Em 15/04/2014
 

O craque, a menina e o arco-íris

Discriminação e a possibilidade de suportar a diferença são os temas deste Psiquo escrito por Adalberto Goulart. O que nos faz destratar e agredir o outro, na verdade, fala mais sobre quem somos.


O craque, a menina e o arco-íris

 

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Abrindo os jornais hoje, neste domingo meio chuvoso de 13 de abril, me deparo com a manchete “Neymar é recebido com gritos racistas após derrota do Barcelona”. Supostos torcedores que imitaram macacos, gritaram como macacos, atiraram bananas e cascas de banana na direção do jogador.

 

Não foi a primeira vez com Neymar, que já havia sofrido tais agressões outras vezes, até mesmo com a seleção brasileira na Escócia. Companheiro de clube, Daniel Alves já sofrera coisa semelhante. Inúmeros outros jogadores também, recentemente um juiz de futebol. E presenciamos, em nossos cotidianos, muitas outras situações como essas, diariamente, basta observar.

 

Ontem, em um grupo de estudos, alguém comentava que nunca se viu tanta violência no mundo como nos dias atuais. Questionei, será mesmo? O que diríamos dos bárbaros e suas invasões, da Idade Média com sua Inquisição, do holocausto nazista, de tantas guerras insanas?

 

A mesma colega lembrara um episódio em que uma garota era chamada de macaca, em coro, por inúmeros outros estudantes. Levada a situação para que a Diretoria da escola tomasse providências, a mãe da garota ouvira do Diretor que isso seria natural e que a menina deveria se acostumar...

 

Óbvio que fatos como esses nos causam indignação, revolta, perplexidade, sem nenhuma dúvida! E nos fazem sempre questionar sobre a natureza humana e sua essência.

 

Como estávamos estudando aspectos primitivos do desenvolvimento emocional, do funcionamento mental primitivo, resolvemos usar o episódio relatado pela colega como modelo para pensarmos um pouco mais.

 

Estudávamos os dois princípios do funcionamento mental, como nomeados por Freud em 1911, com o Processo Primário, submetido ao Princípio do Prazer, em que tudo que interessa é a descarga em busca da realização do desejo, sem nenhuma consideração pela realidade. E por outro lado o Processo Secundário, este com consideração e respeito pela realidade, submetido às frustrações impostas por ela e dando origem ao pensar em busca de soluções mais adequadas à realidade e ao viver, para a descarga das mesmas pulsões. Ambos os Processos sempre ativos e presentes ao longo da vida, até o seu final, lembrando que a conciliação entre ambos e o predomínio do Processo Secundário mostra-se mais adaptativo e funcional à realidade que construímos ao longo da história da nossa civilização, contendo e adiando a descarga, sublimando, buscando soluções construtivas.

 

Para a mente primitiva, de funcionamento narcísico, tudo aquilo que é diferente e causa estranheza e, portanto desconforto, exigindo esforço mental, criatividade, pensar adaptativo e evolutivo e, por isso mesmo, consumindo mais trabalho e energia, deve ser repudiado, se possível destruído, por ser perturbador e exigir uma reacomodação para novas aquisições que levarão ao crescimento, baseadas no diferente ou na novidade.

 

É como se a realidade quebrasse o espelho de Narciso, mostrando o diferente do qual todos nós dependemos. Afinal, não somos outra coisa a não ser... primatas! E no exemplo trazido pela colega, que coincide com o sofrido pelo craque Neymar, esta parece ser a realidade interna que precisa ser negada, repudiada, destruída, a realidade evolutiva que fez de nós o que somos até aqui, tendo, todos, uma origem comum, semelhante, em suas inúmeras diferenças.

 

A mesma colega, por associação, nos trouxe outra lembrança, a de que seu filho, ainda bebê se encantou ao se deparar pela primeira vez com uma pessoa de pele negra, comparando-a a seu pai, que tinha a pele suja de graxa quando trabalhava e com quem ele gostava muito de estar. Não é difícil compreender o amor...

 

Não é difícil compreender que as forças criativas, construtivas, de vida ou de amor, apesar de todos os pesares, têm conseguido suplantar as forças destrutivas, basta que reflitamos que a humanidade conseguiu mais construir do que destruir ao longo do tempo e da nossa curta história, é inegável.

 

Mas o que fazemos então com o desaglutinador, com o destrutivo presente em cada um de nós, que como dizia Freud, se perpetua ao nascer de cada criança?

 

Ora, fazemos arte, criamos nossa cultura, organizamos nossa civilização, inventamos, nos comunicamos, jogamos futebol, estudamos psicanálise e amamos, aqueles que têm graxa e os que não têm, porque o arco-íris tem sete possibilidades que se desdobram em uma infinidade de outras. E porque a vida colorida é mais bonita de se ver e de se viver. 

 

 

 

Adalberto Goulart

 Membro Efetivo e Analista Didata IPA -   NPA/SPRPE

adalbertogoulart@uol.com.br

data de publicação: 15/04/2014

 

 

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Comentário(s)
postado por Sergio Buonamassa em 15/04/2014 às 09:07

Prezado Amigo, É fato que o mundo "está andando por trás" e, por isso, estamos tendo contínuos atos de violência, seja ela física, psíquica, moral, racial, etc. etc. etc. Mas é para notar, pelo menos eu noto isso, que todos estes atos de violência, acontecem quando um "grupo" se une contra um único individuo. Ou seja, mais uma distorção da "união faz a força"!!!! Fácil é "unir-se contra um"; difícil, mas não impossível, é "um ir contro a um grupo". Os casos citados no texto, como sempre altamente bem escrito, sempre temos "grupo contra um" desde as invasões barbáricas, a Inquisição....Neymar..E vale lembrar o caso nacional( no Brasil), de outro jogador, Aronca, de raça negra. Como se tal raça não existisse no Brasil....Nossa, estamos quase no "final de linha". E mais ainda, nota-se que no Brasil, não acredito seja apenas uma coincidência, todos os dias, trabalhos mais pesados, são algo "restrito" aos quem pertencem a tal raça "não branca", como se a raça branca fosse superior( e aqui vale a pena lembrar o holocausto da IIª guerra mundial). Reputo que estamos diante de um fenômeno muito perigoso, onde, por falta de esperança no futuro, neste mundo sempre mais imediatista, "vale tudo" como diziam os romanos" Morte tua, vitae mia". Que pena!!! Que pena ver que ao invés de dedicar-se às artes, a um bom papo com os amigos, ao "parar, pensar antes de agir", a humanidade está sempre mais voltada( e começo a acreditar em um caminho sem volta) para o imediatismo, ao fenômeno "assim faz todos". Vamos preservar o que, mesmo que pouco,ainda existe de bom e lindo neste mundo: a vida. Abraços cordiais. Sergio.
 

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