Em 29/07/2014
 

O que faz de diferente a psicanálise?

“Mais do que uma corretude teórica, um bom trabalho deveria buscar uma corretude afetiva, e a partir da experiência da compreensão”


O que faz de diferente a psicanálise?

 

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Recentemente, tenho me visto em meio a debates, com colegas e amigos, a respeito da validade “científica” da teoria psicanalítica. Devo admitir uma certa curiosidade, desde minha leitura e estudo do Projeto para uma psicologia científica, texto de Freud escrito em 1895, porém publicado em 1950, já após o falecimento de seu autor, acerca da correspondência entre as teorias psicológicas e metapsicológicas com o substrato básico biológico humano. Ou seja, será que um dia vamos entender em qual parte de qual neurônio se dá uma ideia? Talvez isso pertença ainda a outras partes de outras unidades menores que o neurônio ainda não conhecidas, ou ainda mesmo do agrupamento dessas células de formas que ainda não compreendemos.

 

John Horgan, escritor e jornalista científico norte-americano, em seu blog Cross-Check http://blogs.scientificamerican.com/cross-check/), diz que “um paradigma da mente efetivo deveria produzir tratamentos efetivos para a doença mental”, e que esse era um dos motivos pelos quais a psicanálise continuaria viva. Através da “cura pela fala” (talking cure) todos os procedimentos terapêuticos produziriam efeitos semelhantes – o chamado efeito “Dodô” – e tais efeitos seriam advindos mais do estabelecimento de um bom relacionamento entre terapeuta e paciente e menos da precisão “científica” de seus conceitos sobre a mente.

 

Eis aí a grande diferença, em minha opinião.

 

Desde 1895, quando envolvido com sua “Psicologia para neurologistas”, Freud já escrevia sobre a experiência do bebê com a mãe, e daí já emergiria uma teoria do relacionamento. Sobre a constância da experiência do surgimento da fome e de seu aplacamento pela amamentação uma relação seria estabelecida, entre o recém-nascido e seu cuidador, que permitiria a aquele criar e sedimentar dentro de si seus primeiros processos de pensamento e reconhecimento da realidade.

 

Mais tarde, com a definição do conceito de transferência, em 1905, veio talvez a peça mais importante para esse quebra cabeça. Ao perceber que os sentimentos de seus pacientes com relação a si variavam e assim também variava a relação deles com a análise, Freud notou que era nesse terreno – o terreno da relação entre paciente e terapeuta – é que poderia se dar de fato a análise e o tratamento.

 

Assim a psicanálise se distanciaria ainda mais da “Psicologia para neurologistas”, ainda mais dos conceitos de neurônios com funções específicas, e mais em direção a uma teoria do relacionamento humano como base para o tratamento psicológico. Através de uma boa relação entre paciente e analista, uma melhor compreensão interna poderá ser alcançada, e através da aliança entre ambos – a aliança terapêutica – uma cura poderia ser alcançada.

 

O conceito de transferência promoveu uma mudança profunda na psicanálise, de um método menos investigativo para um método mais interpretativo. Ou seja, mais do que apenas descobrir quais os mecanismos de defesa, os medos infantis, as ideias contidas nos sonhos, o ponto central da análise seria também a forma como esses conteúdos seriam comunicados e trabalhados, entre analista e paciente. Assim, a experiência do entendimento assumiria uma dimensão diferente: mais do que uma corretude teórica, um bom trabalho deveria buscar uma corretude afetiva, e a partir da experiência da compreensão, talvez mais do que seu conhecimento, se daria uma mudança efetiva na conduta do paciente.

 

                A questão de como nosso corpo, com seu substrato biológico, suas bases genéticas e fenotípicas, seu cérebro e o resto de seus órgãos, produz uma mente (e talvez devêssemos dizer “é” uma mente, e não só a produz), talvez vá perturbar a cabeça dos cientistas durante muito tempo. De que matéria física é feita a sensação do “eu”? É bem provável que tal pergunta ainda fique sem resposta. O próprio John Horgan, citado acima, diz ao final de um de seus textos: “Ainda não temos uma ciência genuína da mente. A questão é quando, ou se, iremos tê-la um dia”. Isso não deve, entretanto, perturbar o desejo da humanidade de oferecer ajuda e tratamento psicológico às pessoas, ainda que fundado em abstrações acerca do funcionamento da mente. Contanto que mantenhamos dentro de nós um bom grau de crítica e curiosidade, poderemos avançar em nossa compreensão, tanto relacional quanto física de como o ser humano é e funciona.

 

E, em se distanciando da biologia e penetrando mais no terreno afetivo, a psicanálise oferece uma grande vantagem, a meu ver. A ideia de que a relação entre paciente e analista constituía o ponto central da análise penetrou profundamente na teoria e na pesquisa psicanalítica, trazendo uma profundidade única em seu estudo dessas relações. O que a psicanálise faz de diferente é debruçar-se sobre esse relacionamento, baseada na ideia de que é o amor o que cura, e de que assim devem ser ensinados os analistas.


 

 

Leonardo Siqueira Araújo

Membro do Instituto de Psicanálise do Grupo de Estudos Psicanalíticos de Minas Gerais

leosiqueira@gmail.com

data de publicação: 29/07/2014

 

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