Em 01/03/2017
 

Entrevista - Sonia Soussumi (SBPSP, SPR, NPA)

A psicanalista aborda as articulações entre saúde mental e justiça, as diferenças entre psicoterapia em grupo e individual, além de outros assuntos.


Contando com experiência no Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual (CEARAS - São Paulo), a psicanalista Sonia Soussumi (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), atualmente, reside na cidade de Aracaju, fazendo parte do NPA e da Sociedade Psicanalítica do Recife como membro associada. Atuante ainda no âmbito clínico com Psicanálise e Psicoterapia de Adultos, Família e Casal, é Especialista em Psicanálise pelo Programa de Pós-Graduação Latu Sensu da Universidade Católica Dom Bosco (Mato Grosso do Sul) e Especialista em Bioética pelo Programa de Mestrado do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica e Medicina do Trabalho (FMUSP). Nessa entrevista concedida exclusivamente para o site do NPA, Sonia aborda as possibilidades de articulação entre saúde mental e justiça, as similaridades e diferenças existentes entre a psicoterapia em grupo e individual, os desafios para a psicanálise em um contexto local, além de outras temáticas. Confira:
 
Entrevista elaborada pela Assessoria de Comunicação do Núcleo Psicanalítico de Aracaju
 
NPA: Em Março de 2017, o Núcleo Psicanalítico de Aracaju dará início a mais uma turma de formação em Psicoterapia Psicanalítica, atividade que contará com a sua participação como coordenadora de alguns seminários teóricos e clínicos, além de ter colaborado na elaboração do conteúdo programático. Qual é a importância desse curso para os estudantes e profissionais interessados?
 
Sonia Soussumi - Por ser um curso de formação em Psicoterapia de Orientação  Psicanalítica, ele fornece uma formação sólida, tanto  para os estudantes que desejam trabalhar na clinica privada ou institucional, como para os profissionais que já estão trabalhando nesta modalidade de trabalho psicoterápico, mas que não tiveram em sua formação acadêmica um programa com metodologia específica para Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, que é diferente da metodologia e abordagem do trabalho de Formação em Psicanálise, fornecidos pelas Sociedades de Psicanálise filiadas à IPA, Internacional Psychoanalitical Associstion, sediada em Londres e fundada por Freud em 1910.
 
O curso sobre formação em Psicoterapia oferecido pelo Núcleo Psicanalítico de Aracaju é coordenado por psicanalistas pertencentes às Sociedades de Psicanálise de Recife e São Paulo e filiados à Associação Internacional de Psicanálise-IPA. A docência é exercida  por psicanalistas com vasta experiência, tanto na áreas clínica como acadêmica.
 
NPA: Quais os benefícios decorridos da aproximação da psicanálise com instituições diversas, a exemplo de organizações não-governamentais e aquelas ligadas ao trabalho em parceria com a Justiça?
 
Sonia Soussumi - Um dos benefícios é o conhecimento sólido da Psicanálise, com seu Setting de Atendimento Ampliado, saindo da postura rígida para a  empática no que diz respeito às demandas psíquicas, materiais e culturais que tais atendimentos demandam. A psicanálise associada a um grupo transdisciplinar de profissionais, pode proporcionar uma abertura  ao entendimento de questões sociais e uma saída para questões que até hoje foram vistas apenas  do ponto de vista político, artístico, comportamental e judicial.
 
NPA: Como a psicanálise contribui para a experiência em atendimento de famílias disfuncionais, principalmente aquelas com histórico de abuso sexual intrafamiliar? Poderia nos falar mais sobre esse tipo de trabalho?
 
Sonia Soussumi - As famílias com histórico de abuso sexual são chamadas de famílias incestuosa ou disfuncional. A palavra  disfuncional, diz respeito ao fato de que as famílias incestuosas apresentam uma ausência de diferenciação em suas funções parentais e filiais. O trabalho com este tipo de família requer uma formação especializada, onde a família é vista do ponto de vista psicanalítico, como uma unidade não discriminada e com histórico de incesto trangeracional.
 
O incesto deve ser visto não como um tabu, de forma moralista e com diagnóstico de perversão, mas como um sintoma da existência de uma parada no desenvolvimento psíquico em níveis muito primitivos, que em psicanálise são chamados de pré genitais., não tendo noção de diferenças, individuação, discriminação, empatia, regras sociais, entre outros aspectos.
 
NPA: Sobre as especificidades existentes entre o atendimento individual e familiar, quais seriam as diferenças mais significativas, levando em conta tanto a dinâmica de trabalho do analista/psicoterapeuta, bem como a dinâmica subjetiva envolvida em cada experiência?
 
Sonia Soussumi - Se falarmos em atendimento psicoterápico individual e familiar em geral e não em famílias incestuosas, podemos dizer que na modalidade o atendimento clínico individual temos: a) psicanálise, psicoterapia de Orientação Psicanalítica; b)  psicoterapia de várias modalidades que estão presentes nos cursos de psicologia e cursos de formação, tais como psicodrama, cognitivista, do Ego, transpessoal, junguiana, reichiana ,etc.
 
O atendimento familiar só pode ser psicoterápico, uma vez que não existe psicanálise familiar, assim como psicanálise de casal ou de grupo. Então pode ser feito por psicanalistas e psicoterapeutas. Já a Psicoterapia de Famílias Incestuosas, com o vértice psicanalítico, pode ser feito por Profissionais da Saúde Mental, não necessitando ser psicoterapeuta ou psicanalista, por ter uma abordagem própria.
 
NPA: A psicanálise sempre esteve muito próxima de outros campos do saber, a exemplo da filosofia, da literatura, da antropologia e, atualmente, das neurociências. De que maneira essa confluência é importante para a formação do analista na atualidade?
 
Sonia Soussumi - Penso que ter conhecimento de outras ciências é enriquecedor para todo profissional e portanto para o psicanalista. Mas vai depender do nível de maturidade, cultura (no sentido de conhecimento), que este profissional vai ter, para que possa se beneficiar destas outras disciplinas, não perdendo de vista que a psicanálise pode se enriquecer com outras áreas do conhecimento humano ,assim como contribuir também com as mesmas, se não perder sua especificidade, que é  ter o conceito de  Inconsciente como centro de sua investigação.
 
NPA: A partir do ano passado (2016), a cidade de Aracaju tornou-se, além de tudo, um novo lar. Daquilo que você pôde perceber, até então, quais são as potencialidades e desafios existentes para a prática da psicanálise no estado, levando em conta as suas diversas possibilidades de atuação?
 
Sonia Soussumi - Em relação às potencialidades, tenho tido a experiência de ser Aracaju, uma terra fértil da psicoterapias, com grande número de profissionais de diversos saberes psicoterápicos produzirem atividades profissionais como, palestras, filmes, debates, e mesmo  formação de  grupos para reuniões com troca de ideias.
 
Aracaju é uma cidade que palpita vida acadêmica, onde fervilham atividades psicoterápicas. No campo da Psicanálise tenho tido a experiência apenas no NPA, e apesar de já estar associada à Sociedade de Recife, ainda não tive a experiência com troca de ideias entre os meus pares, pertencentes a esta Sociedade.
 
Em relação aos desafios: ajudar ao NPA na tarefa de vir a se tornar mais uma Sociedade de Psicanálise no Brasil, que possa proporcionar uma formação ética, séria e profunda, tanto para os profissionais que pretendem fazer a formação psicanalítica. Além de implantar em Aracaju um Centro de Atendimento e Estudos Relativo às Famílias Incestuosas.

 

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