Em 27/05/2014
 

A arte de Ouvir sem ficar com raiva

A atração sentida pelos parceiros não se fundamenta somente na percepção consciente dos aspectos 'bons' de cada um deles, mas sim numa percepção inconsciente, de fatores 'ruins' bastante profundo


A arte de Ouvir sem ficar com raiva 

 

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 “O casamento é uma aliança entre duas pessoas: uma nunca se lembra dos aniversários e a outra se lembra sempre” Ogden Nash (1902-1971)

 

Falar da arte de ouvir sem ficar com raiva, remete-me aos relacionamentos amorosos das celebridades, nas fotos da Revista Caras, nas impressões que se têm dos casais à distância e assim vai. No mundo da fantasia, tudo é perfeito, tudo é amor eterno, parceiro do tipo almas gêmeas etc. Dali a pouco, essas “almas gêmeas” se transformaram em “almas não gêmeas”. O que aconteceu com esse amor eterno?

 

Penso que os valores dos homens e das mulheres são peculiares e diferentes. Assim também no que diz respeito aos defeitos. Aliás, assim como os valores têm uma infraestrutura dentro da personalidade, os defeitos, do mesmo modo, os têm. Os dois erros mais comuns existentes entre o sexo oposto são: os homens erroneamente oferecem soluções e invalidam sentimentos, enquanto as mulheres oferecem conselhos e orientações não solicitadas. Esses erros são cometidossem nenhum deles se darem conta disso, ou seja, o fazem inconscientemente.

 

Observa-se num casal uma dinâmica entre eles na qual cada um tem uma necessidade emocional diferente. Enquanto os homens tentam se afastar e pensar silenciosamente sobre o que os está incomodando, as mulheres sentem uma necessidade instintiva de conversar sobre aquilo que as incomoda.

 

Tanto os homens quanto as mulheres sentem que se dão, mas não recebem de volta. Eles sentem que seu amor não é reconhecido nem apreciado. A verdade é que ambos estão dando amor, mas não da maneira desejada pelo parceiro. Não há reciprocidade.

 

As motivações que impulsionam os indivíduos a se casarem ou coabitarem, são de âmbito de fatores inconscientes. A atração sentida pelos parceiros não sefundamenta somente na percepção consciente dos aspectos “bons” de cada um deles, mas sim numa percepção inconsciente, de fatores “ruins” bastante profundos. Inconscientemente a “escolha” é feita geralmente a partir de uma complementaridade, um “encaixe” das personalidades dos parceiros. Sendo assim, a atração entre os parceiros pode se dar a partir de uma imaturidade emocional mútua ou mesmo de conteúdos doentios. Indivíduos que não conseguem facilmente existir como pessoas individualizadas e possuem uma intensa ansiedade de separação, geralmente procuram um parceiro que é igualmente ansioso em relação à separação.

 

Há casais que revezam o papel de agressor e agredido. São agressões que podem ser de natureza verbal, moral ou mesmo física. Instala-se, então, uma ligação dolorosa, paralisante e frustrante.

 

Não raro, são incapazes de se separarem. Nesses casos, visualiza-se que os aspectos “ruins”, conflitantes, de um, são projetados no outro e vice-versa.

 

O que induz, obrigatoriamente, a cada um deles, posicionarem-se defensivamente a uma relativa distância do outro, de modo a não perder para sempre essa parte do se eu. Desta forma, os conflitos de cada um dos parceiros são externalizados na relação ? é só questão de tempo. Ou seja, os medos e fantasias inconscientes, pertencentes ao mundo interno dos parceiros, como os problemas antigos não resolvidos, sejam eles de amor ou ódio, dominância e submissão, abstinência e desejos insaciáveis, necessidades de controles, são constantemente manifestados na interação dos parceiros e assim reverenciados infinitas vezes, à sorte da dupla.

 

Por outro lado, não podemos nos esquecer que são as boas afinidades que solidificam o elo, motivos para justificar a continuidade da convivência. Uma relação contínua em que um se importa com o outro, em que ambos se desejam, se acolhem, se respeitam e se nutrem, tem tudo para que a individualidade de cada um se expanda, em coexistência com um “nós” afetuoso e forte, formando, então, um “clima” na dupla que permita superarem os conflitos existentes entre eles.

 

 

 

 

Marcy Motta Carmona Gerbelli

Membro Filiado do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de São Paulo.

Coordenadora da Seção Regional do Grande ABC- Diretoria Regional da

Sociedade Brasileira de Psicanálise de SP.

E-mail: gerbellimarcy@uol.com.br

data de publicação: 27/05/2014

 

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