatido por seus desejos, iludido por suas esperanças e temores.
 
Em análise, é necessário esquecermos teorias e desejos como estes, que podem ser obstrutivos como cesura e tentarmos permitir que o germe de uma ideia ou interpretação tenha chance de sobreviver e se desenvolver, nos diz.
 
Análise não é uma espécie de confessionário, onde se conta histórias, como alguns acreditam, isso faria com que deixássemos de dar atenção a algo verdadeiro que o paciente está tentando comunicar, só assim poderemos dar espaço ao crescimento mental, que é o que nos interessa realmente. Portanto, é necessário interpretar o relacionamento do paciente com ele mesmo, fornecer o espaço onde ele possa se desenvolver. O que éramos antes não é importante, rapidamente se torna passado, e com o passado nada poderemos fazer.
 
É preciso darmos chance a um germe de um pensamento. Ousar pensar ou sentir seja o que for, não importando o que outras pessoas ou instituições possam pensar disso: imaginações especulativas, ideias especulativas e razões especulativas. Esta é a parte excluída que assume um grande papel e pode até nem ter emergido ainda na teoria psicanalítica. Devemos acolher a imaginação especulativa na esperança de que possa se transformar numa ideia comunicável.
 
Precisamos ousar permitir que pensamentos selvagens se hospedem em nossas mentes. São pensamentos sem pensador, flutuando em algum lugar, a procura de alguém que possa hospedá-los, dando oportunidade a que sobrevivam, se desenvolvam, alguém que possa pensa-los.
 
Estamos autorizados a sonhar, por outro lado, termos uma alucinação ou delírio não seria tão respeitável assim. Tudo depende da ousadia de entreter um pensamento selvagem, seja acordado ou dormindo e da capacidade de acordar. Haverá sempre, no mínimo, uma pessoa capaz de ouvir o que pensamos: nós mesmos, nos diz, lembrando que o óbvio é, muitas vezes, o mais difícil de se ver.
 
Somos tão instruídos que tornou-se praticamente impossível chegar à sabedoria. É necessário descobrir algum processo que nos habilite esquecer aquilo que aprendemos, para tornar-nos sensíveis para os sentimentos e pensamentos fundamentais e básicos, que possam ainda ter sobrevivido. É possível que haja algum vestígio de sabedoria na raça humana.
 
Assim, convidei a todos para, juntos, irmos em busca de tais vestígios e assim foi, durante dois dias, 24 e 25 de novembro de 2017, o nosso Pré-Congresso Bion em Aracaju. Um rico encontro de idéias, experiências, debates e trocas afetivas, num diálogo com um público formado por psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, profissionais de outras áreas e também muitos estudantes interessados. Recebemos ainda diversos colegas de Alagoas e da Bahia, estados vizinhos, que prestigiaram e enriqueceram ainda mais o nosso evento.
 
Foram oito conferências e uma mesa redonda com todos os conferencistas, em que pudemos discutir um material clínico anônimo, como estímulo ao nosso pensar.
 
A SBPRP e o Encontro Internacional Bion2018 foi lembrado durante todo o evento, quando pudemos também exibir o vídeo de divulgação, convocando a todos para estarem presentes em julho próximo, em Ribeirão Preto.
 
Assim, penso que alcançamos o nosso objetivo, com um aquecimento bastante profícuo para estarmos em breve, novamente juntos.

 

 

 

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