Em 01/07/2014
 

O silêncio que fala

Erik reflete sobre um silêncio muito atuante tanto na música quanto na psicanálise e mostrando sua importância em preparar o espaço para o pensamento.


O silêncio que fala.

 

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Procurei um assunto para escrever que fizesse bastante parte do cotidiano de todas as pessoas e que eu tivesse certa facilidade para escrever sobre ele. Depois um certo tempo, em silêncio, pensei que poderia escrever sobre este estado em que me percebi. Durante esse momento, pensando como escrever sobre essa ausência de som, percebi que o silêncio está presente tanto na psicanálise quanto na música e resolvi fazer uma intersecção entre tais temas.

 

De um lado a música, com a sua capacidade de expressar, através de melodias, as formas mais complexas de sentimentos que existem, tocando profundamente o ouvidor, do outro lado a psicanálise, com a sua capacidade de trabalhar difíceis obstáculos da mente apenas com a dialética. Ambos, convergem neste “silêncio”.

 

O silêncio em uma sessão de análise se instala por diversos motivos. Desde um silêncio como forma de resistir a falar sobre determinados assuntos que causarão incômodo, até um silêncio contemplativo, em que, por mais que certos conteúdos sejam dolorosos, eles são refletidos através desse silêncio. É a esse segundo silêncio que irei me ater. Um silêncio que, através do pensamento, nos leva a outro nível de compreensão sobre nós e sobre o que sentimos.

 

Irei, porém, além das paredes de um consultório, irei olhar esse silêncio “pensante” em um contexto “musical”.  A pausa, o silêncio absoluto, é mostrada na partitura musical como um signo que indica que, naquele momento, aquela nota que está pontuada com ele, não deve ser tocada. Alguns músicos usam os termos “figuras negativas” ou “valores negativos” para se referir à pausa. Devo particularmente discordar, como um músico, igual a muitos outros, pois tais termos soam como se a pausa trouxesse uma ausência de valor à nota. Pelo contrário, a pausa tem uma grande importância como o som propriamente dito. Ela causa o “swing”, o “groove” em alguns ritmos musicais. Ela causa o momento de “reflexão”, como uma forma de sugerir qual caminho seguir no resto da música, após a sua pontuação. Em um novo compasso, ela pode voltar às mesmas notas, como pode mudar de tonalidade e seguir por um novo caminho.

 

O nosso momento de “silêncio reflexivo” pode nos levar a novas conclusões, caso tenhamos capacidade de suportá-las, como também, pode não ter e nos fazer repetir os mesmos versos, as mesmas “notas da vida”.

 

Na vida, assim como em uma sessão de análise e na música, a pausa tem uma enorme importância, pois são nesses momentos que a mente tem a capacidade de ponderar e/ou pensar sobre determinadas emoções e questões existenciais do ser, mesmo os pensamentos que mais doem. Como diz Caetano Veloso em “Mora na filosofia”, “Botei na balança, você não pesou, botei na peneira e você não passou...”, um pensamento nada agradável pode ser ponderado e mudado de “tom”, da mesma forma que a pausa na partitura musical proporciona. Isso me traz à lembrança um dia, em minha análise, em que dentro de mim, no meu silêncio, percebi uma turbulência intolerante à mudança, que parecia mais uma banda de heavy metal frenético tocando, me lembrando os primeiros discos do Iron Maiden.

 

 No cotidiano das cidades, a população que está inserida nesse dinamismo, perdeu um pouco da capacidade de apreciar este momento de pausa, devido a longas jornadas de trabalho e diversas responsabilidades. O tempo é precioso e tudo precisa ser “imediato”. Muitas pessoas já não têm mais tempo para sentir a tristeza e a ansiedade e, assim, poder refletir sobre elas.

 

Estive, esses dias, lendo uma matéria de uma revista sobre o uso deliberado do psicotrópico mais vendido no Brasil, o rivotril, e outros com o mesmo princípio ativo. O Brasil é o país que mais consome no mundo este ansiolítico e, muitas vezes, por razões indevidas, como pessoas que usam simplesmente para dormir, para evitar alguma tristeza ou angústia, obtendo a resposta do medicamento e o alívio de forma imediata.

 

Parece-me que o imediatismo proporciona o contrário do que o pensamento produz. Se, por um lado, o pensamento nos dá a capacidade de refletir e ter paciência com o que sentimos, o imediatismo, por outro, proporciona o ato de impulso sem reflexão, a necessidade de alcançar o alívio imediato, sem “colocar na balança”. Creio que o imediatismo transforma a “partitura da vida” em algo mecânico, linear, sem nenhum swing ou melodia. Tudo em prol do prazer mental imediato, fugindo da dor da frustração que o pensar proporciona. Tudo devido à “falta de tempo”.

 

Percebi que este silêncio – que, a essa altura, já posso chamar também de “pensamento” - nos leva a um território que pode causar estranheza ou até medo e dor, por não conhecermos determinadas coisas ainda. Mas a vida é uma trajetória em que não sabemos qual passo iremos dar e onde daremos este passo. Lembrei-me de um dia em que estava admirando uma bela paisagem, em um local próximo a minha casa, e, em um momento de pausa, lembrei-me de um trecho de uma música de interpretação da Gal Costa, “Hotel das Estrelas “, “Dessa janela sozinha, olhar a cidade me acalma...”.

 

Erik Dória de Souza

Psicólogo CRP19/2414

Membro do grupo de estudos de Bion e Ferrari.

erikdspsicologia@gmail.com

data de publicação: 01/07/2014

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