Em 28/10/2014
 

O país em um momento conto-de-fadas: os do bem contra os do mal (mas os dois lados tem certeza absoluta que são os do bem)

28 de outubro de 2014


O país em um momento conto-de-fadas: os do bem contra os do mal (mas os dois lados tem certeza absoluta que são os do bem)

 

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Tenho 32 anos e por isso minha experiência particular em momentos políticos, enquanto adulta, não é lá grande coisa. Tenho fotos de pequena, nos ombros do meu pai, em atos pelas Diretas Já (1984), lembro-me da excitação ansiosa das pessoas nas ruas no Impeachment do Collor (1992), e agora esse cenário, novo pra mim, de que meus amigos e família se separaram em dois grupos vociferantes, trocando desprezos e insultos, mesmo que, na melhor das hipóteses, bem educados. Reina enfim, uma sensação de “encontrar amigos” ou a de “saber o que as pessoas realmente pensam“, acompanhada por um processo, mesmo que pessoal e silencioso, de retirar essa pessoa da lista das pessoas-que-eu-considero.

 

A despeito das pautas políticas, no que tange de fato o que são planos de governo e ideologias que guiariam projetos de sociedade, o que fica é a impressão de termos visto as pessoas peladas.

 

Peladas, psiquicamente falando.

 

É que nesse processo eleitoral algo se passou e o Facebook, artigos de jornais, revistas e Blogs, diálogos entre amigos e conversas de almoço ganharam um tom esquizo-paranóide.

 

Para Melanie Klein, psicanalista austríaca (1882-1960), a posição esquizo paranoide seria uma maneira de funcionamento mental caracterizada pela cisão e pela persecutoriedade.

 

De maneira simplista e resumida, esse tipo de funcionamento se caracteriza por um mundo em preto e branco, ou se ama ou se odeia. Para manter as coisas assim separadas, usa-se mecanismos (psíquicos internos) de cisão, de corte, com o intuito de que o branco fique completamente branco, longe do preto, e vice versa.

 

Eu fico com o que é bom, bonito, perfeito, e jogo pra fora de mim (coloco no outro) tudo o que é ruim, inaceitável, perturbador e imperfeito. Feita essa divisão, me identifico apenas com o que é bom e considero o outro fruto de toda a maldade e sujeira.

 

Porém, se o mal está do lado de fora da porta, é possível que me ataque, e dessa maneira sinto-me constantemente ameaçado e preciso reagir.

 

Os Petralhas estão acabando com o país, só pobre e ignorante vota nessa assassina, guerrilheira, como é que pode? Vai pra Cuba! O Aécio e essa corja da elite preconceituosa e retrógrada, reacionária e estúpida. Vão pra Miami. E familiares se xingam e amigos deletam uns aos outros do Facebook.

 

O tom apaixonado e inflamado não é encenação, é caso de vida ou morte (psíquica). Quando considero a outro fonte de todo o mal, a necessidade de atacar e me defender é imperativa, eu não tenho escolha.

 

Klein diz, que na linha do desenvolvimento emocional, tendemos a passar, quando tudo corre bem, a considerar as nuanças das cores e as bordas não tão nítidas entre o que é bom e o que é mal. Passamos a compreender a complexidade daqueles que amamos e de nós mesmos, descobrimos o cinza, o bege e o amarelo (deixemos o vermelho fora dessa conversa).

 

Passamos a perceber, com sofrimento e dor, que os pais que amamos também são falhos e imperfeitos, e que aquilo que antes nos assustava, tem também suas qualidades. Ela chama esse tipo de funcionamento psíquico de posição depressiva. É nesse modo que somos capazes de nos colocar no lugar do outro, de considerar o diferente (já que não é mais um inimigo). É um tipo de funcionamento psíquico que amplia o mundo mental, que agrega, e principalmente, que se preocupa com o outro.

 

A casa das certezas absolutas não é a da saúde mental. O funcionamento psíquico maduro pondera, considera, se questiona.

 

Talvez seja natural que, em momentos de decisões importantes, arrefeçamos nossas posições deixando nítidas as bordas de nossas diferenças em relação a outros, mas espero que possamos nos recuperar da batalha binária e retornar a um funcionamento mental (relacional e social) mais integrador e complexo.

 

Acreditar que todo mundo que vota no Aécio é meu amigo e que todo petista é um imbecil (ou vice e versa) é funcionar de maneira cindida e paranoica.

 

Minha esperança é que, enquanto país e em nossas relações pessoais, possamos sair do acostamento da estrada, onde estivemos brigando em preto e brando (ou em verde-amarelo e vermelho) e voltemos ao caminho do pensamento e do diálogo possíveis, onde infelizmente existem muito mais variáveis a serem consideradas do que os posts do Facebook são capazes de mostrar.

 

Marielle Kellermann Barbosa

Membro Filiado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Editora da IPSO (International Psychoanalytical Studies Organization)

mariellekbarbosa@gmail.com

data de publicação: 28/10/2014

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