Em 07/10/2014
 

A poesia da vida cotidiana: Chapeuzinho Vermelho encontra Marilyn Monroe

Luciano Bonfante traz o olhar sobre o processo de subjetivação e feminilidade de uma garota de hoje através de uma narrativa observada por ele. Está muito interessante!


A poesia da vida cotidiana: Chapeuzinho Vermelho encontra Marilyn Monroe.

 

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- Oi, mãe! Presta atenção. Eu queria pedir um presente pra você. É um Box de DVD, já ta aqui no meu colo... (pausa)

 

 - Ah , mãe, adianta o presente de Natal! O que é que tem? Eu não vou ter outra chance dessa. Se você me der, não vou te pedir mais nada. É meu sonho, mãe!

 

As falas acima são de uma conversa telefônica ouvida durante uma visita a uma dessas lojas de grandes redes onde se vende eletrônicos, CD, DVD e livro. Eu consultava um volume sentado em uma poltrona posicionada de costas para outra de onde vinha uma voz de menina, dona das palavras que iniciam este texto.

 

O psicanalista costuma ser um observador arguto. É desejável que o seja por ser um quesito essencial à função analítica. A observação e escuta não pretendem ser como quaisquer outras da vida social. Não basta compreender o discurso do outro em sua semântica e observar apenas o que se manifesta no mundo externo. Mais que os fatos em si, interessam sobremaneira os eventos internos como sentimentos, emoções, sonhos, fantasias.  Assim, é preciso haver outro alcance, utilizando-se de uma espécie de “visão binocular” a fim de ampliar o campo de visão, oferecendo outros vértices de compreensão, promovendo maior aproximação e intimidade entre a dupla formada pelo paciente e analista, quando se trata de uma parceria de trabalho.

 

No mais, a cena descrita acima, para além da bisbilhotice da vida alheia, revela algo de encantador e poético. E convida a pensar. Eu estava justamente em uma posição em que só podia ouvir, ou seja, fora do campo de visão do outro, como geralmente acontece no consultório de psicanálise.  Diferente da privacidade da sala de atendimento, eu sabia que não faria intervenção alguma naquela cena pública. Eu nem mesmo conhecia a fisionomia da dona daquela voz meio infantil, desejosa de alguma coisa que não sabia bem o que era.  De qualquer modo, era fácil ouvir porque minha pequena vizinha parecia ignorar seu tom de voz, detalhe que me absolvia de ser xereta. Para ela, em seu afã, a exposição e a curiosidade de desconhecidos importavam menos que seu objeto de desejo. Objeto de desejo?!  Vamos ver:

 

  - Mãe, esse Box vem com todos os filmes da Marylin Monroe. Todos, mãe! Ah, eu adoro ela, mãe. Por favor, deixa!

 

Ela então continua sua súplica, dando detalhes persuasivos da oferta exclusiva, como o baixo preço de ser proprietária dos filmes daquela que até hoje – até hoje! – é símbolo de sensualidade, beleza, sedução. Faltou adjetivo? Aquela menina conhece todos. Chama-me a atenção uma atriz dos anos 50 do século passado participando do processo de subjetivação e feminilidade de uma garota de hoje.  Mas, enfim, o mito MM catalisa elementos da fantasia de seu ideal de mulher. O interessante, e o mais belo, desse flagrante cotidiano foi testemunhar o momento em que a menina, enquanto ninfa, autoriza-se com a mãe o seu desabrochar. Naquele instante, pensei na importância da participação da mãe para legar a feminilidade à filha. Por outro lado, refleti sobre o risco da precocidade e banalização de uma fase delicada na vida de uma menina. Era como se a personagem real desta crônica estivesse mesmo com sua feminilidade guardada em um Box, ainda selada, latente; pupa aguardando a metamorfose em borboleta para romper o casulo e voar.

 

Depois do que imagino ter sido a interdição de uma ciosa mãe, a candidata a pequena Marylin se levanta e passa em frente à minha poltrona. E assim, posso ver uma menina franzina, vestindo short Jeans curto e camiseta vermelha com estampa de uma grande boca entreaberta. Surpreso, noto sua compleição física bem distante da anatomia daquela de seu modelo ideal de mulher guardado na caixa que abraçava, e dentro de si, incubado. Em silêncio, ela dirige-se à seção de DVDs, provavelmente para devolver o tal Box no lugar. A mocinha não terá seu presente natalino adiantado, tampouco sabe que aquilo que deseja não receberá embalado para presente. Antes, será preciso conquistar para se apropriar.

 

Recomposta de sua excitação e resignada – quem sabe aliviada? – percebe que terá dias de Chapeuzinho Vermelho antes de sua Marylin Monroe saltar da caixa.


 

Luciano Bonfante

lbonfante@netsite.com.br

Psicólogo Membro Filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto- SBPRP

data de publicação: 07/10/2014

 

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