Em 05/03/2014
 

Sempre é tempo de refletir

Ana Claudia Zuanella nos convida a refletir sobre as novelas buscando uma comparação com os romances em épocas sem a tv e a possibilidade de repensar a afetividade e o comportamento humano através da arte televisiva.

Ana Claudia Zuanella - 
Psicanalista - 
Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife - 
Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco - E-mail: 
anazuanella@uol.com.br
Ana Claudia Zuanella - Psicanalista - Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife - Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco - E-mail: anazuanella@uol.com.br

Sempre é tempo de refletir

 

Quer imprimir ou arquivar? Clique aqui

 

Antigamente as estórias da vida - que em muito se assemelham às histórias de nossas vidas -, as fábulas do cotidiano eram representadas nos grandes clássicos, sobre os quais ainda hoje se debruçam estudiosos da psique e do comportamento humanos. Édipo Rei, Hamlet, Os Irmãos Karamazov, Odisseia, Anna Karenina são exemplos bem variados no tempo e no espaço que me vêm rapidamente à mente. Há referências que a palavra “clínica”, que deriva do verbo “inclinar-se” com o intuito de ouvir e examinar o paciente, tem também sua origem no ato da plateia inclinar-se para assistir às peças teatrais na Grécia Antiga. Alí se viam representadas as tragédias relacionadas a fatos cotidianos, problemas emocionais, lendas e mitos que tinham a função de reflexão e elaboração do drama particular de cada membro da pólis. Sem dúvida hoje a realidade é bem diferente. O teatro grego nada tem a ver com a maioria das encenações atuais e os clássicos são cada vez menos lidos. É uma pena, é bem verdade. No entanto, surgiu com a televisão uma nova forma de contar estórias que atinge um número muito grande de pessoas e até sem querer nos leva a refletir. São as novelas. Que fique bem claro que não pretendo comparar Sófocles, Shakespeare, Dostoievski, Homero e Tolstói aos autores de novelas, mas quero chamar a atenção para a possibilidade de reflexão que as estórias alheias trazem consigo. No mês passado terminou a novela “Amor à Vida” e no seu capítulo final duas cenas foram marcantes. O “beijo gay” e a última cena inspirada num filme de Luchino Visconti, “Morte em Veneza”. Pai e filho se reconciliam. Pelo que pude acompanhar, a relação entre eles se deteriorou em virtude da repulsa do pai à homossexualidade do filho. Sem pretender tratar da homossexualidade de Félix, pois esse tema é muito mais abrangente e complexo do que muitos gostam de imaginar, o que desejo é fazer pensar sobre as expectativas que os pais colocam nos filhos. Aquilo que não foi realizado pelos genitores em suas próprias vidas, eles esperam que o seja na vida dos filhos e se apropriam dela como se suas fosse. Esses pais pretendem realizar seus sonhos através dos feitos dos filhos, esquecendo-se que o fato de terem dado à luz o filho não os faz donos de sua existência. Como em geral esse tipo de coisa se passa a nível inconsciente a pressão é ainda maior, pois é subliminar, não verbalizada, impossível de ser questionada, já que quase nunca é concretamente expressa. Daí decorre crianças, que se tornarão adultos, frustrados, sofridos, revoltados, mesquinhos ou crueis, uns Félix da vida. Aceitar nossas limitações é o que nos faz crescer, nos torna mais saudáveis e inteiros. Os pais precisam aceitar seus impedimentos sem tentar contorná-los na geração seguinte. Essa é a maneira de ensinar os filhos a suportar suas próprias faltas, das quais ninguém escapa. Viver na ilusão seria ótimo, se não fosse... ilusório. Infelizmente na vida real não temos um Walcyr Carrasco para, de repente, mudar o rumo da história e acertar todos os ponteiros. Então o que nos resta a fazer é reeditarmos nós mesmos nossas cenas, revermos nossos diálogos, reelaborarmos novos enredos e novos finais. Como é um trabalho muito pesado, e, possivelmente já tentamos fazer sozinhos sem funcionar muito bem, pedimos a ajuda de um assistente, alguém que ouvirá nossa história, pontuará nossos diálogos, facilitará a escrita quando der branco, verá detalhes que nos passaram desapercebidos. Ele não escreverá a história para nós, mas estará lá para ajudar-nos a elaborá-la, ajudar-nos a ouvir a nós mesmos e refletir, recordando, repetindo e elaborando. Nas novelas chamam a este assistente de co-autor. Na vida real ele é mais conhecido como analista e esse processo como Psicanálise.

 

 

 

Ana Cláudia Zuanella

Psicanalista

Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife

Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco

anazuanella@uol.com.br

data de publicação: 05/03/2014

 

 

0 comentário(s) | Envie seu comentário
Envie seu comentário
Seu nome *

Seu e-mail *
Seu comentário *
Comentário(s)
 

Leia também

A garotinha que conheceu o mar 04/05/2017

A partir de cenas do cotidiano, Ana Rita Menezes se aproxima do pensamento de Bion

Ponyo e o olhar psicanalítico pela janela da amizade 28/03/2017

O filme Ponyo será discutido durante o projeto Psicanálise & Cinema do NPA no dia 30 de Março.

Akira Kurosawa, uma personalidade complexa e nem sempre compreendida 22/02/2017

No dia 23/02, às 19h30 no Auditório do Centro Médico Luiz Cunha, Yusaku Soussumi comenta o filme Madadayo

Em defesa de uma confiabilidade ambiental mínima 07/02/2017

Fábio Brodacz reflete sobre a exposição infantil em tempos de compartilhamentos constantes

Um herói, por favor! 16/12/2016

A psicanalista Idete Zimerman Bizzi questiona os simulacros que povoam o mundo virtual

Prematuridade e algumas nuances 24/11/2016

Denise Alencar fala sobre os desafios de uma gestação prematura
Página anterior Voltar
Topo Topo
 
 
Google+