Em 24/08/2016
 

Facebook e a rede de inveja: uma análise psicanalítica

Andréa Senna reflete sobre as repercussões da inveja no ambiente das redes sociais


Facebook e a rede de inveja: uma análise psicanalítica
 

* As ideias e opiniões contidas no texto são de responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente a opinião do NPA.

 

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Inveja

Perda de tempo
esforço a mais, em vão,
vendavais...
ódio mudo
contra-mão,
vento
que derruba tudo
ao chão.

Inveja é
luta desperdiçada
que arrebata o próprio vigor,
impedindo momentos
risonhos...amor.
A inveja puxa a vida
pra trás,
deturpa, divide,
produz tormentos,
ativa a ferida,
ainda mais,
acende lamentos,
tira a paz.

Ivone Boechat

 

O facebook pode ser concebido como uma fonte permanente de frustração e angústia, por motivos variados. Quer seja, por casos de viagens e momentos de lazer, alguém com poucos amigos pode se incomodar com publicações alheias que repercutem na web, felicidade alheia. O sucesso, quem é bem sucedido na carreira, nos estudos ou em esportes pode provocar a sensação de fracasso em outras pessoas. 
 
O que busca uma pessoa invejosa? A inveja, nos diz a psicanalista Melanie Klein, surge logo que o bebê se dá conta do seio como fonte de vida e de experiência boa.  A gratificação faz com que ele sinta o seio como fonte de todos os confortos físicos e mentais, reservatório inesgotável de alimento e calor, amor, compreensão e sabedoria. 
 
Então, o primeiro objeto a ser invejado na nossa vida, foi  o seio materno, pois o bebê sente que o seio possui tudo o que ele deseja, possui leite em abundância, assim foi o nosso primeiro objeto a ser invejado. O objeto invejado tem que ser destruído, para parar de produzir esse sentimento terrível da inveja. O invejoso vai tentar destruir o objeto desejado. São fantasias de roubar, esvaziar e destruir o corpo da mãe. 
 
Nessa perspectiva kleiniana, as pessoas no facebook apresentam um modo muito intenso de destruir as pessoas invejadas, a ponto de querer possuir o que se deseja de forma que não sobre nada para os outros. Podemos fazer articulações com os ideais da sociedade de consumo que por vezes desqualifica o ato de “roubarmos a cena”, de se invadir a privacidade alheia. O que é importante é a busca desenfreada da comodidade e exclusividade no atendimento das necessidades pessoais. As necessidades dos consumidores são ilimitadas e insaciáveis, consequência da sofisticação, do refinamento, da imaginação e da personalização dos desejos e necessidades das pessoas. 
 
Retomando a perspectiva de Melanie Klein sobre a inveja, quando fala do invejoso, ele não pode introjetar as coisas boas porque destrói antes de introjetar. É demasiado crítico com os outros, sendo capaz de desvalorizar, imputar defeitos e desqualificar o bem-estar alheio. Dessa forma, ter a possibilidade de com um click entrar na rede social e perceber as pessoas felizes, como exemplo, nas suas viagens e momentos de lazer e sorte no amor, a inveja pode se transformar numa força perigosa para o objeto a que se destina a inveja, e sempre destruidora para o próprio invejoso. O invejoso ao querer destruir perde muito de sua bondade diante da vida.
 
Mas, o invejoso quer destruir, de que forma pode destruir uma imagem virtual no facebook, considerando-se que Melanie Klein nos diz que a inveja é um desejo incontrolável de destruir algo de outra pessoa? O mundo virtual, a imagem virtual, remete o indivíduo a questões inconscientes. O que proporciona ódio, raiva, inveja é o objeto do outro. A fantasia de destruir o outro passa a exercer uma atração incontrolável. Só é possível invejar aquilo que se vê ou conhece, e o facebook é capaz de multiplicar o que se pode saber sobre a vida alheia.
 
Desde os primeiros momentos de sua obra, Melanie Klein, menciona a presença de sentimentos invejosos ligados ao objetivo de tomar posse de toda a bondade do objeto, sem preservar o objeto. Denomina-se uma pulsão de morte primária, isto é, voltada para o seio da mãe, primeiro objeto com que se vincula a mente do bebê.
 
Diante das configurações dos sentimentos de inveja, pode-se entender que no mundo virtual vai se buscar retirar o que o objeto  apresenta de bom, o invejoso não teme as consequências. O anseio de tomar posse, no sentido de destruir é tão intenso que emitir mensagens virtuais de retaliação, visando ridicularizar, ignorar, diminuir o que a imagem ou mensagem apresenta de bom pode ser um comportamento previsível por parte do invejoso. A difamação da pessoa invejada parece ser um destino. No entanto, a angústia de não poder controlar os desdobramentos das publicações e comunicações da pessoa invejada certamente irá provocar ao invejoso muita ansiedade, um contato constante com os seus medos e suas forças malignas. 
 
Andréa Senna
Psicóloga - CRP: 11/0988
Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza - UNIFOR
Psicanalista pela Escola Paulista de Psicanálise
Doutoranda em Psicologia pela Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales
Email: andreasenna2@hotmail.com

 

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