Em 18/01/2016
 

Entrevista com Adalberto Goulart

Fundação do NPA, atividades previstas para 2016, novas contribuições para a psicanálise, entre outros temas.


Entre 1997 e 1998, a iniciativa que viria a se tornar o Núcleo Psicanalítico de Aracaju começa dar os seus primeiros passos, a partir do interesse de Adalberto Goulart, que na época acabava de concluir a sua formação como psicanalista pela Associação Psicanalitica Internacional (IPA), fundada por Freud. Chegando ao ano de 2016, atualmente o NPA promove formações em psicanálise e psicoterapia psicanalítica, além de coordenar outros cursos e eventos diversos que vão desde congressos internacionais, grupos de estudo e discussões junto com outros campos do saber e da cultura, a exemplo da literatura, do cinema, entre outras atividades. Nesta entrevista, Adalberto Goulart (Médico psiquiatra e psicanalista / Presidente do NPA / Membro Efetivo e Analista Didata - IPA - NPA/SPR) fala acerca da história do Núcleo, as expectativas para este ano com lançamentos, parcerias e novidades, além de discutir e refletir questões fundamentais para a psicanálise como sintoma, o trabalho do analista dentro do vínculo e novas contribuições teóricas.

*Entrevista conduzida pela Assessoria de Imprensa do NPA

NPA: Quais são as principais atividades previstas para o ano de 2016 no NPA?

Adalberto Goulart: Neste ano de 2016 o destaque maior das nossas atividades estará por conta do VII Congresso Internacional do Corpo em Psicanálise, que será realizado no período de 28 a 30 de Julho e que teremos a responsabilidade de sediar em Aracaju, mais uma vez. O Congresso é uma atividade científica bianual, com sedes alternadas na Itália e no Brasil, que desenvolvemos juntamente com colegas italianos do Istituto Psicoanalitico di Formazione e Ricerca “A.B. Ferrari”, de Roma, mas também tem recebido contribuições de colegas de outros países, sobretudo da Inglaterra, França, Bélgica, Índia e, claro, de italianos e brasileiros. O evento deste ano será organizado pela sede brasileira do Instituto Ferrari, fundada no final do ano passado e contará com o apoio do NPA.

Ainda no primeiro semestre deste ano, o Dr. Yusaku Soussumi estará dando início a um curso sobre Psicanálise e Neurociências, com ênfase na clínica, na educação e nos trabalhos sociais, fruto dos seus estudos e de sua vasta experiência. O curso deverá ter como base o livro Paradigmas Metamórficos, escrito por Soussumi e editado pela Casa do Psicólogo. Daremos sequência à V edição do Curso de Psicoterapia Psicanalítica, iniciando os módulos de estudo da obra de Melanie Klein e Teoria da Técnica. Também seguimos com o Grupo de Estudos das obras de Bion e Ferrari, com a participação dos colegas italianos Fausta Romano e Paolo Bucci, via Skype, de Roma. Prosseguiremos com as atividades de Psicanálise & Cinema, sob a coordenação de Danilo Goulart, de Psicanálise e Literatura, sob a coordenação de João Corumba, dos Encontros de Psicanálise, sob a coordenação de Rodrigo Goulart, bem como as atividades da nossa Clínica Psicossocial, sob a coordenação de Erik Dória. Em Março, sete novos colegas estarão iniciando os seminários teóricos para a formação psicanalítica no Instituto de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica do Recife.
 
NPA: Quais as expectativas para o Congresso Internacional de Psicanálise previsto para ser realizado este ano?
 
Adalberto Goulart: As expectativas são as melhores possíveis, Aracaju sediará pela terceira vez o Congresso, sendo que o último ocorrera em Roma, em 2014. Já temos confirmados os nomes de destacados psicanalistas brasileiros e italianos para o evento. Este está sendo um ano particularmente especial para os estudos sobre o corpo em Psicanálise, já que também o Congresso Latinoamericano de Psicanálise, que se realizará em Cartagena, Colômbia, também terá como tema o corpo! O evento é fruto dos estudos que desenvolvemos com o grupo italiano há cerca de 12 anos.
 
NPA: O NPA realiza constantemente parcerias com o Instituto Psicanalítico de Formação e Pesquisa Armando Ferrari da Itália. Como surgiu essa ligação?
 
Adalberto Goulart: Como dizia, a nossa parceria de estudos e pesquisas com o grupo italiano surgiu há 12 anos, quando conheci Fausta Romano e Paolo Bucci através de Márcia Câmara (psicanalista do Rio de Janeiro). Eles estiveram em Aracaju para um primeiro Encontro Científico em 2003. Já em 2004 retornaram, desta vez acompanhados pelo professor Armando Ferrari, para um segundo Encontro. Em 2006 estivemos presentes ao Congresso de Florença, Itália, no mesmo ano em que faleceu Ferrari. Conhecemos outros colegas italianos que também fazem parte do grupo e contribuem no desenvolvimento desses estudos, a exemplo de Paolo Carignani, Silvia Tauriello, Massimo Romanini, Alberto Panza, Daniela Radano, entre outros. E de lá para cá, desenvolvemos uma colaboração científica e uma amizade que tem se ampliado e se aprofundado a cada ano, a cada Encontro. Buscando institucionalizar essa parceria, criamos no final de 2015 a sede brasileira do Instituto Ferrari, quando assumi a presidência local. Estamos preparando a edição brasileira do livro Corporeidade – O objeto originário concreto: uma hipótese psicanalítica em expansão, que tive a honra de escrever o capítulo introdutório e que deverá ter o seu lançamento nacional neste ano.
 
NPA: Você poderia nos contar um pouco sobre a experiência com a fundação do Núcleo Psicanalítico de Aracaju em 1997 e as motivações para tal iniciativa? 
 
Adalberto Goulart: Concluí minha formação psicanalítica no ano de 1997 e naquele momento eu era o único psicanalista da IPA em Aracaju. Necessitava continuar estudando, ter interlocutores, discutir textos e casos clínicos, além de acalentar o desejo de ter um Núcleo Psicanalítico em nosso Estado e o sonho de no futuro termos uma Sociedade de Psicanálise componente da Associação Psicanalítica Internacional. Assim, convidei alguns colegas, entre médicos e psicólogos interessados por psicanálise para constituirmos um grupo de estudos. E assim foi. No início nos reuníamos em minha residência, posteriormente sentimos a necessidade de constituirmos uma sede própria. Com a I Jornada de Psicanálise de Aracaju, em 1998, fundamos o Centro de Estudos Psicanalíticos de Aracaju, que, em 2003, foi reconhecido como Núcleo Psicanalítico de Aracaju, patrocinado pela Sociedade Psicanalítica do Recife e filiado à FEBRAPSI, componentes da IPA.
 
NPA: Existe um momento ou circunstância específica em sua vida que tenha marcado a sua aproximação com a psicanálise?
 
Adalberto Goulart: Esta é uma pergunta realmente difícil de responder. Mas penso que durante toda a minha vida, desde muito cedo, fui um interessado em observar o comportamento humano, curioso em conhecer os mistérios da alma humana. As artes, de maneira geral e a literatura, mais especificamente, me acompanharam neste percurso. Depois o curso de medicina e o interesse pela psiquiatria dinâmica, acabaram me levando a Freud e à psicanálise. 
 
NPA: De que forma o componente revolucionário da psicanálise - como prática clínica e também como pensamento sobre a existência humana - se atualiza no tempo em que vivemos?
 
Adalberto Goulart: A psicanálise é, em essência, uma ciência revolucionária e subversiva, já nos ensinava Freud. E não poderia ser diferente, uma vez que tenta revelar o que a humanidade insiste em ocultar de si mesma, nossas verdades mais essenciais. Sendo uma ciência fruto da cultura, particularmente da cultura ocidental, e articulando-se com as demais ciências do conhecimento, é parte integrante do tempo em que vivemos.
 
NPA: Quais as mudanças saudáveis que possuem a possibilidade de enriquecer a psicanálise, em termos de teoria e de técnica? E, do contrário, quais seriam aquelas em que é necessário manter uma posição mais precavida e crítica?
 
Adalberto Goulart: Em relação às mudanças saudáveis, destacamos, sem dúvida, a articulação com as neurociências e as novas hipóteses que resgatam o corpo como a origem do psiquismo. Por outro lado, devemos manter nossa posição crítica em relação a cursos que se propõe a formar psicanalistas sem o mínimo necessário para tal, evidentemente estes são cursos não reconhecidos pelas nossas instituições. 
 
NPA: Somando-se aos achados e reflexões iniciais de Freud, de que forma autores contemporâneos foram importantes no sentido de incrementar a clínica psicanalítica e seus pressupostos teóricos? Você poderia citar alguns exemplos?
 
Adalberto Goulart: A psicanálise, se comparada a outras, é uma ciência jovem, com pouco mais de cem anos de existência. E como toda ciência, se desenvolve e se atualiza a partir de suas pesquisas, estudos e, particularmente, de sua experiência clínica. Assim, diversos autores vem trazendo suas contribuições a partir de Freud. Podemos destacar alguns como Melanie Klein, com a Teoria das Relações Objetais e a análise de crianças pequenas; Wilfred Bion, com a investigação sobre o pensamento e sobre os vínculos de amor, ódio e compreensão; Donald Winnicot, sobretudo em relação à capacidade para estar só e ao falso self; Armando Ferrari, com a hipótese do Objeto Originário Concreto, resgatando o corpo como origem da mente; e tantos outros.
 
NPA: O que significa a responsabilidade diante do sintoma para a psicanálise?
 
Adalberto Goulart: Compreendemos o sintoma como sendo criado pelo sujeito, sendo o melhor arranjo possível em sua relação corpo/mente, diante de determinadas circunstâncias e com os recursos que dispõe. Somos, de fato, responsáveis por tudo aquilo que sentimos, pensamos e fazemos. Isto é de fundamental importância, potencializando aspectos como liberdade, autonomia, maior independência para realizarmos as escolhas necessárias e mais funcionais ao viver.
 
NPA: De que forma a experiência analítica é capaz de mobilizar e modificar estruturas da personalidade do sujeito, obtendo, assim, benefícios terapêuticos não só durante o tratamento, mas para toda a vida?
 
Adalberto Goulart: Penso que, de certa forma, a resposta a esta pergunta passa pelas anteriores. O objetivo da experiência analítica é proporcionar um encontro do sujeito com ele mesmo, liberando potenciais de desenvolvimento bloqueados, a conquista da responsabilidade por si mesmo, em todos os aspectos conscientes e inconscientes, melhorando suas condições de adaptação à vida e de suportar dores e sofrimentos que são próprios do viver, diferentemente de situações de dor e sofrimento que seriam totalmente desnecessários. A psicanálise nos ajuda a conviver com as incertezas e com o tempo presente, único que, de fato, dispomos e é aqui onde as mudanças podem ocorrer. Não no passado ou no futuro, que são tempos fictícios.
 
NPA: É possível dizer que analista e analisando trabalham sempre juntos durante essa experiência? Por quê?
 
Adalberto Goulart: Sim, sem dúvida, e não poderia ser diferente. No trabalho psicanalítico o analisando deve aprender a voltar-se para si mesmo pela primeira vez. Já o analista, que já fez este percurso, deve observar-se e perceber em si o que a presença do outro lhe desperta. Assim, o trabalho psicanalítico se dá na relação psicanalítica, transformadora para ambos os componentes da dupla.
 
NPA: "Sobre uma mente corporal" foi o tema escolhido para o a Jornada de Psicanálise de 2015. Você poderia nos falar mais sobre essa expressão e as razões para essa escolha?
 
Adalberto Goulart: Propomos com este tema um retorno às ideias originais de Sigmund Freud, resgatadas por Ferrari e pelos neurocientistas atuais, tema que estudamos há cerca de 12 anos com o grupo italiano, como disse, e que tem recebido destaque na psicanálise mundial. Será tema no Congresso Internacional sobre o corpo em psicanálise, que ocorrerá em Aracaju em Julho deste ano, do Congresso Latinoamericano, que ocorrerá em Setembro, em Cartagena e, de certa forma, do próximo Congresso da Associação Psicanalítica Internacional-IPA, cujo tema será Intimidade, a ser realizado em Buenos Aires em 2017.
 
NPA: O que as chamadas patologias do vínculo trazem como desafio para os analistas no contexto da clínica atual? 
 
Adalberto Goulart: O trabalho psicanalítico é sempre um desafio, desafio proposto pelo encontro do sujeito consigo mesmo. Os vínculos, que estão sendo tão desconsiderados na nossa realidade contemporânea, constituem a base não apenas das relações afetivas humanas, mas a base em que se estrutura o psiquismo. Lembrando Freud, o que vincula e constrói são chamadas forças de vida, em oposição àquilo que desvincula, ou não vincula, que seriam forças destrutivas.
 
NPA: O que você diria para aqueles que estão iniciando suas formações na área da Psicanálise e também para os interessados em se desenvolver nessa trajetória?
 
Adalberto Goulart: Diria que estão diante da aventura mais desafiadora e também maravilhosa de suas vidas! O encontro profundo e verdadeiro consigo mesmos e com o outro que nos procura. Assim, o primeiro passo, e o mais fundamental, é que procurem por um psicanalista sério, bem formado, com referências institucionais e pessoais, e iniciem sua análise pessoal. Se o interesse por uma formação psicanalítica permanece, sugiro que procurem o Núcleo Psicanalítico de Aracaju, que é a instituição em nosso Estado que congrega os psicanalistas formados pelas Sociedades de Psicanálise filiadas à Associação Psicanalítica Internacional. 
 
NPA: Há alguma mensagem final que considera importante para finalizarmos essa entrevista?
 
Adalberto Goulart: Não poderia terminar esta entrevista sem um especial agradecimento ao trabalho incansável da nossa Diretora Científica, Petruska Passos; à nossa Diretora Financeira, Joseane dos Santos; e ao nosso diretor Administrativo, Aldo Christiano; sem os quais nada disso seria possível!

 

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