Em 12/08/2014
 

A arte serve de continência, sim!

João revela que “a arte em sua dimensão para além da estética que vislumbra aos olhos pela sua qualidade de belo, é também um meio de continência”.


A arte serve de continência, sim!

 

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Ao assistirmos um filme, ao escutarmos uma música, ao apreciarmos um quadro, ao lermos uma poesia,etc,  podemos sentir uma infinidade de emoções. Nós somos afetados a todo o tempo e navegamos nesse mesmo tempo em busca de uma explicação interna para nos conter, sempre em busca de uma capacidade frente ao sentir. Sentir demanda uma capacidade. Demanda uma capacidade de suportar.

 

A arte em sua dimensão para além da estética que vislumbra aos olhos pela sua qualidade de belo, é também um meio de continência. Se entendermos uma obra cinematográfica como um meio de expressar o que sentimos nos personagens que nela se apresentam, podemos nos perguntar se estamos na frente de nossa vida sendo relatada artisticamente ou se o diretor do filme, por exemplo, sonhou os nossos conflitos.

 

A possibilidade artística vai para além do que as palavras dizem sobre o alcance. A gente se identifica com quem sofre, pois também sofremos. A gente se identifica com quem ama, pois também amamos. A gente se identifica com quem odeia, pois também odiamos. A gente se identifica com gritos intensos de dentro, pois também gritamos apavorados em momentos que nos faltam a capacidade de representar, e diante disso, de ser e existir.

 

 Há momentos que o eu se questiona, rompe com o mundo, se fragmenta, e a arte é uma das formas de nos socorrer. Serve como alimento para esse eu ferido, aos pedaços.

 

Com a poesia temos as palavras expostas. Acreditamos muitas vezes que os poetas escreveram tais poemas na nossa frente, olhando em nossos olhos e captando tudo o que sentimos pela expressão da face como um todo e principalmente pela fixação no olhar. Diante da arte as nossas fantasias se recriam, rompem de fato com qualquer barreira, imposição do princípio de realidade. Somos realmente movidos pelo que há de mais puro e verdadeiro.

 

Podemos nos ver nas palavras,e acreditar que ali, existem as brechas que o espelho não nos dá. Podemos no ato de ler sentindo, no olhar em cada letra de palavra afetada, lançada, projetada. Podemos erguer núcleos psíquicos que numa ausência de continência seria imensamente dolorosa tal atitude. Podemos reconhecer de uma melhor forma de apreensão como estamos nos relacionando com os nossos funcionamentos psíquicos e sentir a verdade de nossa responsabilidade frente ao que sentimos e desejamos.

 

O ato de se ver numa obra de arte é uma das mais fantásticas maneiras de se contemplar utilizando-se das fontes do âmago. Encontrar esses mecanismos é também uma forma de criar em cima do já criado. É uma forma de se reinventar. É uma forma de viver, e já não só de sobreviver, no que cabe uma distinção significativa. Se ver num quadro, se juntar a ele, correr a paisagem pintada, se sujar com as tintas coaguladas, viver a nuvem do pintor, nadar no mar congelado,etc. Nada disso é um problema, nem necessariamente uma dor de fragmentação incapaz de ser administrada pelo poder de suportar.

 

 Essa possibilidade pode ser, e muitas vezes é, um meio que necessitamos para sentir como estamos funcionando e para qual finalidade funcionamos de tal modo. E a arte, como sempre, nos servindo de continência.

 

Misturar-se com palavras, tintas servidas de paisagem, personagens na tela do cinema, com aqueles do palco no teatro, etc, pode não necessariamente significar uma ruptura que provoque danos irreparáveis. Às vezes é preciso acontecer algo dessa natureza para nos percebermos. A gente pode, a gente deve, a gente é movimento. Se assim não nos percebermos, a vida termina antes de realmente começar a rodar a grande roda da vitalidade.

 

 

João Paulo Corumba

Graduando em Psicologia

jpcorumba@hotmail.com

data de publicação: 12/08/2014

 

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