Em 08/04/2014
 

Prazer e realidade: “o mundo é dos espertos?”

Prazer e Realidade e a dificuldade de conciliar os dois é o tema da Psiquo desta semana com Maria José Bacelar.


Prazer e realidade: “o mundo é dos espertos?”.

 

 

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Quando recebi o convite para escrever algo para a seção Psicanálise e Cotidiano, da página do Núcleo Psicanalítico de Aracaju, procurei escavacar na minha memória uma situação vivida no meu dia a dia que pudesse servir de pano de fundo para esta escrita.

 

Passados alguns dias, sentada na minha cadeira de trabalho e a me deleitar com a mangueira imponente que sombreia a minha janela, deixei que as lembranças corressem soltas até que uma, em especial, me fez parar esse fluxo veloz.

 

Tratava-se de um fato ocorrido recentemente em um supermercado, num sábado de manhã, quando para lá me desloquei para fazer as compras da semana. Após estacionar o carro, observei que, na área reservada a idosos, havia uma vaga e um veículo manobrava para entrar de ré. Enquanto ele fazia isto, ouvi uma buzina e vi que o carro que manobrava parou no meio da pista e a vaga pretendida fora ocupada por outro veículo que, apressadamente, estacionou. Os dois motoristas desceram dos carros e iniciaram uma conversa agressiva e indignada, por parte do pretendente à vaga, e, por fim, o “invasor” manteve seu carro no local e entrou no supermercado. O outro, por sua vez, foi procurar nova vaga disponível.

 

Esta situação me levou a tentar compreender a atitude do segundo motorista, de total desrespeito ao direito do outro e também a seus direitos enquanto indivíduo integrado a um agrupamento social. Como naquele momento precisava dar conta do que me levara ao supermercado, só à noite voltei a pensar no ocorrido, em busca de algum entendimento.

 

Iniciei com a procura de uma explicação para a ação agressiva do segundo motorista e divaguei nas conjecturas de justificativas até que parei na rememoração de um texto de Freud que trata do princípio do prazer e do princípio de realidade. Pude identificar, na atuação daquele homem, que agiu dominado pela necessidade interna de satisfazer ao desejo de, rapidamente, estacionar seu carro. Ao se sentir impedido de fazê-lo, já que o outro, que chegou primeiro ao local da vaga, fazia manobras para estacionar, atuou repetindo a necessidade de satisfazer ao princípio do prazer, processo primário em que a realidade é ignorada.

 

Essa situação, que vemos se repetir cada vez mais frequentemente na vida cotidiana de pessoas, em especial as que vivem nas grandes cidades, nos mostra que, em algumas situações, o aparelho psíquico não se decide e empenha em transformar a realidade, de modo a suportar e lidar satisfatoriamente com o desagradável. Em situações como essas, as pessoas vivenciam atuações muito primitivas, que são posteriormente justificadas por expressões como “o mundo é dos espertos”. Não conseguem perceber que, pelo menos nesses momentos, o que ocorre, do ponto de vista psíquico, é o reviver de uma atuação muito, muito primitiva.

 

Nesse caso específico, não se tratava de excluir as ideias que recomendavam que aguardasse o outro motorista e procurasse outra vaga, por gerarem desprazer, mas de avaliar e resolver se essas ideias concordavam ou não com a realidade externa. Com isso, ao invés da descarga motora (ação de atravessar e ocupar a vaga), teria possibilitado o processo de pensamento que lhe indicaria o mais razoável a ser feito naquele momento e que lhe possibilitaria suportar a suspensão, a não realização da fantasia de poder inicial, de ter realizado seu desejo de estacionar exatamente naquela vaga. Isto, no meu entendimento, configuraria o que a psicanálise chama de substituição do princípio do prazer pelo princípio de realidade.

 

Essa reflexão me mostrou a importância de procurarmos estar atentos e permanentemente conscientes do que está a ocorrer conosco nesse contato diário com a vida real, com a realidade. Para isso, é preciso que percebamos o quanto o ódio que toma conta de nós, em momentos como esse, é danoso e prejudicial, pois nos coloca em posições muito primitivas de nosso desenvolvimento e, portanto, impossibilitados de pensar, de encontrar soluções possíveis para enfrentar, e até suportar, as situações não esperadas que ocorrem no dia a dia.

 

 

 

Maria José Bacelar Guimarães

Licenciada em Filosofia.

Aspirante à Formação Psicanalítica.

zezebacelar@hotmail.com

data de publicação: 08/04/2014

 

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Comentário(s)
postado por Sergio Buonamassa em 08/04/2014 às 06:11

Prezada Maria Josè Bacelar Guimarães, Pois é, estamos sempre mais em um mundo onde " o que é errado, torna-se certo" e vice versa, sem pensar no outro, mas só em nós mesmos!!!! E não apenas na "disputa" de uma vaga para estacionar o carro, ou quando estamos em uma fila, e sempre tem alguém, "esperto" tentando "furar a mesma".....Estamos sempre mais sozinhos, aparentemente "juntos", ligados por aparelhos tecnológicos, onde "chatamos" cada um do próprio espaço, seja de trabalho, moradia, etc. etc.....Ninguém mais fala olhando para outro, ninguém reuni-se com os amigos para um bom papo, por mais aleatório e fútil que seja.....Que pena....Estamos voltando ao tempo das cavernas, quando os "humanos" ficam dentro delas, e só iam para o lado de fora, para "brigar" um com outro.....Da mesma forma que os dois motoristas da tua historia, fizeram ao descer cada um do próprio carro....Lamentável, mas é esta a realidade. Abraços cordiais........... Sergio
 

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