Em 04/05/2017
 

A garotinha que conheceu o mar

A partir de cenas do cotidiano, Ana Rita Menezes se aproxima do pensamento de Bion


* As ideias e opiniões contidas no texto são de responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião do NPA.
 
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A garotinha que conheceu o mar
 
Para mim a praia é o melhor lugar para estudar. Vou sempre que posso, levo minha cadeira e me sento pertinho do mar, abro meu livro, embarco na leitura e entre um mergulho e outro vou pensando, anotando, estudando, observando...
 
Hoje, em especial, uma cena me chamou a atenção. Uma garotinha está sentada a beira mar na companhia de seus pais. A mãe cava um buraco na areia e a garotinha bate palmas e entra na sua piscina, porém ela quer mais... Ela quer conhecer o mar.
 
Sob o olhar atento dos pais, a garotinha tenta entrar no mar. Tímida e assustada a cada novo perigo, volta correndo para o colo da mãe e juntas riem e aplaudem a nova onda. Esse movimento se repetiu por um longo tempo, sempre com a mesma dinâmica. A diferença era que a garotinha, a cada nova incursão, aumentava a distância, sempre sob o olhar atento dos pais, até que, confiante, permanece parada esperando a onda que chega. Seus pais então se acercam, seguram as suas mãos e a garotinha, sorrindo, começa a pular todas as ondas.
 
Em nenhum momento os pais mandaram a garotinha voltar, ou gritaram que era perigoso.
 
Estavam ali, atentos, oferecendo colo diante do¨ perigo¨, permitindo assim que a garotinha realizasse sua própria experiência.
 
Volto meu olhar para uma outra família. A mãe com o celular nas mãos, saca selfies sem parar, nas mais diversas poses. Em algumas inclui o pai, em outros momentos saca fotos dos seus filhos, dois meninos. O garotinho maior pega sua bola e vai jogar, sozinho. O garotinho menor caminha devagar pela areia, descalço, parece experimentar a textura da areia sob seus pés. Sozinho.
 
Em um momento o garotinho maior se aproxima da mãe enquanto ela saca mais uma selfie e é seguido pelo garotinho menor. Agora estão todos na selfie.
 
Os garotinhos parecem intuir que o único olhar possível é através de uma câmera fotográfica .
 
Meus pensamentos seguem o movimento das ondas e nesse movimento lembro dos textos de Bion.
 
As sensações corporais e as primeiras vivências emocionais dão origem aos protopensamentos, chamados por Bion de elementos alfa. Essas vivências e experiências emocionais em estado bruto são percebidas pela mãe, que na presença de uma boa condição de reverie, com uma adequada função alfa nomeia, dá sentido, um significado àquelas vivências emocionais em estado bruto, num processo de alfa betização emocional, o que permite ao indivíduo poder pensar as suas próprias emoções e vivências e assim aprender com a experiência .
 
Favorecida pela capacidade de reverie materna, a garotinha, aterrorizada diante da imensidão do mar desconhecido, corria para o colo da sua mãe que a acolhia, esperava a onda e aplaudiam a sua chegada dando um sentido, nomeando uma experiência assustadora. Incorporada a função alfa a garotinha pôde então vivenciar as suas próprias experiências e assim conhecer o mar. 
 
Os garotinhos? Ah, eles serão a inspiração para um novo texto.
 
Ana Rita Menezes da Silva de Pineyro
Psiquiatra
Psicanalista em formação pela Sociedade Psicanalítica do Recife.
anaritamenezessp@gmail.com

 

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