Em 03/04/2016
 

Entrevista - Yusaku Soussumi

Médico, Psicanalista, Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)


A partir do dia 9 de Abril, o médico e psicanalista Yusaku Soussumi (SBPSP) dará início ao curso "O ser humano e sua totalidade - Proposta de uma visão transdisciplinar na abordagem psicanalítica e neurocientífica", com periodicidade quinzenal aos sábados pela manhã e a duração de 12 meses. O curso é destinado a profissionais e estudantes das mais diversas áreas, com interesse em aprofundar seus conhecimentos acerca dos variados aspectos ligados à experiência humana, a partir do viés psicanalítico e neurocientífico. Os encontros acontecerão na sede do Núcleo Psicanalítico de Aracaju e aqueles que participarem ganharão certificado com a conclusão. Além de membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, o ministrante e entrevistado é Fundador da Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, fundador-presidente do Centro de Estudos e Investigação em Neuropsicanálise e Membro honorário da sede brasileira do Instituto de Formação e Pesquisa A. B. Ferrari. Outras informações e formas de inscrição podem ser visualizadas através deste link. Confira a entrevista:


* Entrevista conduzida pela Assessoria de Comunicação do NPA

 

NPA: O que o título do curso “O ser humano e sua totalidade” diz sobre sua proposta?

Do meu ponto de vista, não é possível falar do ser humano sem falar dele na sua totalidade, o que implica considerá-lo no contexto em que ele vive, no meio em que ele está inserido e do qual ele retira tudo o que ele precisa para sobreviver. Quando a gente considera a origem do universo, a gente se dá conta de que fomos gerados no meio que habitamos. A expressão consagrada diz que “somos filhos das estrelas”. Por quê? Porque nascemos desse meio e nesse meio, o que recoloca a questão da sustentabilidade de que tanto se fala hoje em dia em outras bases. Gerado nesse meio, sendo de alguma forma produto dele, o ser humano depende fundamentalmente dele para sobreviver, como aliás todos os demais seres vivos que habitam este planeta.
 
E essa é outra questão importante: somos animais, pertencemos ao reino animal, situamo-nos no topo da cadeia evolutiva e por isso compartilhamos com os demais filos características que fazemos questão de ignorar.  Ao emergir o fenômeno da vida, com ela surgem dois instintos fundamentais: o instinto de sobrevivência e o instinto de perpetuação da experiência da vida, que chamamos instinto de perpetuação da espécie. E o que é mais fundamental e de que não nos damos conta é que o instinto de sobrevivência, por meio da racionalidade, que é o grande apanágio da espécie humana, será o grande móvel da ação humana sobre o planeta.
 
Do nosso ponto de vista, a própria emergência do psiquismo, em termos evolutivos, não tem outra função se não promover a autorregulação corporal em bases mais complexas e sofisticadas para assegurar mais e melhor a manutenção dessa qualidade chamada vida. Toda a parafernália tecnológica dos dias de hoje também tem a função de ampliar a capacidade de sobrevivência, de forma a permitir inclusive que o homem consiga viver em meios absolutamente inóspitos, como o meio extraterrestre. Por outro lado, o homem não é um ser que viva sozinho, voltado exclusivamente para suas relações com o meio. Ele é um ser biopsicossocioespiritual, que precisa ser considerado em todas essas dimensões para poder ser entendido em sua riqueza e complexidade.
 
NPA: Como esse curso pode modificar ou acrescentar na atividade profissional de cada um?
 
Quando você entende profundamente o que é o ser humano, de onde ele veio, como ele funciona, a importância dos instintos, das memórias, das experiências que deram certo para a sua sobrevivência no contexto da vida de cada um, e consegue desvendar os mecanismos que estão por trás de seu comportamento e que determinam muitas vezes seu aprisionamento, você acaba tendo um outro entendimento das dificuldades, dos problemas, das mazelas que afligem aquele indivíduo que está ali à sua frente e desenvolve, a partir desse entendimento, uma abordagem mais adequada para ajudá-lo e minorar-lhe o sofrimento. 
 
NPA: O que é a Neuropsicanálise? E de que forma essa aproximação pode ser estimulante e benéfica para a compreensão do ser humano em sua complexidade?
 
Em primeiro lugar, é preciso dizer que há várias Neuropsicanálises em curso e que a nossa se diferencia das demais pela via da transdisciplinaridade, por considerar o homem na sua dimensão biopsicossocioespiritual, que não o reduz nem o desconsidera na sua complexidade. O que importa dizer, em relação à Neuropsicanálise de forma geral, é que ela resgatou a dimensão biológica do homem que a Psicanálise pós-freudiana e contemporânea havia negligenciado.
 
Imiscuindo-se na Psicanálise, a Neuropsicanálise resgatou para a Psicanálise o significado e a importância dos instintos de sobrevivência e de perpetuação da espécie, do acoplamento sensório-motor entre ser e meio, as noções de meio externo e meio interno, o papel dos afetos e da homeostase para a sobrevivência, a regulação orgânica e psíquica, o papel do desenvolvimento e da evolução, recolocando em outras bases a questão do corpo e da complexidade desse corpo dentro da Psicanálise, fundamentais para o entendimento do homem e da constituição do que é ser humano, corpo cuja complexidade de funcionamento é de tal ordem que costumamos nos referir a ele como misteriosa materialidade inteligente.
 
NPA: O senhor acredita que Freud foi um neurocientista?
 
Freud era neurologista. Neurocientista é coisa nova, recente. Se fosse hoje, poderíamos dizer que Freud era um neurocientista. Ele era neurologista e, dentro da Neurologia, ele criou a Psicanálise. Mas acima de tudo era um investigador, um pesquisador, e como tal um precursor, um pioneiro. No "Projeto para uma psicologia científica" demonstra toda a sua genialidade ao nos revelar o seu entendimento acerca do funcionamento cerebral, da dinâmica cerebral, inclusive em termos de uma neurofisiologia, em que não cabia o localizacionismo, como preconizado pela Neurologia da época. Freud entendia haver uma dinâmica de funções integradas, de funcionamento complexo, com mecanismos de feedback e feedforward, espalhada por toda a estrutura cerebral.
 
NPA: O que é a teoria dos registros básicos de memória?
 
Esta teoria surgiu de nossas observação e dados  na experiência clínica,  que possibilitou formular a hipótese de que as experiências precoces da vida do bebê, inclusive na vida intrauterina, são decisivas para a formação morfológica do cérebro e para o registro das funções psíquicas, e vão se constituir numa espécie de memória especial inscrita nas conexões sinápticas que funcionam de forma inconsciente e vão atuar no presente de forma automática, sem que o indivíduo se dê conta, sendo responsáveis pelas respostas repetitivas e estereotipadas que o sujeito vai dar para situações semelhantes na vida. Esses registros vão se constituir numa determinada forma pela qual os circuitos neuronais e sinápticos se configuram e funcionam em cada indivíduo.
 
A essa configuração corresponde um determinado modo de funcionar do sujeito, um modo específico de ele ser e estar no mundo que acaba se tornando uma espécie de marca registrada dele pela vida afora. Esses registros corresponderiam ao que mais tarde foi chamado de memória procedural pela Neurociência.
 
NPA: Uma visão dicotômica entre mente-corpo pode repercutir no sofrimento do indivíduo dentro da clínica e nas dificuldades em lidar com a responsabilidade sobre a constituição dos sintomas?
 
Dentro do meu referencial de funcionamento integrado, como um totalidade sem separação das partes, ou fragmentada, a visão dicotômica nem sempre permite a visão mais próxima da realidade complexa do ser humano na clínica. Assim, no meu ponto de vista, isto deve trazer consequências na compreensão das manifestações dos sinais, sintomas, e na forma de cuidar, tratar, buscar restabelecer o estado de higiene e equilíbrio. Ou seja, repercutindo no estado de sofrimento do indivíduo na clínica.
 
NPA: Qual seria o papel do outro significativo na humanização do indivíduo?
 
Denominamos de “Outro Signicativo” aquele que se torna responsável  para atender as necessidades e desejos do bebê, ao ser expulso do útero materno,  em continuidade aos cuidados e proteção que lhe eram proporcionados. Nossas observações nos levaram entender a gravidez humana como uma gravidez que se processa em dois tempos, um intrauterino e outro extrauterino, sendo que o momento extrauterino é fundamental para a constituição e amadurecimento das estruturas orgânicas, as cerebrais principalmente, o que só pode ser feito no meio humano e social extrauterino. O papel da mãe ou do cuidador nesse processo é decisivo, visto que é na interlocução com a mãe que o bebê se desenvolve e vivencia suas experiências primitivas, fundamentais porque são a base dos registros de memória, que o acompanharão pela vida, como já adiantamos. Nesse momento ele poderá ter experiências de concepção, não concepção e misconcepção, que serão essenciais para sua vida futura de esperança ou predação e que serão tratadas de forma elucidativa no nosso curso. Nenhum ser humano virá a ser humano se não  encontrar o outro que o humaniza. 
 
NPA: Nos dias 29 e 30 de julho será realizado em Aracaju o Congresso Internacional sobre o Corpo em Psicanálise, com o tema “Da sensação ao pensamento: a função organizadora dos órgãos dos sentidos”. Tendo em vista algumas das discussões que serão trazidas neste evento, gostaria de perguntar qual a relação entre os instintos humanos mais básicos e os sentimentos e pensamentos mais complexos?
 
Para entender essa relação, é preciso lembrar que todo ser vivo, em contato com o meio, impulsionado pelo instinto de sobrevivência, vai entrar numa relação de acoplamento sensório-motor, uma relação de percepção e ação com esse meio, para poder sobreviver. Essa relação é uma relação de conhecimento, é uma relação cognitiva, que não é privilégio do ser humano, mas de todo ser vivo em contato com o meio.
 
Assim, essa relação é uma relação transformadora, porque ser e meio sofrem mútuas influências nesse processo de acoplamento e saem dele diferentes do que entraram. Nesse ciclo de percepção e ação, o ser humano pode sofrer alterações no seu meio interno, que suscitem afetos, que são os sensores do corpo que sinalizam que esse meio interno precisa recuperar seu equilíbrio para que a condição chamada vida não fique ameaçada. São os afetos que fazem emergir emoções e sentimentos e depois pensamentos que têm um papel importante na teoria da sobrevivência. A própria emergência do psiquismo tem a função preponderante de operar a autorregulação corporal em níveis mais sofisticados e complexos em relação aos ancestrais com o objetivo básico de assegurar melhor a sobrevivência. O homem, na realidade, conquistou a corticalidade apenas para usá-la como um recurso a mais de sobrevivência pela subcorticalidade. Assim, na base de todo sentimento e pensamento complexo está sempre um instinto básico e fundamental, que é o instinto de sobrevivência, como já dissemos, o grande móvel da ação do homem sobre o planeta e o grande móvel da evolução da espécie.
 
 
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