Em 28/02/2014
 

A fugacidade das relações e as dificuldades de criar vínculos

Relações líquidas em uma sociedade do narcisismo é o tema do trabalho desenvolvido por Ana Claudia Zuanella. É um trabalho que fala de amor e de desamor a si mesmo e aos outros tendo como resultado as relações fugazes atuais. Não se namora, fica-se.

Ana Claudia Zuanella - 
Psicanalista - 
Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife - 
Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco - E-mail: 
anazuanella@uol.com.br
Ana Claudia Zuanella - Psicanalista - Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife - Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco - E-mail: anazuanella@uol.com.br

A fugacidade das relações e as dificuldades de criar vínculos[1]

 

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Há algum tempo ouvimos, seja no consultório ou na vida cotidiana, acerca de um novo tipo de relação entre “casais” que vem sendo cada vez mais freqüente. Refiro-me à troca constante de pares sem que haja maior envolvimento de uma ou ambas as partes, construindo um universo de relações fugazes, sem maiores conseqüências ou durabilidade.

 

Estas são relações nas quais não se estabelece um vínculo. Como diz Berenstein (2003), existe “uma estrutura inconsciente que, ligando dois ou mais sujeitos, instaura entre eles uma relação de presença ao criar um investimento específico que os constitui sujeitos do vínculo”. Ao que tudo indica nestas relações fugazes não há o investimento no outro nem o desenvolvimento de um vínculo que funcione como ligação entre os componentes da dupla.

 

Neste trabalho, pretendo discutir sobre este tipo de relação marcada pela impossibilidade de se criar um vínculo devido à carência do investimento no outro. Para isto tomo como hipótese a existência de um transtorno de ordem narcísica que responde por esta dificuldade. Basearei meus comentários na teoria de Freud e em outros autores pós-freudianos, especialmente André Green e Otto Kernberg.

 

No interessantíssimo livro “Amor Líquido” (2004), o sociólogo Zygmunt Bauman aborda a fragilidade dos laços humanos num mundo moderno, o qual ele chama de líquido exatamente para representar a oposição a “tudo que seja sólido e durável, tudo que não se ajuste ao uso instantâneo”.

 

Neste mundo líquido o vínculo pode parecer falta de liberdade, justo numa sociedade onde não se quer abrir mão de nada, pois todo o prazer ainda parece ser pouco demais. É uma sociedade onde prevalece o consumo; e consumo requer leveza e velocidade, novidade e variedade[2]. Cria-se, então, um tipo de “amor” líquido, se é que se pode chamar isto verdadeiramente de amor. É um tipo de relação que funciona para dar a ilusão de que se tem tudo ao mesmo tempo: a liberdade – de ficar com qualquer pessoa - e o prazer garantido pela presença do outro. Ou com diz Bauman (2004), permite “comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo, desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos”.

 

Nós, a muito custo, e maior maturidade psíquica ainda, aprendemos que para cada ganho há uma perda, e que é preciso abrir mão de determinadas satisfações imediatas em prol do desenvolvimento emocional; no entanto, os novos habitantes do mundo líquido estão plenamente empenhados em subverter, ilusoriamente, esta ordem. Eles buscam um amor líquido que se assemelha, sobretudo a uma descarga pulsional imediata e sem esforços, como se pudessem negar a existência da realidade e seus princípios. Em termos cotidianos, eles parecem buscar predominantemente um envolvimento sexual e nada mais.

 

Não é à toa que se criou o termo “sexo seguro”. Mas seguro de quê? Vejamos um outro significado embutido nesta expressão. Por meio de bem-sucedida A fugacidade das relações e as dificuldades de criar vínculos estratégia de marketing o termo associou-se imediatamente ao uso de preservativo. Assim, o “sexo seguro” passou a ser aquele prevenido pelo uso de camisinha e incentivado mais contundentemente em pessoas que têm relações pouco estáveis. Porém, como salienta Bauman (2004), “o termo não teria tanto sucesso se não atingisse um ponto sensível em milhões de pessoas que desejam que suas explorações sexuais sejam garantidas contra conseqüências indesejáveis (já que incontroláveis)”. Ou seja, a segurança também passou a ser garantida pela proteção de outras coisas além do HIV. O “sexo seguro”, neste caso, passou a ser associado a relações mais fugazes, nas quais se está também protegido do contato afetivo, de todo o envolvimento, investimento e angústia que a sexualidade – e aqui enfatizo o sentido mais psicanalítico do termo – traz inerente.

 

O sexo no sentido apenas genital é muito próximo do instinto ao passo que sexualidade é pulsão, desejo. Algumas pessoas parecem procurar um tipo de investimento sexual o mais perto possível de uma descarga instintiva, caracterizada pela satisfação imediata. Neste caso, o que deveria ser um exercício da sexualidade restringe-se quase exclusivamente à atividade genital. Essas pessoas temem viver a sexualidade no seu sentido pleno, pois nela está presente o investimento, o desejo, e como todo ele, também a frustração e o conflito. Algumas pessoas não têm condições suficientes para suportar tamanho risco e possivelmente tamanha dor.

 

A sexualidade sempre trouxe consigo a marca do conflito, independente da forma como ele se manifeste. Antigamente o peso do recalque recaía na inibição sexual, hoje em dia percebemos sua força na exacerbação e banalização sexual, na sua prática aleatória e muitas vezes desprovida de significado interno. Este tipo de relação retira a significação do outro enquanto sujeito, ele é quase um prolongamento da própria pessoa, e suas necessidades e sentimentos são pouco considerados, ou mesmo negados. É como se a presença do outro representasse uma ameaça tão grande ao equilíbrio interno do sujeito que ele tenta anular a sua existência.

 

Freud (1921) tem uma interessante visão a respeito do “amor”, diz ele que em determinada classe de casos, a do amor sensual comum, ele nada mais é do que “uma catexia de objeto por parte dos instintos sexuais com vistas a uma satisfação diretamente sexual, catexia que, além disso, expira quando se alcançou esse objetivo” (pág. 141). Um pouco mais adiante, ele prossegue salientando que “raramente a situação libidinal permanece tão simples” e que como “é possível calcular com certeza a revivescência da necessidade que acabara de expirar (...) isso deve sem dúvida ter constituído o primeiro motivo para dirigir uma catexia duradoura sobre o objeto sexual e para ‘amá-lo’ também nos intervalos desapaixonados” (pág. 141).

 

Alguns anos antes deste artigo, Freud (1912) escreveu outro cujo subtítulo era “Contribuições a Psicologia do Amor II”. Neste texto ele diferencia duas formas de expressão da pulsão sexual, que caracteriza, conseqüentemente, duas maneiras de se relacionar com o objeto. Uma delas é a corrente afetiva ou terna e a outra, a corrente sensual ou erótica. No primeiro caso a libido é inibida de seu objetivo sexual e se responsabiliza pelos laços duradouros com os outros, ela conserva uma forma de vínculo que fixa o investimento no objeto (Green, 1988); no segundo caso há a descarga da pulsão por meio de sua satisfação direta, o que acarreta na diminuição do interesse pelo outro (Freud, 1921). Esta separação se dá na infância diante da necessidade da criança de lidar com os impulsos dirigidos aos pais que caracterizam o Complexo de Édipo. A manutenção deste investimento terno pode ser a melhor maneira de desviar o temor da castração. Mais tarde, após a latência e a resolução da situação edípica, o esperado é que as duas formas se unam para se dirigirem integralmente ao objeto, este agora passível de um investimento libidinal simultâneo erótico e terno, sem que haja maiores danos para a economia psíquica.

Ao que me parece, no caso das relações fugazes, este investimento mais duradouro não ocorre em direção ao objeto, e a catexia se esvai por completo após a satisfação sexual, não restando nada mais que mantenha o laço com o outro. É possível pensar que não existe uma quantidade suficiente de libido objetal que possa ser dirigida para fora, em decorrência do acúmulo da libido narcísica.

 

Chasseguet-Smirgel (1992) abordando o tema do amor nos adverte de que “se é impossível falar do Édipo sem falar do amor, não se pode tampouco, falar do amor sem evocar o Édipo”. Parece-me que em determinadas circunstâncias, a situação edípica não pôde ter uma resolução minimamente bem feita, e em decorrência disto, a separação entre os dois tipos de afetos – sensual e terno - teve de ser perpetuada em prol das defesas contra a angústia de castração e a manutenção, mesmo que precária, da economia psíquica. Neste caso o indivíduo não consegue dirigir sentimentos eróticos e ternos para a mesma pessoa, sob pena da deflagração de intensa angústia. Portanto eles não conseguem estabelecer um vínculo com aqueles que são objeto de desejo erótico e como enfatiza André Green (1988), são justamente “as pulsões inibidas no seu fim aquelas que devem ser, sobretudo, caracterizadas por seu vínculo com o objeto”.

 

Acredito que, além de uma angústia de castração, podemos falar aqui de outra, mais primitiva, que é a angústia de desintegração, uma angústia ligada mais estreitamente ao narcisismo. Laplanche (1988) fala deste tipo de angústia no seu livro sobre “Castração” quando aponta para o fato que o problema do narcisismo permite estabelecer uma relação com a questão da angústia de castração à medida que sempre se trata de uma angústia do ego e esta está ligada a uma ameaça para a integridade narcísica, uma ameaça para uma desestruturação possível. Em determinados casos, de uma ferida narcísica mais séria, o afluxo energético demasiado intenso, ou uma descarga muito grande coloca em perigo o nível de energia que mantém a forma narcísica. Ou seja, a presença do outro, e das trocas com ele, são sentidas como constantemente ameaçadoras para o ego do próprio sujeito, que teme se esvair por completo ao dirigir seu investimento para o mundo externo. O objeto, mais do que meio de descarga, passa a ser fonte de angústia.

 

O narcisismo é “o cimento que mantém a unidade constituída do Ego e que reuniu seus componentes para adquirir uma unidade formal tão preciosa ao sentimento de sua existência quanto o sentido pelo qual ele se apreende como ser” (Green, 1988). O investimento no próprio ego, que caracteriza o narcisimo, dá ao ser humano a sensação de unidade.

 

Tomando como base a teoria de André Green (1988) podemos dizer que “o narcisismo é o apagamento da marca do Outro no desejo do Um”. Os narcisistas não têm outro objeto de amor além deles mesmos, são pessoas feridas, de fato carentes do ponto de visa do narcisismo. A libido investe o ego e dá a si mesma um objeto de amor, desta forma ela tenta prescindir do objeto; “o narcisismo furta do objeto seus investimentos”. O inimigo do narcisimo é a realidade do objeto ou o objeto da realidade e a sua função na economia do ego. No que se refere à economia narcísica, o objeto entra em conflito com o ego, pois o desejo pelo outro descentra o sujeito; a busca da satisfação por meio do objeto, do objeto que falta, desperta no sujeito a sensação de que seu centro não está em si, mas num objeto do qual ele está separado e ao qual tenta se juntar para reconstruir sua identidade. Por meio da sexualização do ego é possível transformar o desejo pelo objeto em desejo pelo ego. Desta forma espera-se A fugacidade das relações e as dificuldades de criar vínculos contornar o mal-estar despertado pelo desejo (Green, 1988). À medida que se deseja o próprio ego, a separação entre pulsão e objeto estará anulada. Mas ao mesmo tempo cria-se uma situação de entropia num sistema fechado de energia onde não há trocas. Pela impossibilidade de suportar perdas e separações o indivíduo vive num processo ilusório (mais, ou menos grave de acordo com a extensão de sua patologia narcísica) onde a presença do outro e das trocas afetivas parecem prescindíveis.

 

Aquelas pessoas que não têm condições internas de suportar a dor da separação, tampouco podem usufruir o prazer da presença, pois esta, invariavelmente, evoca uma falta. Françoise Dolto (1996) aborda a questão da inter-relação entre a relação amorosa e a experiência da separação da seguinte maneira: “Se nunca nos tivéssemos separado, no tempo e no espaço, daqueles com quem sentimos o prazer de estar juntos, não saberíamos o que é amar. Amar é esse movimento do coração para a imagem do ausente a fim de aliviar em nós mesmos a dor de sua ausência” (pág.153). Ela, inclusive, enfatiza o papel da mãe como pessoa essencial na origem de todas as relações, a qual deverá ser uma presença tranqüilizadora para a criança suportar as demais separações. Penso que quem não pôde construir uma relação de confiança básica com uma figura essencial no início de sua constituição, possivelmente não conseguirá se constituir de maneira mais sólida para passar, de forma saudável, de um estágio narcísico para o investimento num objeto externo.

 

O narcisismo permite ao sujeito sedimentar seu ego numa unidade, ao invés de partes fragmentadas, e organizar os investimentos pulsionais em torno desta nova unidade formada. Esta catexia voltada para o próprio eu permite ao sujeito desenvolver o suficiente sua auto-estima para suportar a dor da não-satisfação de todos seus desejos. Este amor-próprio suficientemente bem instalado fornece condições para a criança lidar com a desilusão da perda de sua onipotência infantil e descobrir uma outra realidade menos voltada para si, estando de certa forma amparada internamente para tanto. O investimento narcísico facilita esta passagem. O objeto externo passa a ser percebido e investido, inclusive através da fantasia. A fantasia possibilita investir no objeto mesmo quando ele não está presente, ela permite suportar sua ausência, e quando bem dosada, permite criar um laço saudável com o mesmo. Penso que seja a isso que Dolto se refere na frase acima. O advento do fantasiar é intermediado pela experiência da falta. Caso haja uma experiência suportável da falta, o objeto será percebido como aquele que permite pôr fim ao desconforto gerado por ela e pelo decorrente acúmulo da pulsão. A busca do objeto – com todos os conflitos inerentes - será o caminho natural para a descarga pulsional.

 

No entanto, caso a pessoa tenha tido sérias dificuldades no estágio narcísico, caso ela não tenha conseguido realizar de uma forma bem-sucedida esse investimento no próprio eu, a presença do objeto será um transtorno. Afinal, a visão inicial da onipotência infantil, esta visão ideal de si – a de um ego ideal – é rompida pelo desejo objetal. Segundo André Green (1988) o objeto nunca é tão presente quanto na ausência onde vem nos faltar. Ele é a procura dos desejos do id na falta de algo para satisfazê-lo, portanto é gerador de tensões libidinais, necessariamente contraditórias, de amor e ódio. André Green o denomina objeto–trauma, pois ele representa uma ameaça para o ego, na medida em que força o ego a modificar seu regime pela sua simples existência. O objeto não é fixo nem permanente, ele é aleatório no tempo e no espaço, ele muda de humor, de estado, de desejo, e, portanto, força o ego a um trabalho de ajustamento considerável. Por fim, o objeto tem seus desejos próprios, que apenas parcialmente coincidem com os do ego. Por tudo isso o objeto pode ser percebido pelo sujeito mais como uma ameaça do que uma solução.

 

Ainda segundo Green (1988), se ocorrer uma decepção com o objeto, o ego se vê obrigado a recorrer a um refluxo narcisista, onde encontrará um refúgio precário na auto-idealização. Quando o objeto não cumpre seu papel de continente no conflito com a pressão pulsional, surge uma segunda fonte de conflito, agora com o objeto.

 

No caso de pessoas com uma estrutura narcísica, elas negam qualquer dependência do objeto, seja por traumatismo causado por ausência ou por inadequação; ou para se proteger de um objeto perturbador e invasivo, criando barreiras protetoras. É conseqüência dessa situação o fato dessas pessoas não terem nenhuma confiança no objeto (Ferro, 2005).

 

Acho importante deixar claro que não se trata simplesmente de falar em opção de relação com o objeto. Acredito que estas pessoas não conseguem estabelecer um equilíbrio entre os investimentos dirigidos ao mundo externo e ao próprio ego, por uma impossibilidade interna. Elas não têm opção, elas precisam se defender do objeto. Penso que sejam pessoas para as quais qualquer escoamento a mais da libido se torna perigoso, assim como a presença do outro também representa um risco, já que elas não têm confiança no objeto e, tampouco nelas mesmas.

 

O sujeito narcísico não pode nunca correr o risco de investir plenamente o objeto, “a situação narcísica é corolária ao desinvestimento objetal”, escreve Green (1988). Ele é um sujeito mais independente, porém mais vulnerável.

 

Otto Kernberg (1995) em seu livro sobre Relações Amorosas explica que os casos mais severos de personalidade narcísica não têm a capacidade de se apaixonar, o que é na realidade patognomônico ao narcisismo patológico. E mesmo aqueles que conseguem se apaixonar por curtos períodos de tempo, o fazem de forma bastante diferente dos que têm uma capacidade satisfatória para amar. Ele questiona se é o caso das personalidades narcísicas amarem somente a si mesmas ou, conforme sugere van der Waals (1965), elas, na realidade, amam o objeto tão pouco quanto amam a si mesmas. Parece-me ser este o caso, elas não conseguem amar nem a si próprias, quanto mais o outro.

 

Segundo Kernberg (1995) a situação edípica deixou uma profunda frustração e ressentimento nestas pessoas, cuja ressonância é sentida na agressão que domina e dificulta suas relações amorosas na vida adulta. Nestas relações há o predomínio do ódio ao invés do amor. A excitação sexual é dominada pela inveja em relação ao parceiro, pelo ressentimento devido ao que foi experimentado como uma recusa de gratificações primitivas, e pela esperança de se apropriar do que foi negado no passado e assim poder eliminar seu desejo nesta direção. A inveja é determinada num estágio pré-edípico e consiste numa forma específica de raiva e ressentimento contra o objeto desejado o qual é experimentado como frustrante e ausente. O que é desejado se torna, também, fonte de sofrimento e frustração. Desenvolve-se como reação a este sofrimento uma vontade consciente ou inconsciente de se afastar do objeto ou de destruir, estragar, pegar à força o que está sendo negado, especificamente o que é mais admirado e desejado. No entanto a tragédia da personalidade narcísica consiste no fato que a apropriação intermediada pelo ódio e pela voracidade não leva à satisfação porque o ódio do que é desejado estraga o que é incorporado e o sujeito acaba sempre se sentindo vazio e frustrado.

 

Este ódio experimentado em relação aos primeiros objetos devido às intensas frustrações, pode ter feito com que o objeto fosse vivido como algo que excita, mas nega o prazer. Na vida adulta do homem, estes conflitos serão dirigidos às mulheres e irão favorecer a dissociação entre a corrente afetiva e a A fugacidade das relações e as dificuldades de criar vínculos corrente erótica da pulsão sexual. As mulheres desejadas serão também odiadas e desprezadas. Em casos menos severos ocorre uma constante idealização das mulheres e uma rápida desvalorização delas, resultando numa intensa troca de pares. Em relação à vida adulta das mulheres, devido a fatores culturais, esta promiscuidade sexual não ocorre tão abertamente. Algumas mulheres com dificuldade narcísicas irão procurar um homem ideal, o que as levará a gravitar em torno de homens famosos o tempo todo, desvalorizando-os um a um e partindo sempre para o próximo (Kernberg, 1995).

 

André Green (1988) trata a questão da atividade sexual nas patologias narcísicas como sendo ora vivida como concorrente ao narcisismo, no que concerne ao medo do escoamento da libido pelo investimento no objeto, ora como tendo sentido apenas na medida em que nutre o narcisimo do sujeito: gozar torna-se a prova de uma integridade narcísica preservada. Não gozar é percebido como uma vergonha e o gozo, com sua conseqüente reafirmação da capacidade de anular as tensões via satisfação, converte-se num investimento narcisita do ego. A inveja do objeto alcança seu ápice quando se supõe que este goza sem conflito.

 

Enfim, podemos pensar nestas pessoas com desordem narcísica, como impossibilitadas de estabelecerem uma relação mais duradoura com o outro, elas não criam laços, não constroem vínculos. Para elas há uma impossibilidade interna de investir no outro. Segundo Hugo Mayer (1989), “as pessoas com intensas fixações narcísicas não puderam realizar uma boa elaboração edípica e caracterizam-se por terem em sua vida adulta poucos objetos com os quais se vinculam afetivamente de modo pleno” (pág. 34). Desviar uma quantidade de catexia em direção ao objeto pode significar uma espécie de hemorragia interna para a economia psíquica. E eu me questiono se pessoas com tal dificuldade tenham conseguido sequer fazer uma entrada de modo adequado na triangulação edípica, pois elas não têm condições de dar tamanho valor ao objeto, especialmente os mais primitivos, os quais foram, aparentemente tão frustrantes, intrusivos e possivelmente patológicos. A elaboração da situação edípica, conseqüentemente, se torna impossível. A ligação da corrente afetiva e erótica em direção ao objeto, idem.

 

Muitas das relações fugazes de hoje em dia podem ser atribuídas, a meu ver, a desordens de tal tipo, que ao invés de solidificar seres humanos, os faz “líquidos”. E líquidos serão seus amores e suas relações.

 

Tais dificuldades são ainda mais evidenciadas numa sociedade com um nível muito elevado de cobrança de bem-estar, sucesso e felicidade, colocando as pessoas com problemas de auto-aceitação e amor-próprio num patamar de angústia ainda maior. Chamamos este novo arranjo social de sociedade do narcisismo, onde se pretende, de maneira deslocada, alcançar uma onipotência típica da fase narcísica, com uma auto–suficiência inatingível e uma ilusão de satisfação imediata impossível de ser sustentada. Este tipo de funcionamento social desestabiliza em especial aquelas pessoas que não tiveram a chance de consolidar de forma saudável seu próprio narcisismo constitutivo. A meu ver, devido a projeções no mundo externo, a sociedade, nesses casos, funciona como um superego rígido. Não podemos nos esquecer que o superego, além de ser o responsável pela censura aos desejos, também o é no estabelecimento dos ideais pelos quais o ego será avaliado e comparado. É neste segundo sentido que as demandas sociais atuais se enquadram numa função superegóica cruel. São estes ideais inatingíveis que exercem uma forte pressão nos sujeitos narcísicos e se tornam fonte perene de angústia.

 

Freud (1914) ensina que é necessário sair do narcisimo e “começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração formos incapazes de amar”. Não nos esqueçamos que o narcisismo é premissa do amor: para amar é necessário amar-se, e mais ainda, ter sido amado.

 


Referências Bibliográfica


BAUMAN, Z. (2004). Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

BERENSTEIN, I. (2003). Reflexões sobre uma psicanálise do vínculo. In: Psicanálise Contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

CHASSEGUET-SMIRGEL, J. (1992). O Ideal do Ego. Porto Alegre: Artes Médicas.

DOLTO, F. (1996). Sexualidade Feminina. São Paulo: Martins Fontes.

FERRO, A. (2005). Narcisismo e trauma: a atualidade e a história. In: Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, vol. 7, n° 2.

FREUD, S. (1912). Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (Contribuições à psicologia do amor II). E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XI.

_______ (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XIV.

_______ (1921). Psicologia de grupo e a análise do ego. E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XVIII.

GREEN, A. (1988). Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. São Paulo: Escuta

KERNBERG, O. F. (1995). Love Relations: Normality and Pathology. London: Yale University Press.

LAPLANCHE, J. (1988). Problemáticas II: Castração – Simbolizações. São Paulo: Martins Fontes Editora.

MAYER, H. (1989). Voltar a Freud. Porto Alegre: Artes Médicas.

VAN DER WAALS,H.G. (1965). Problems of narcissism. Bulletin of the Menninger Clinic, n°29.

 

 

Ana Cláudia Zuanella

Psicanalista

Membro Titular e Didata da Sociedade Psicanalítica do Recife

Mestranda em Psicanálise pela Universidade Católica de Pernambuco

anazuanella@uol.com.br

data de publicação: 28/02/2014

 

Leia  também:
 
 
Formas patológicas de amar - Ana Claudia Zuanella
Medo, amor e hemofilia - Petruska Menezes

 

 

 

 

 

 


[1] Trabalho apresentado em mesa-redonda na XI jornada e VII Encontro de Criança e Adolescente da SPR, no período de 31 de agosto a 02 de setembro de 2006 em Recife.

[2] Não acho que seja à toa que se tenha criado a expressão utilizada para as pessoas recém solteiras, dizendo que estão “de volta ao mercado”.

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