Em 08/12/2015
 

De amor e lei

Neste texto, Cláudia Antonelli fala sobre o amor que nutre e a Lei como um continente próprio capaz de tolerar a realidade


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Se me perguntassem, de que é feito um ser humano? Eu responderia: de Amor e Lei.
 
Claro, não somente. Também somos feitos de sonhos, lembranças, desejos, necessidades, dores, pensamentos, História e estórias.
 
Mas falo dos alicerces. Vamos a eles.
 
Primeiramente, o amor que nutre e edifica: que permite ao pequeno sujeito em formação (desde bebê) a vivência de sentir-se querido, sentir-se cuidado, protegido e amado. Sentir-se potente e capaz. Sabemos – não é nenhuma novidade – que o que nutre o humano, não é somente o leite. Mas o leite e o olhar, o afago, o calor de quem o alimenta. Geralmente – em condições favoráveis -, a mãe que, onde quer que esteja e quem quer que seja, amamenta e com seu olhar,  banha seu bebê com amor, esperança, entrega. É com nossos pais – ou aqueles que nos cuidam – que primeiramente aprendemos o amor. 
 
São notórias as pesquisas com macacos – que não são humanos e mesmo assim, neles já vemos a importância do ‘algo além do alimento’. A macaca-mãe robô que ‘automaticamente’ alimenta: os filhotes preferiam aquela que tinha pelos, e aconchego... A mãe-macaca automática que também amamentava, os bebês cresciam, mas não conseguiam reproduzir, continuar a espécie.
 
O amor dando a liga entre as pequenas partes de um ser humano. Para que assim, ele se constitua: sobre um solo sólido. Podendo um dia, ele também, amar e cuidar. 
 
(O que se configuraria no que Luis Claudio Figueiredo, autor contemporâneo, chamou de ‘cuidados recíprocos’ em sua Teoria Geral do Cuidado: a preocupação com o outro. Tornando-se uma questão de cunho ético, na vida do sujeito amadurecido: o cuidado que  foi/é necessário para mim, também o é para o outro. Para a preservação do que é meu, e do que é do outro: nossa integridade física e emocional. E até mesmo de nossos patrimônios. O contrário disto, no extremo, seria o vandalismo: o não-cuidado com os conteúdos compartilhados).
 
Já a Lei, a primeira, disse-nos Freud (1856-1939), é aquela que em algum aspecto, herdamos culturalmente: a interdição do parricídio (não matar o pai), junto à proibição do incesto. Ou seja, primeiramente, haveria algo transmitido inerentemente de geração em geração e que imporia o respeito à lei ela mesma (o pai), e um limite para o amor. Esta seria a primeira Lei. Primeira, e fundante:  fundando-nos na Cultura, na Civilização, e afastando-nos do mundo selvagem. Uma lei que se constrói na fronteira entre o dentro e o fora de nós mesmos. Na comunicação – não somente verbal – entre nós e o grupo. Nosso primeiro grupo: a família (qualquer que seja). Repito o que eu disse acima: falo em condições favoráveis. Haverá, certamente, graus e contornos, e por vezes curtos-circuitos nessas leis em alguns de nós – por diversas e às vezes misteriosas razões. 
 
Esta mesma lei que, dirá-nos ainda o autor, colocará uma espécie de dique entre nossos impulsos e o mundo: para contermos em nós, o que é nosso. E daquilo que de nós transborda por falta de algo que o/nos segure – quer seja amor, ódio ou violência -, tanto os dispositivos internos quanto os externos se farão inundar. Desta forma, com a frágil fronteira entre o dentro e o fora, além de nos assolarmos a nós mesmos (na loucura, na autodestruição), o mundo ‘lá fora’ também receberá sua carga deste poço de afetos não contidos e não-marcados pela lei, ou seja, pelos limites: na violência, no roubo.
 
“Quero do outro aquilo que não me deram”; “Quero destruir aquilo que não tenho, aquilo que invejo”. Esta capacidade de conter em si seus próprios afetos, diria respeito a um ‘continente próprio’, desenvolvido – a partir dos continentes próprios e desenvolvidos de onde cresci. Capaz de tolerar em si, a frustração, a revelia, e a realidade. Com todos seus tormentos e tormentas.
 
As drogas muitas vezes buscam cumprir o papel de antídoto para estas cargas afetivas que não encontram ‘diques’ dentro do jovem sujeito. Antídoto ineficaz, porém. Uma vez que, ao invés de paradeiro, serve mais como trampolim – para outros lugares no sujeito, e fora dele. 
 
Assim, diques no humano, são construídos a partir do amor – mas, uma vez mais, não sem a lei: não sem o limite. Esta mesma lei que, por fim, por proibir, permite: a busca do desenvolvimento seguro. Do aprendizado e do crescimento. O pequeno sujeito ao saber que algo ou alguém o parará se preciso, segue adiante de maneira mais livre. Ele não está solto, balançando num trapézio com seus pés ao ar, sem rede de proteção. 
 
Mas o que acontece é que, às vezes, ele está. E por vezes, ele cai ou, até mesmo, se joga: às vezes, sem retorno. E outras vezes, para não se jogar ou cair sem retorno, ele busca algo ou alguém que o pare, antes que o acidente ocorra. Como no caso de jovens que, conscientemente ou não, buscam (ou imploram) ser parados pela  polícia. A polícia/o policial, uma mistura desesperada de pai e mãe - de Amor, e de Lei. 
 
Não à toa, a Psicanálise lança mão em seu arsenal de conceitos, de dois importantíssimos: as chamadas função materna e função paterna. Christopher Bollas (1996), outro autor contemporâneo, enfatiza a importância de ambas no trabalho psicanalítico – não importando de forma alguma se o analista é um homem, ou uma mulher. Muito resumidamente, diriam respeito à capacidade de acolher e de ‘amar’; assim como a de sustentar os limites necessários.
 
Estas importantes funções que, no fundo, deveriam estar presentes em cada um de nós:  para a preservação dos laços humanos firmados no amor e no respeito aos limites que cada relação – quer seja de trabalho, de amizade, ou de parentalidade – pede. Em realidade, implora por - e agradece. 
 
Cláudia Antonelli
Especialista em Saúde Mental / Mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP)
Psicanalista em Formação (GEP - Campinas)
Diplomada em Línguas Estrangeiras e escritora
claudia.antonelli@gmail.com
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