Em 23/09/2016
 

Agulha que tece o tempo

Em novo texto para o Psicanálise e Cotidiano, Rafael Santos fala sobre nossa interação com o tempo


Agulha que tece o tempo
 
* As ideias e opiniões contidas no texto são de responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião do NPA.
 
Quer imprimir ou arquivar? Clique aqui.
 
O tempo é alvo de curiosidade de uma série de saberes, desde a filosofia, a psicologia, a psicanálise até a física e a biologia. No campo da física, por exemplo, Einstein pôs em xeque o aspecto absoluto do tempo, transformando aquilo que se conhece como espaço-tempo. Um exemplo interessante sobre isso está na observação de Stephen Hawking, ao ilustrar que a luz que vemos das galáxias partiram há bilhões de anos, dessa forma “quando olhamos para o universo, nós o vemos como ele era no passado”.
 
As discussões da física quântica e de outros campos diversos trazem contribuições importantes para pensar o tempo e o espaço. Contudo, me interesso aqui pela viagem pessoal para o (nosso) passado, recriado no presente, e o vislumbre de um futuro, fruto da nossa capacidade imaginativa, baseada em nossa experiência.
 
A maneira como as pessoas se relacionam com o tempo possui ligação direta com a construção da sua dinâmica pulsional e funcionamento psíquico, além da interferência das demandas sociais, configurações econômicas e contextos culturais, compondo uma maneira particularizada de viver o tempo. Historicizar passado, presente e futuro significa tecer, com um fio, o tempo. Representar nosso desejo, dores e pulsões, na medida em que isso é possível.
 
Imaginemos então um mundo sem relógios e sem qualquer aparelho objetivo de medição. O tempo, nesse mundo, seria percebido a partir da nossa relação íntima com ele. O tempo linear do relógio (Chronos na mitologia grega), nesse sentido, funciona como uma espécie de bússola de navegação, que ajuda os navegadores a não ficarem à mercê de “uma noite de tempo bom, estrelada, para determinar a direção que seguiam”. Contudo, há também o nosso tempo, Kairós, representando na mitologia o “tempo oportuno”, experimentado intimamente e não redutível a quantificações concretas. Essas questões são exploradas por Maria Rita Khel em seu livro sobre a depressão – O Tempo e O Cão. Chronos e Kairós estão em interação constante e os aspectos dessa interação é uma das problemáticas possíveis de serem desenvolvidas em processos psicoterapêuticos e analíticos.
 
Segundo Freud, o trabalho com a organização do tempo seria realizado pelo sistema consciente, enquanto "os processos do sistema Ics. são intemporais; isto é, não são ordenados temporalmente". Ou seja, por mais que nos organizemos em planos, metas e prazos, a temporalidade que pulsa em nossa intimidade é sempre de outra ordem, atuando em outra lógica. Dessa interação constante conflitos diversos podem ocorrer.
 
Na atualidade, o tempo tornou-se uma espécie de tirano, sempre à espreita, aproximando-se da figura usual da morte no imaginário ocidental. De “tecido da vida”, como se refere Antônio Cândido, lembrado por Khel, passa a ser um obstáculo, o que traz diversas repercussões em relação aos processos de subjetivação contemporâneos. Trata-se, então, de uma relação perseguidor-perseguido com o tempo (“correr atrás do tempo”, “não perder tempo”, “tempo é dinheiro”). Nesses casos, ou o tempo é fugidio demais; ou é uma necessidade da qual não se pode abrir mão.
 
A psicanálise busca outra temporalidade, em que nosso desejo - ou seja, nossa singularidade - possa se imiscuir nas horas, dias, anos. E se o tempo tem a ver com o que a gente é, quando mudamos o que somos, também estamos transformando a nossa temporalidade. Passado e futuro comprimidos nos instantes que não param de se mover. Para Winnicott, por exemplo, a vivência criativa do tempo está diretamente ligada à confiança na continuidade do ser. O que, de alguma maneira, poderia traduzir como a capacidade de vivenciar o tempo sem acreditar que ele irá nos destruir. Assim, o humano é uma “amostra-no-tempo da natureza humana”.
 
Temporalizar a nossa história de vida, portanto, não é contar as horas, nos apressarmos com resultados instantâneos, mas nos perguntamos: quem somos nós diante do fio do tempo? A ação do desenhar nos diz muito sobre a nossa experiência com o tempo – e, portanto, com a vida. Diante de uma folha, escolhemos compor uma paisagem, por exemplo, primeiro imaginando-a em nossa mente, projetando aquilo que “ainda não é” no papel, de antemão antecipando possibilidades, dificuldades, cores, sentimentos. Nesse caso, o futuro é a ilusão que nos permite a previsão e o planejamento, mas que, no entanto, não temos controle. Para prever a paisagem desenhada, o passado também se atualiza, através das marcas da memória presentificadas. Por conta disso, muitas vezes acreditamos estar vislumbrando o futuro, quando na verdade estamos enxergando relevos do que já passou.
 
E se a mente existe a partir do corpo, como nos diz o psicanalista italiano Armando Ferrari, é possível também pensarmos nesse tempo do relógio, medido e criado pela invenção humana, como uma maneira de lidarmos com aquilo que se passa conosco: “É o presente corpóreo que torna patente as categorias de futuro e passado”, afirmou Ferrari. O cronológico como uma invenção do homem para acompanhar aquilo que o marca na carne.
 
O que esperamos, então, do tempo? A temporalidade no contexto do desenvolvimento psíquico pode ser exemplificada na situação em que o bebê, não tendo a sua necessidade de fome satisfeita no momento (ou tempo) que lhe convém, passa a alucinar o seio da mãe, lidando com a frustração através da sua produção imaginativa, até a medida do possível (ou seja, uma hora precisamos comer e não apenas sonhar). Nossos recursos imaginativos, dessa forma, desorganizam a seta temporal, transformando o antes em agora, o depois em presente.
 
Isso me faz pensar naquilo que o ser humano parece esquecer e ignorar com uma certa frequência: tanto lembranças do passado como previsões para o futuro são originários da nossa imaginação. E assim andamos, a cada letra escrita e a cada palavra lida, sob o silencioso som do pulsar que recria a vida: mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez...
 
Referências utilizadas no texto:
 
FREUD, Sigmund. O inconsciente. Obras completas, v. 14, p. 153-214, 1915.
HAWKING, Stephen. Uma breve história do tempo. Editora Intrinseca, 2015.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão. Boitempo Editorial, 2009
WINNICOTT, Donald. Natureza Humana. Rio de Janeiro, Imago, 1990.
 
 
Rafael Santos Barboza
Graduando em Psicologia pela Universidade Tiradentes
Participante do Curso de Psicoterapia Psicanalítica pelo Núcleo Psicanalítico de Aracaju
Email: santosbrafael@gmail.com
0 comentário(s) | Envie seu comentário
Envie seu comentário
Seu nome *

Seu e-mail *
Seu comentário *
Comentário(s)
 

Leia também

A garotinha que conheceu o mar 04/05/2017

A partir de cenas do cotidiano, Ana Rita Menezes se aproxima do pensamento de Bion

Ponyo e o olhar psicanalítico pela janela da amizade 28/03/2017

O filme Ponyo será discutido durante o projeto Psicanálise & Cinema do NPA no dia 30 de Março.

Akira Kurosawa, uma personalidade complexa e nem sempre compreendida 22/02/2017

No dia 23/02, às 19h30 no Auditório do Centro Médico Luiz Cunha, Yusaku Soussumi comenta o filme Madadayo

Em defesa de uma confiabilidade ambiental mínima 07/02/2017

Fábio Brodacz reflete sobre a exposição infantil em tempos de compartilhamentos constantes

Um herói, por favor! 16/12/2016

A psicanalista Idete Zimerman Bizzi questiona os simulacros que povoam o mundo virtual

Prematuridade e algumas nuances 24/11/2016

Denise Alencar fala sobre os desafios de uma gestação prematura
Página anterior Voltar
Topo Topo
 
 
Google+