Em 20/05/2014
 

Invasão digital e a questão da imagem

Miriam Tawil traz questionamentos sobre a percepção de nossa identidade via mídias digitais e como esta influência virtual influencia na construção de nossa identidade e das nossas relações familiares


Invasão digital e a questão da imagem

 

Quer imprimir ou arquivar? Clique aqui

 

Uma matéria na Veja desta semana me chamou a atenção. Trata-se do envio de SMS de imobiliárias, lojas e companhias de viagem. Noto o fato e sou solidária.

 

Somos diariamente inundados de propagandas. Têm-se hoje a cidade limpa, mas, sem os outdoors, a invasão está em nossos telefones, pages e ipads, até secretaria eletrônica, em período eleitoral passa a receber propostas de candidatos pedindo votos.Diariamente temos que apagar mensagens. Há o Facebook, o MSN, o e-mail, o Whatsapp. Tanta tecnologia nos torna mais comunicativos? A subjetividade sofre um impacto, se não somos conectados, parecemos pré-históricos. Não descarto o lado bom da tecnologia, mas gostaria de me ater ao aspecto nocivo.Há pessoas que tiram foto do que comem, de paisagens, por de sol, viagens, filhos, netos e momentos especiais. Antigamente mostrar as fotos de uma viagem, era motivo de encontros, projetavam-se os slides, muitas vezes um jantar, um aniversário era motivo de alegria e comunhão. A sociabilidade era ao vivo e a cores. Não quero parecer nostálgica, mas tenho saudades das fotos panorâmicas, reveladas em papel.Precisava-se esperar, revelar, escolher e pagar.As crianças hoje se comunicam mais por mensagens que ao vivo. O celular virou o terceiro elemento na relação. Ele não frustra, posso desligar, apagar o amigo a qualquer momento. O fato de ter esse acesso imediato e de poder postar fotos a centenas de amigos num segundo traz questões éticas a ser pensadas.

 

Um paciente dizia, “acabei o namoro e pus no Facebook. Já tenho trinta pretendentes. É assustador! ” Ou uma modelo, muito linda no seu book, após o Photoshop me pedia, “me ajuda a ser como minha foto? Não consigo trabalho, pois as pessoas acham que não sou a mesma da foto”. Na foto era muito sensual, na realidade uma menina.Na mesma revista há o artigo Crianças no divã. Na questão da vida digital vemos como a timidez pode ser compensada com o isolamento na frente do computador. Pais não põe limites, mimam seus filhos para compensar separações e ausências no trabalho. Eles não conseguem ser suficientemente bons, ou seja, atender o filho no que ele precisa: muitas vezes uma orientação moral, atenção, carinho e uma boa conversa. Vemos também pais e mães no divã. Parece que educar hoje é a tarefa das mais impossíveis, de uma geração a outra tanta coisa muda que os filhos acabam tendo uma relação horizontal, ensinando os pais. A hierarquia precisa ser recuperada, vemos em vez de uma continência, muita complacência.A Psicanálise há muito tempo estuda o papel da frustração na formação da personalidade. A criança aos poucos aprende a tolerar ausências e frustrações para poder esperar por comida, troca de fralda, acalanto para seu sono e assim sabe que pode contar com ajuda externa para se atender. Tem-se fome e oferecemos colo, sono e oferecemos barulho, sente-se molhada e damos comida, como fica?

 

Ela aprende que não conta com seus pais. E se os pais não sabem escutar? Se estão muito ocupados com suas vidas? Seus divórcios, suas carreiras? Eles não sabem como agir, e vão também ao divã. Esse movimento saudável pode auxiliar a ter essa escuta afinada, a si próprio e aos demais membros da família. A Psicanálise mostra-se como uma grande aliada nesses tempos conturbados.O foco do psicanalista é o mundo interno, todas essas mudanças refletem na subjetividade e na maneira de estar no mundo. A escravidão ao outro deve dar lugar a um movimento de liberdade, de busca da alteridade e conquista de um modo de vida mais coerente com necessidade e desejos internos, sem deixar de estar inserido na cultura. Ao invés de ter um movimento de alienação, tomar a vida nas mãos, ser senhor do seu destino.  O psicanalista está a serviço do seu paciente para ajudá-lo a se descobrir, a se revelar, mas parece que a cultura hoje ajuda mais a se esconder.

 

Miriam Tawil

Psicanalista

Membro Efetivo na empresa Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e

Membro do grupo corpo e cultura Filiado ao grupo internacional EndangeredBodies

tawilmiriam@gmail.com.

data de publicação: 20/05/2014

 

0 comentário(s) | Envie seu comentário
Envie seu comentário
Seu nome *

Seu e-mail *
Seu comentário *
Comentário(s)
 

Leia também

A garotinha que conheceu o mar 04/05/2017

A partir de cenas do cotidiano, Ana Rita Menezes se aproxima do pensamento de Bion

Ponyo e o olhar psicanalítico pela janela da amizade 28/03/2017

O filme Ponyo será discutido durante o projeto Psicanálise & Cinema do NPA no dia 30 de Março.

Akira Kurosawa, uma personalidade complexa e nem sempre compreendida 22/02/2017

No dia 23/02, às 19h30 no Auditório do Centro Médico Luiz Cunha, Yusaku Soussumi comenta o filme Madadayo

Em defesa de uma confiabilidade ambiental mínima 07/02/2017

Fábio Brodacz reflete sobre a exposição infantil em tempos de compartilhamentos constantes

Um herói, por favor! 16/12/2016

A psicanalista Idete Zimerman Bizzi questiona os simulacros que povoam o mundo virtual

Prematuridade e algumas nuances 24/11/2016

Denise Alencar fala sobre os desafios de uma gestação prematura
Página anterior Voltar
Topo Topo
 
 
Google+