Em 25/03/2014
 

Poeira de Estrela

Esta semana o PsiQuo está contemplativo. Danilo Goulart traz reflexões sobre algo fundamental para o trabalho analítico: o sentir!


Poeira de Estrela

 

Quer imprimir ou arquivar? Clique aqui

 

 

Quando recebi o convite para escrever algo para esta página, no Psicanálise e Cotidiano, logo comecei a imaginar as possibilidades sobre o que escrever. Escrever psicanaliticamente sem usar a psicanálise. Pensei, pensei, e nada veio.

 

No dia seguinte me lembrei e decidi reler os textos já escritos por outros anteriormente, para me habituar com a ideia mas logo esqueci, e por um tempo deixei a ideia de lado e só voltei a pensar sobre isso quando me deitei na cama pra dormir.

 

Pensava, pensava e os pensamentos correndo para encaixes teóricos, até que fui interrompido por um ser diferente batendo à minha porta entreaberta. Era Boris, meu pug. Logo forçou a porta e veio entrando no quarto, como faz todos os dias para dormir. Ele sentou e eu sentei na cama, olhei pra ele e disse: “e aí, Boris!”. Ele “roncou” pra mim.

 

Assim me lembrei de uma reportagem que vi sobre neurocientistas comprovando uma comunicação entre cachorros e humanos. Demonstravam através de um aparelho as atividades cerebrais que acordavam de diferentes modos a partir de mudanças emocionais e outros estímulos do humano próximo. Quando vi a reportagem pensei: claro, mas como?

 

De volta à minha cama (que fica de frente a uma janela), olhava pra baixo e via Boris com seus olhos brilhantes olhando pra mim, quando olhei pra cima vi as estrelas, também olhando. Daí veio uma nova ideia. Uma ideia a partir do “como?”.

 

Como nos comunicamos? Como mantemos contato? Uns com os outros? Um com tudo? Tudo com um? Ou todos e tudo?

 

Na verdade a ideia que estou a mostrar se mostrou pra mim, mesmo como somente a ideia.

 

Para que possamos responder o como ou o porquê das coisas, muitas vezes precisamos voltar ao início e criticar, duvidar, questionar. Talvez até mesmo a questão de todos os tempos: de onde viemos? De onde isso veio? Como veio?

 

Temos por muito tempo aceitado a teoria do “Big Bang”, posteriormente talvez alguém a questione.

 

Mas, partindo dessa ideia, todos estaríamos conectados de alguma forma, seríamos diferentes frutos de uma mesma árvore, ou melhor, seríamos células de “um” universo. Imagino até que sentimos isso.

 

Quando coloco isso em questão, coloco não só os humanos ou os cachorros, mas sim tudo.

 

Enquanto pensava sobre essas questões em minha cama, lembrei de quando tinha entre 5 e 6 anos, numa tarde que fui à praia com minha família, e me lembro de brincar na areia, de afundar meus dedos e sentir uma sensação diferente de tudo, tanto quanto a sensação “revigorante” de um banho de mar. Por que isso?

 

E a ideia foi prosseguindo com seus caminhos audaciosos. Por exemplo, todo o relacionamento que mantemos com a tal natureza “inorgânica”, o próprio sol que necessitamos para existir, que por muitas culturas por muito tempo foi idolatrado, ou simplesmente uma bela vista de uma paisagem que nos emociona. Ou até menos ainda, o eterno poder das pedras e metais preciosos que move a ganância dos homens. E por fim lembro-me da água, que quando achada fora da Terra é sinônimo da possibilidade da vida.

 

Para mim, essa é a ligação, ou contato que mantemos com o mundo, outros integrantes do universo. Afinal, somos nada mais que “poeira de estrelas”.

Dando por fim esse pensamento, dormi, com o brilho do olhar de Boris, o brilho das estrelas e a interminável conclusão de uma ideia.

 

“Somos, de alguma maneira, tudo o que já fomos.”

 

 

Danilo Gama Goulart

Graduando em Psicologia

Coordenador do Cinema e Psicanálise do NPA

daniloggoulart@hotmail.com

data de publicação: 25/03/2014

 

 

1 comentário(s) | Envie seu comentário
Envie seu comentário
Seu nome *

Seu e-mail *
Seu comentário *
Comentário(s)
postado por Sergio Buonamassa em 25/03/2014 às 12:20

Caro Danilo, Uma vez, lendo um livro de um escritor italiano, um engenheiro informático, amante da filosofia, principalmente grega, ele convidou os leitores a pensar sobre algo parecido da tua ultima frase;-< Somos, de alguma maneira, tudo que já fomos>. Pois é, o referido escritor, convida refletir sobre algo deste tipo: " E se tudo, nós inclusos, fossemos algo que já existiu e estivéssemos re-vivendo tudo novamente, com apenas algumas modificações de um cenário"? Realmente e se isso fosse verdade......? Anos depois, li um trabalho onde explicava a inteligência dos cavalos, capazes de aprender rapidamente mutias coisas....Depois um amigo falou-me de algo tipo que os "primitivos" comunicavam-se por telepatia, coisa que ainda hoje os golfinhos fazem....O mais importante de tudo isso, é que, como você, parou para pensar....Ah se as pessoas, tirassem uns minutos por dia, para fazer isso...PENSAR!!!! O meu ponto de vista é que, em um mundo "imediatista" em todos os sentidos, a "parada para pensar" é vista como um "atraso", impossível de ser concebido isso hoje em dia....Lamentável, muito lamentável mesmo!!! Mas nunca é tarde para iniciar...Se nunca iniciarmos algo, nunca chegaremos ao final, concorda? E concluo: PENSAR é um dos privilégios dos vivos, PENSO ERGO EXISTO, dizia Sócrates, o pai da Filosofia. Parabéns pelo texto em todos os sentidos. Abraços cordiais, Sergio.
 

Leia também

A Piada do Palhaço 18/06/2018

18 de Junho de 2018

ESSA TAL FELICIDADE 12/04/2018

Helena Pinho de Sá contribui com o psiquo com reflexões sobre a saude, felicidade e o tédio. Existe uma receita para ser feliz?

A parte que lhes cabe deste latifúndio 21/03/2018

O primeiro texto do ano são reflexões acerca da violência, política, sociedade, da condição humana. Qual o valor de uma vida? Somos todos Marielle?

Um ano mais 20/12/2017

O presidente do NPA, Adalberto Goulart, faz um balanço do ano de 2017

O menino dos dedos de agasalho 07/12/2017

Do fluxo do cotidiano, Cristina de Macedo extrai uma cena de beleza e delicadeza

O monstro demasiadamente humano 30/11/2017

Texto escrito pelo psicólogo Rafael Santos, derivado de artigo publicado na Revista Psicanálise & Barroco (volume 15, 2017)
Página anterior Voltar
Topo Topo
 
 
Google+