Em 14/04/2015
 

O menino e a espingarda

Quais os meios que oferecemos para que as crianças possam entender que a fase da majestade não é eterna, e que é preciso renunciar a determinados impulsos em prol do bem estar social? João Corumba questiona isso no psiquo desta semana


O menino e a espingarda

 

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“Vou atirar em todos vocês”, assim dizia um menino de arma na mão. Era uma espingarda de brinquedo que fazia um barulho relativamente alto quando apertava o gatilho. Foi desse modo que me deparei com uma cena curiosa que me fez refletir.

 

 Assim que cheguei a um restaurante vi a cena de uma criança que parecia ter por volta dos seis anos, que explorava todo o espaço do restaurante apontando a sua arma de brinquedo para os rostos das pessoas. Em uma situação como essa, surge logo a pergunta: “Cadê os pais dessa criança?”.

 

Os pais da criança logo se denunciaram com os olhos expressivos como que dissessem: “O que vamos fazer com essa pequena criatura que não sabe se comportar?”. Mesmo assim o pai não se dirigiu à criança, desconsiderando assim o desconforto que o garoto estava trazendo para os demais. A mãe, em sua manifestação de cansaço, corria para todos os lados em busca do filho, mas, talvez, o menino nem lembrasse que existia alguém no qual ele devia obedecer. “Me deixe brincar!”, dizia com toda a força de um pequeno que não deseja ser da máxima ordem, pois desejar é para quem não é, e ele era a própria lei.

 

A mãe rapidamente desistiu de reprimir o filho, e logo em seguida, voltou para mesa e discutiu com o marido. O garoto continuou insistindo em apontar a arma para as pessoas, e todo o cenário em que contemplava a mãe sem forças e o pai ausente evidenciou que o constrangimento seria o espetáculo da noite. De repente, no tempo em que habitam os segundos, surgiu outra criança em cena, alertando que a guerra estava declarada, pois este possuía em mãos uma espada.

 

Os pais dos dois meninos não conseguiram atingir a ordem na situação. Os meninos correram pelo restaurante aos gritos e por pouco não derrubaram os garçons. Nessa noite os garçons tiveram que se empenhar na arte estratégica dos serviços, afinal, tinham que desviar da “guerra dos pequenos soldados”. Soldados? Não, não! Soldados obedecem! Eles faziam parte do topo da hierarquia!

 

Um de espingarda e outro de espada. Quem iria perder a batalha? Os pais! Os pais andam perdendo a autoridade a cada dia. As crianças não reconhecem, atualmente, um sistema em que une os meios que devem ser seguidos para que possamos viver em civilização. Muitos autores da Psicanálise, Sociologia, etc., tendem a abordar a ideia de que a função paterna na atualidade encontra-se em estado de emergência, caso não seja confortável alertar explicitamente o evidenciado declínio. É importante, aqui, não confundir função paterna com o gênero masculino.

 

 É importante não atribuir nenhuma das funções, tanto paterna quanto materna na correlação com um gênero em específico. A função paterna é aquela que apresenta o indivíduo à cultura, às normas, à lei, e não necessariamente é o homem que faz esse papel. Em muitos casos, a função paterna fica por parte da mãe. Depende da singularidade de cada um.

 

Compreendendo o cenário desse enredo das crianças em relação à noção do mundo perverso polimorfo, em que há uma dimensão ilimitada de prazer, é válido questionar: Quais os meios que oferecemos para que as nossas crianças possam lidar com seus impulsos sexuais atualmente? Quais os meios que oferecemos para que as crianças possam entender que a fase da majestade não é eterna, e que é preciso renunciar a determinados impulsos em prol do bem estar social?

 

O sujeito contemporâneo na condição de pai/mãe costuma, muitas vezes, ignorar o exercício da problemática moral e ética, e investe em uma saída, por vezes, negligente. Criar demanda paciência e amor, mas o mundo em que vivemos implora por imediatismo, intolerância e menos reflexão. Estamos vivendo a reprise do assassinato do pai, isto é, estamos tendo uma relação com o mundo que abandona o contato com a lei, com os limites.

 

Sem ordem, sem regras, sem colocar em questão a problemática da moral e da ética, o indivíduo não cresce e não se relaciona, pois se torna incapaz de alcançar o sentido último da civilização que traz respaldo no acesso ao outro, o sentido da alteridade. Quando esse acesso não é alcançado, o outro não existe como um ser em si, mas somente como meio, uma forma de lugar comum para desejos de qualquer natureza. Nesse ponto encontramos o lar do perigo.

 

Os pais não merecem perder a batalha, mas parece que precisam encontrar munições do bem para lidar com a espingarda e com a espada dos pequenos. Estes estão armados e combatem qualquer tipo de regras, inclusive, são capazes de desautorizar a presença da função paterna. Que os pais leiam e escutem, as melhores guerras são feitas de balas de amor, e por serem feitas de amor, não saem das armas destruindo, pois encontram o alvo doce da vida.  Tal resultado encontra-se na arritmia que se dirige ao sentido do cuidar, proteger, educar, criar sem temor e sem substituições tecnológicas no intuito de negar responsabilidades que só aos pais são cabíveis.

 

É importante refletir sobre como as crianças estão sendo educadas, criadas. Por que os pais não conseguem assumir posturas mais eficazes ao que concerne o sentido de autoridade? Por que recusar os meios básicos para a criação e a educação tornou-se uma opção na atualidade?

 

 Que os pais leiam e escutem: Viver requer atenção na tensão e amor com coragem!


 

João Paulo Corumba de Santana

Psicólogo CRP 19/2697 e

Coordenador do Projeto Psicanálise e Literatura do NPA

jpcorumba@hotmail.com

data de publicação: 14/04/2015

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