Em 24/06/2014
 

Poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons

Psicanálise, Neurociências, IPA. Adalberto Goulart faz um pequeno histórico integrando os vários conhecimentos humanos e expandindo o olhar sobre nós mesmos.


Poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.

 

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O título acima, de autoria do próprio Dr. Freud, é no mínimo intrigante e instigante. Na realidade nos fala do objeto e do objetivo mais essencial da Psicanálise – a constante procura pela verdade. Verdades ocultas no fundo de nossas almas, de nossos relacionamentos, da alma de nossa civilização e de nossa cultura. Verdades ocultas que são responsáveis pelo nosso destino, mas também, outras tantas vezes, são responsáveis por conflitos, desencontros, sofrimento, doenças do corpo e transtornos emocionais.

 

“A Psicanálise ainda é a visão da mente mais intelectualmente satisfatória e coerente”, nos diz Eric R. Kandel (Prêmio Nobel de Medicina em 2000). Esta afirmação pode parecer estranha para alguns, sobretudo vinda de um neurocientista do porte de Kandel. Pode mesmo parecer surpreendente para outros tantos que argumentam ser a Psicanálise uma abordagem cara, lenta, prolongada. Há aqueles, ainda (acreditem!), que questionam o seu corpo teórico e a sua compreensão da mente humana, fruto de mais de cem anos de pesquisas clínicas.

 

É por demais compreensível que uma ciência que busca revelar o que a humanidade, desde tempos imemoriais, procura ocultar ou esquecer seja constantemente combatida e convidada a provar o seu vigor. Sexualidade infantil, o sentido dos sintomas, os desejos ocultos no conteúdo dos sonhos, fantasias, devaneios, atos falhos, comportamentos, a força das paixões inconscientes, a importância das primeiras experiências de vida de um bebê, o determinismo psíquico, etc.

 

Sigmund Freud (1856-1939), médico vienense criador da Psicanálise, já nos dizia que, se um dia, a ciência por ele criada fosse aceita com compreensiva benevolência ou banalização, teríamos fortes razões para nos preocupar com seu destino, com as distorções por ela sofrida e com a sua descaracterização. Preocupado com a expansão da ciência por ele criada, Freud e outros pioneiros, fundaram, no Congresso de Nurenberg (1910) a International Psychoanalytical Association, com o objetivo de zelar pela formação de psicanalistas, pela supervisão das Sociedades de Psicanálise espalhadas pelos cinco continentes e pela responsabilidade ética e científica da profissão e de suas pesquisas.

 

A Psicanálise surge como um terceiro e arrebatador golpe sofrido pelo narcisismo da humanidade. O planeta Terra não é o centro do Universo, nem mesmo o centro do nosso Sistema Solar, mas apenas um minúsculo corpo celeste flutuando na imensidão (Nicolau Copérnico, 1453-1543). O ser humano não é uma criatura especial, mas fruto da evolução das espécies (Charles Darwin, 1809-1882). O homem não é senhor sequer em sua própria morada, visto que não temos consciência sobre a origem inconsciente dos nossos sentimentos, pensamentos e ações (S. Freud).

 

De fato a experiência psicanalítica é um processo intenso, que costuma levar alguns anos e que exige bastante investimento. Investimento em relação ao tempo a ela dedicado, em média são quatro sessões semanais de 45 minutos no mínimo. Investimento afetivo, em termos de curiosidade e interesse genuínos na compreensão profunda da natureza da alma humana. E, obviamente, algum investimento financeiro. Caberia questionar: o que seria mais caro, fazer análise ou não fazer análise? Quem teve ou tem a oportunidade de viver esta singular experiência tem a resposta.

 

Com o advento de novas tecnologias e recursos para investigação, os estudos neurocientíficos sofreram um avanço fabuloso, podendo hoje demonstrar, por outras vias, muitas das observações clínicas que a psicanálise vem constatando durante mais de um século. As barreiras de contato entre os neurônios, as sinapses, os mecanismos de “facilitação” da transmissão da energia nervosa na formação das memórias são conceitos e modelos adotados pela psicologia cognitiva e pela neurociência computacional atualmente, já descritos por Freud em 1897.

 

Os processos mentais são inconscientes em si mesmos. A percepção deles pela consciência se assemelha à percepção do mundo externo pelos órgãos dos sentidos.

 

As principais ideias de Freud sobre a natureza do afeto são consonantes com as perspectivas mais avançadas da neurociência contemporânea. A. Damásio, um dos mais importantes neurocientistas da atualidade, propõe (coincidindo com Freud) que o corpo, real e como se representa no cérebro, seria o teatro das emoções, e que as emoções seriam basicamente leituras de mudanças que realmente tem lugar no corpo.

 

Experiências neurocientíficas conduzidas por aparelhos de alta definição revelam que uma decisão tomada conscientemente é registrada meio segundo antes do sujeito ter consciência delas e sobre os sonhos, atestam algo observado e estudado por Freud e outros psicanalistas como Bion: têm a função de organizar e ordenar o sistema de memória, juntando memórias recentes ao acervo pré-existente e funciona ininterruptamente, inclusive durante a vigília, embora só percebido em estado de sono, quando a atenção voltada para o exterior adormece. O sonho realiza diariamente uma espécie de psicanálise natural. É através do sonho que uma experiência adquirida é incorporada ao patrimônio psíquico. Também aqui coincidem os pontos de vista da psicanálise e da neurociência: há uma interação entre aspectos primitivos e recentes. Esses estudos demonstram ainda que a formação das conexões sinápticas não depende unicamente do código genético. Experiências dos primeiros anos de vida, especialmente as experiências afetivas, têm papel fundamental na construção das redes neuronais. Aquelas que receberem estímulos ambientais mais frequentes serão fortalecidas e se tornarão duradouras, aquelas pouco estimuladas serão eliminadas.

 

A Psicanálise diferencia-se dos outros métodos psicoterápicos por fazer uso de conhecimentos científicos dessas estruturas afetivas e ideativas, fundamentando um método e uma técnica que visam o desenvolvimento global da personalidade e não a remoção de sintomas isolados, mergulhando nas regiões mais profundas, de onde dados de um passado extremamente precoce são trazidos para uma superfície virtual e aí trabalhados, elaborados e modificados, inclusive fisiológica e anatomicamente, como hoje demonstra a neurociência.

 

No alvorecer do século XXI observamos o que Freud, em diversas passagens de seus textos, dizia acreditar: que no futuro (hoje presente), a psicanálise se encontraria com a neurobiologia, e que esta poderia trazer respostas para algumas questões a partir de outros vértices.

 

Uma aproximação entre essas disciplinas proporciona à psicanálise uma validação objetiva e concreta para as suas teorias. Por outro lado, tal aproximação também é importante para a neurociência, que se beneficia da larga experiência da psicanálise nos campos da afetividade e da subjetividade. Articulando-se com todas as demais disciplinas, desde a educação à antropologia, sociologia, psicologia, medicina, filosofia, artes, e desafiando previsões, a Psicanálise desponta como a ciência, por excelência, do ser humano no século XXI.

 

Para que possamos ser melhores, sem querermos ser tão bons.


 

 

Adalberto Goulart

 Membro Efetivo e Analista Didata IPA -   NPA/SPRPE

adalbertogoulart@uol.com.br

data de publicação: 24/06/2014

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