Em 02/09/2016
 

Casais fusionados: uma realidade nos dias de hoje

Para o Psicanálise e Cotidiano, João Paulo Corumba fala sobre a indiferenciação entre o eu e o outro nas relações


Casais fusionados: uma realidade nos dias de hoje
 
* As ideias e opiniões contidas no texto são de responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião do NPA.
 
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As ideias de Sigmund Freud permeiam o nosso cotidiano sempre e será difícil se desvincular de seus pensamentos tão intrigantes e questionadores a respeito da natureza do ser humano. O pai da Psicanálise nos alertou para um fato bastante interessante a respeito do que ocorre quando nascemos. Nos diz Freud que vivemos um completo estado de fusão nesse momento. O eu e o outro são indiferenciados. O que significa dizer que “não há algo fora de mim” na primeira teoria do pequeno ser humano. 
 
Freud define esse momento nas margens do sentido do narcisismo primário, em que só há o eu e nada mais. Tudo é compreendido como sua extensão. É uma verdadeira majestade que em nada pode configurar o sentido de falta. Assim segue a teoria que, posteriormente, inevitavelmente, irá à decadência total pela via da desilusão. 
 
Não é raro vermos casais em que a separação - por simples 5 minutos – é dolorosa. A dor parece não caber na ordem do grito interno. A qualidade intensa e primordial do indiferenciado, fusionado, deve emergir sem cerimônia. De tal maneira, como podemos conceder a estes o título de “casais”? Casais são feitos de duas pessoas que são ligadas por um vínculo afetivo, e, que, para tanto, é necessário que um reconheça a existência do outro. Na fusão o que há é uma completa perdição da referência de si e do outro. Aí, encontramos uma problemática significativa. 
 
Não é incomum encontrar pais, de uma geração literalmente diferente da, que, aí, se apresenta, se questionarem: “Meu filho não consegue ficar um dia sem dormir com a namorada, sem estar com ela. Ela já está, inclusive, morando lá em casa, praticamente. O que fazer com isso? Só conseguem namorar se for desse jeito, em total grude. Esses meninos de hoje estão todos mudados”. Não é estranho escutar coisas dessa natureza por aí a respeito desses “meninos de hoje”. O que pensar? 
 
A falta é estruturante do sujeito, sem ela não conseguiremos, jamais, crescer. Não me contento com essa afirmação, e pretendo dizer algo para além: Reconhecer a falta é primordial para o sujeito amadurecer. Sentir saudade é fundamental para notar que o outro existe. Na fusão quem reina não é a vida, mas, sim, algo similar ao apagamento dos sujeitos, dos sentimentos, etc. A ideia de conquista, atualmente, confunde-se com a colonização do outro, a equivocada sensação de posse com a qualidade que incorpora e tem como resultado o aspecto da fusão.
 
A conquista é diária. A conquista de si mesmo é diária. Essa dimensão serve para florescer a vida de significados, sentidos de existência de permanência nos diversos lugares do sobreviver e do viver. E, posterior à conquista primordial, isto é, o conquistar-se, é que nasce a conquista para com outro, que, também, é constante, diária. É preciso enamorar-se todos os dias, sentir o pulsar da vida, esclarecer o mundo interno de afetos vivos que circulam os lares das dúvidas, dos medos, das crises de angústia, os conflitos maiores em que a insegurança tende a imperar, etc. Ter certeza de que “temos/dominamos o outro” é o maior dos enganos cometidos pelo sujeito contemporâneo. Trata-se de um erro de iniciante, de alguém que ainda se banha com as águas da imaturidade. Na verdade esse “outro” ainda não existe, enquanto o sujeito puder nascer e se reconhecer como unidade em si mesma. 
 
Não entrarei no quesito que afirma que o amor não prende/domina, etc, ou que o amor é X ou Y. Acredito que conceituar qualquer tipo de sentimento é uma tarefa muito difícil, e nesses casos, é importante que a voz da singularidade possa se expressar da melhor forma e honestidade possível. 
 
Poucos se permitem viver a dignidade e profundidade do sentimento de saudade. A saudade anda esquecida de sua importância no existir preservado. Não existe esse tempo. O outro está encarnado em mim, e eu e ele não formamos um par, mas, sim, uma unidade permanente. É certo que no ápice da paixão os casais vão se olhar e afirmar categóricos: “Nós somos um”. No entanto, a dissolução da dissolução deveria ocorrer  sem ser alvo de um questionamento interno mais profundo. Atualmente, a dissolução da dissolução encontra-se em meio a obstáculos. O que fazer para livrar-se da fusão? 
 
O sentimento de desamparo, sempre presente desde o nosso nascimento até a nossa morte, revela-se mais amplo e mais forte nos dias que registram o nosso presente. O horror ao desamparo é tomado como modelo a ser seguido. Não se pode entregar-se à mínima sensação de insegurança ontológica. Essa modalidade de sentir não é permitida. A fusão é convocada para denunciar o horror do sujeito em circunstância ampliada de desamparo e, para, “salvá-lo” do tormento que é contemplar a experiência de se sentir vivo. 
 
Contemplar a experiência de se sentir vivo não é, definitivamente, para todos. A fusão ajuda a distração do eu com si mesmo, com a existência do que há fora do eu, e o que se experimenta é uma verdadeira ilusão de não-vida. Um mundo em que o sujeito se apaga e se esquece literalmente. Nem a sombra é capaz de ser ousada e mostrar-se projetada. 
E, assim, seguem os casais fusionados, paranóicos, possessivos, embriagados do vazio preponderante, deprimidos, sem vida. 
 
Uma pena!
 
João Paulo Corumba
Psicólogo, CRP 19/2697
Psicoterapeuta de orientação psicanalítica
Coordenador do Projeto Psicanálise e Literatura pelo Núcleo Psicanalítico de Aracaju
Coordenador do Projeto Psicanálise e Quotidiano pelo Núcleo Psicanalítico de Aracaju
Criador e coordenador do Projeto Psicologia em Movimento/Além dos Muros Acadêmicos
Membro-fundador do Instituto Psicanalítico de Formação e Pesquisa Armando Ferrari no Brasil,
Aluno do programa de doutorado em Psicologia pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales ( Argentina). 
Email: jpcorumba@hotmail.com

 

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Comentário(s)
postado por Helena em 02/09/2016 às 18:44

Oi João! Gostei bastante de seu texto: ideias claras e coesas! Parabéns!
 

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