Em 22/04/2014
 

Reflexões Sobre a Questão da Lei e da Violência na Contemporaneidade

Sandra Paraíso faz reflexões a respeito do que aconteceu com Claudia Silva Ferreira que foi arrastada ao chão por um camburão da polícia no Rio de Janeiro e a ausência do papel dos pais (ou suas identificações e limites) como fator presente nessas situaçõ


Reflexões Sobre a Questão da Lei e da Violência na Contemporaneidade

 

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O ser humano é dotado de fortes desejos que, desde cedo, exigem proibições quanto às suas realizações. Interdições difíceis de serem aplicadas por convocar para que cada um dos pais ou substitutos se ofereçam como modelos aos filhos, submetendo-se eles próprios à lei. Logo, devem esses pais antes de mais nada, abrir mão desse lugar poderoso, tão atraente e convidativo de não render-se a nada, nem a ninguém. Atitude que certamente traria dificuldades aos filhos, tais como o empobrecimento da capacidade de simbolizar – além de gerar uma ausência de um modelo de identidade no qual não impere o imediatismo, comprometendo a estruturação de uma atividade psíquica reflexiva e sem confusões mentais a respeito da noção de si e do outro.

 

Penso que a ausência de interdições, assim como a ausência de modelos identificatórios, favorecem o surgimento de comportamentos essencialmente primitivos e dotados de uma agressividade próximo ao que conhecemos como barbárie.

 

A falta de limites por parte dos pais irá funcionar como uma grande sedução para com a criança, além de propiciar um convite sutil e determinante para a estruturação de uma atividade não-psíquica. Um convite ao ato puro e irracional – cuja busca frenética pelo prazer sem limite e a qualquer preço e artimanha, além de vir regido pelo princípio do prazer que preza o imediatismo do aqui e agora, objetiva aliviar-se do acúmulo de tensões. Por outro lado, esse não pensar, pode significar uma solicitação psicótica pela imposição de uma lei que enfim, reflita algum modelo que demarque afinal um lugar, mapeando o mínimo de uma organização que faça evoluir e aprofundar laços afetivos ao invés de superficializá-los, contribuindo mais ainda a ausência de qualquer tipo de pacto social.

 

Agora em março de 2014, assistimos ao Jornal Nacional noticiando a brutal tragédia sofrida por Cláudia Silvia Ferreira, auxiliar de serviços gerais, baleada durante uma operação da Polícia Militar, no Morro da Congonha em Madureira-RJ. Cláudia saíra de casa para simplesmente comprar pão, quando ao ser levada para o hospital na caçamba de uma viatura policial, caiu e foi arrastada pelo asfalto por 250 metros. Não resistindo, veio a falecer. Além do recente surgimento de corpos, não identificados e esquartejados, em várias cidades do país.

 

 O que poderia ter levado esses policiais a não pararem a viatura? O que teria levado essas pessoas, além de matar, esquartejar corpos? Uma coisa é certa, essas identificações precárias ou até mesmo a ausência delas, comprometem a construção de uma sociedade com qualquer sinal de justiça, respeito, dignidade e reconhecimento de si e do outro, causando graves prejuízos, no que diz respeito ao simples fato de sentir, sonhar, temer, desejar, sofrer e amar. Ou seja, danificam o simples fato de vir a existir como pessoa e a capacidade de identificar-se com o outro. Condição humana por excelência. Reconhecendo o outro apenas numa posição de extrema submissão. O que por fim, favorece, sem constrangimentos, uma primária e caótica expressão do primitivo através do prazer de dominar. Reflitamos!

 

 

Sandra Paraíso Sampaio

Instituto de Psicanálise da SPRPE

sandra.psi@uol.com.br

Data de publicação: 22/04/2014

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