Em 31/01/2014
 

Hipóteses sobre o despertar da consciência de si mesmo do indivíduo

O artigo faz especulações a respeito do que é autoconsciência ou consciência de si mesmo através dos estudos baseados na hipótese do Objeto Originário Concreto, teoria desenvolvida pelo psicanalista Armando Ferrari.


Hipóteses sobre o despertar da consciência de si mesmo do indivíduo[1]

 

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Há pouco tempo, atendendo um paciente de 60 anos com muita dificuldade de verbalizar o que sentia, ele me disse o seguinte: “Eu passei a vida toda me sentindo preso. É uma sensação constante de estar na beira de um imenso abismo, com as mãos amarradas, sentindo-me todo amarrado, e prestes e ser jogado, a me jogar”. É interessante observar que ele conseguiu definir o que acontece com muitas pessoas ao longo de suas vidas, sem que elas  se deem conta disso.

 

Muitas vezes, prendemo-nos, amarramo-nos, impomos a nós mesmos limites e regras  que tolhem o nosso viver. Vivemos buscando certezas que julgamos ser verdades e prendemo-nos a essas crenças como se o nosso mundo dependesse disso e, assim, vamos perdendo  nossa liberdade de ousar viver. Como entender essa prisão mental? E como sair dela? Construir especulações sobre isso é o objetivo principal do presente trabalho.

 

Quando uma criança nasce, inicia seu processo de conhecer, sua investigação do mundo e, nesse processo, ela utiliza padrões que possam lhe fornecer referências. Através da observação, ela busca, no outro, possibilidades de SER. Ao mesmo tempo em que isso ocorre ou, talvez, anteriormente a isso, a criança procura estabelecer um contato consigo, com seu corpo, suas sensações. A percepção de si e do outro vai construindo o novo ser que chegou ao mundo. Essas experiências são únicas e, portanto, ninguém pode ser igual a ninguém. Cada um possui a sua identidade.

 

 

A identidade é a exclusão da diferença

 

 

A palavra identidade vem do latim idem e pode ser entendida como “mesmidade”ou aquilo que permanece o mesmo. Para entender o significado de “permanecer o mesmo”, usamos como parâmetro aquilo que entendemos como mutável, diferente. Assim, identidade é a possibilidade de encontrar algo que seja comum e diferente de outros. Daí poder-se dizer que “a identidade é a exclusão da diferença”, é ser único na multiplicidade, conforme assevera Stella (2000, p. 247).

 

A compreensão da identidade se dá sempre em relação a algo. A criança, ao construir sua identidade, vai se descobrindo em relação ao mundo, e esse processo continua até a morte. E, todo o tempo, passa a identificar o que “sou eu” e a diferenciar-se do que “não sou”. O não-eu, para a Psicanálise, é o objeto.

 

Esse processo de percepção é o início do processo de tomada de consciência. Também pela utilização do modelo de construção pela relação, a consciência, mesmo fazendo parte do inconsciente, diferencia-se dele pela característica de perceber a si e ao mundo.

 

Na hipótese desenvolvida por Ferrari (1995), o primeiro objeto do psiquismo é o próprio corpo. Ele estimula o desenvolvimento de uma mente que possa conter, entender, compreender e, até onde for possível, lidar com as diversas sensações[2]. Essa mente e suas relações são chamadas de Binário[3]. O Binário, a mente e suas funções passam a funcionar em relação aos outros. As sensações corporais que causam angústia são observadas e acolhidas por outro – a mãe ou outro indivíduo –, um segundo que é o objeto de contato da criança (é importante lembrar que o primeiro objeto da mente é o corpo).

 

Essa primeira pessoa que entra em contato com o bebê recebe essa angústia, essas sensações incômodas, compreende-as e devolve-as, dando a atenção e o acolhimento necessário. Esse acolhimento das sensações sem nome vai ensinando o bebê a compreender também o que está percebendo, sentindo. Esse processo lhe permite repetir isso consigo mesmo, no seu movimento de compreensão de si, ou seja, compreender seu corpo e sua mente (que aqui se apresentam separados somente com o propósito de explicá-los).

 

 Ferrari (1995; 2000) nomeou o processo de interagir consigo de verticalidade ou coordenada vertical[4]; e o movimento de interagir com os outros (objetos externos)[5] de horizontalidade ou coordenada horizontal . Esses processos geram o espaço mental, que é o que podemos chamar de identidade ou, nos termos de Ferrari, configuração egoica[6].

 

Investigando essas relações, Ferrari irá chamar o objeto primeiro de relação do indivíduo – o corpo e suas sensações, emoções e seu simbolismo psíquico –, de Objeto Originário Concreto (OOC). É um objeto para a mente, que o representa para o indivíduo. Ferrari (1995, p. 31) define: “[...] chamamos de objeto e de concreto, porque é o único objeto concreto que sentimos como pertencente à percepção global de nós mesmos no mundo.” É “originário” por ser o primeiro.

 

Pois bem, o ser humano nasce e encontra a possibilidade de desenvolver-se por meio de seu interior e das relações que faz com o exterior. Suas relações interiores são chamadas de coordenada vertical, enquanto que as relações com o meio são chamadas de coordenada horizontal. A dinâmica, a interação entre essas duas coordenadas, que ocorrem ao mesmo tempo, vão constituindo um conjunto de experiências e sentimentos únicos que cria a identidade ou configuração egoica. Na construção e desenvolvimento do ser, o Uno (corpo e sensações) está junto ao Binário (mente e sensações em potencial). Com o desenvolvimento da capacidade de pensar, o ser humano passa a representar e a simbolizar aquilo que sente e, assim, pode compreender, acolher e suportar melhor os impulsos da vida. Ferrari diz que, quando a mente é capaz de se colocar sobre o corpo de forma a lidar em outra instância com o que emerge, o OOC é eclipsado. Ou seja, os impulsos corporais são filtrados pela mente e as sensações podem ser suportadas, toleradas. O eclipse do OOC dá ao indivíduo a possibilidade de suportar o sofrimento, melhorando e aperfeiçoando sua capacidade de viver.

 

Essa possibilidade de pensar através das construções feitas pelas coordenadas, vertical e horizontal, abre espaço para a consciência. Isso é diferente de criá-la, pois não se trata disso, e sim de expandi-la. Um exemplo relevante de como isso pode ser entendido é a seguinte analogia: nosso ouvido tem a capacidade de ouvir somente certas ondas sonoras e, se elas chegarem numa vibração maior do que essa capacidade, não conseguiremos ouvi-las; se vierem numa vibração menor, também não as ouviremos. É como se nosso corpo emitisse todos os tipos de vibrações sonoras e nós só conseguíssemos ouvi-las quando emitidas na frequência que o ouvido humano pode ouvir. Com o eclipse do corpo através do trabalho psíquico da mente, esta filtraria essas vibrações sonoras de forma a transformá-las em uma melodia possível de ser sentida, ouvida para, desse modo, se poder ouvir as vibrações filtradas pela mente, tentar compreendê-las e lidar melhor com elas.

 

Nessa comparação, digamos que a parte que não pode ser ouvida, mas existente, presente e atuante, é o inconsciente. E a parte ouvida é o consciente. O inconsciente existe numa vibração que mesmo todo o aparato mental existente não conseguirá representar, simbolizar. Mas, quanto maior esse aparato, maior é a possibilidade de compreender mais frequências sonoras.

 

 

Percepção e consciência

 

 

Para Stella (2000, p. 269),“nenhum conhecimento apreende a verdadeira realidade, embora não possa não pôr-se em virtude dessa intenção”. No processo do conhecer humano, um fato é real: nunca conseguiremos nos conhecer e conhecer a realidade por inteiro. Isso ocorre por dois principais motivos: primeiro, porque nosso aparelho perceptivo é limitado e nunca apreende a realidade por inteiro, e aquilo que é percebido sofre a influência do mundo psíquico e, consequentemente, das fantasias; segundo, porque, como dito antes, o mundo psíquico também fornece dados e informações sobre si, estimulado por impulsos orgânicos – físicos – e pulsões, que também irão estimular as fantasias conscientes e inconscientes. Por isso, pela contínua estimulação interna e externa, não é possível afirmar que existe um fim no processo de autoconhecimento.

 

Observando o mundo interno, Freud propõe que “o inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão des-conhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pela comunicação de nossos órgãos sensoriais” (FREUD, 1900, p. 637 apud FERREIRA-LEMOS, 2011, p. 62). Segal (1993, p. 41) acrescenta:

 

 

A personalidade cresce, amadurece e se desenvolve. O crescimento e a evolução de um indivíduo devem-se não apenas ao crescimento fisiológico e à maturação do aparelho perceptual – memória etc. –, mas também à experiência acumulada e ao aprender com a realidade. Esse aprender com a realidade, por sua vez, está associado à evolução e às mudanças na vida de fantasia. As fantasias evoluem. Há uma luta constante entre as fantasias onipotentes do bebê e o encontro de realidades boas e más.

 

Já o nosso corpo também possui as limitações de percepção e interação com o mundo externo, com o ambiente. Nossos órgãos dos sentidos possuem limite de alcance e processamento das informações externas, e o cérebro precisa organizar o que deve ser enfatizado ou não. Após – ou conjuntamente a – isso, essas informações vão sofrendo as influências do mundo psíquico. “O corpo é um componente do real enquanto no tempo presente e fator limitador. O corpo traz os dados de tempo e espaço ao ser humano. Ele delimita suas ações e desejos. Além disso, o corpo tem limitações em absorver a própria realidade, pois a percepção é frágil e nunca completa” (MENEZES, 2011, p. 3).

 

Alonso-Fernández (1976), citado por Cheniaux Jr. (2008, p. 27), afirma que a percepção “[...] é um fenômeno ativo, psíquico, central e subjetivo”. Ele também diz que isso resulta de impressões sensoriais parciais e da associação destas às representações. Ou seja, nosso aparelho perceptivo necessita da capacidade de integração e da imaginação para construir o que chamamos de realidade.

 

Cheniaux Jr. acrescenta que cada célula que funciona como um receptor sensorial em contato com o mundo externo só é sensível a um tipo de estímulo. Por exemplo, células oculares captam a luminosidade, mas não podem captar sons. Todas as formas de energia que chegam ao receptor são convertidas em energia eletroquímica (transdução do estímulo) e depois há a codificação neural. Simplificando esse sistema, as informações vão para o tálamo e depois para o córtex. O tálamo funciona como uma espécie de filtro para dar maior acuidade às informações sensoriais. Cabe ao córtex e a outras áreas cerebrais dar sentido às informações recebidas integrando-as, pois cada informação passa por áreas cerebrais diferentes. As informações receptivas também utilizam as representações mentais como meio de compreensão dos estímulos. A atenção seletiva, a motivação e as emoções influenciam o processo de conhecimento perceptivo, selecionando o que é importante e descartando aquilo que julga não ser necessário (CHENIAUX JR., 2008, p. 33).

 

Concluímos, então, que o estímulo externo passa por um primeiro filtro nos órgãos dos sentidos; por um segundo filtro, no cérebro (que não pode confundido com mente); e por um terceiro, o mundo psíquico. Já o mundo psíquico sofre as influências dos estímulos externos e dos seus próprios, compostos por fantasias e pensamentos, pelo funcionamento da consciência e do inconsciente.

 

Pode parecer confuso, mas vamos pensar um pouco mais: assistindo ao noticiário, algumas vezes aparecem reportagens contando que, depois de muitos anos na prisão, um indivíduo é solto, tendo sido acusado injustamente por uma vítima que o reconheceu e afirmou ter testemunhado o crime cometido por ele. Com o avanço da ciência ou com o transcorrer do tempo, outros indícios ou provas surgem comprovando que o preso, até então dito culpado, não cometeu o crime. Então, o que aconteceu? Podemos especular que a vítima teve sua percepção alterada por sentimentos internos de medo, dor, raiva, frustração, ódio e, através de suas fantasias, modificou a realidade presenciada por ela. Assim, “confundiu-se” sobre quem deveria pagar pelo ocorrido, acusando alguém por sua projeção de um culpado.

 

Esse é um exemplo interessante, porque tem consequências sérias para os envolvidos, mas há outras situações semelhantes que ocorrem todo o tempo. Nossa percepção é incompleta, e o mundo psíquico busca completar as falhas do seu jeito.

 

Essas interações são feitas continuamente e nem sempre percebidas ou conscientes. Voltando ao nosso estudo de relação, dois pontos, como interno e externo, são extremos inalcançáveis, já que o que se constrói se dá através da relação entre os dois. Lembremo-nos de que a identidade ou configuração egoica se dá através da relação entre o conjunto daquilo que me torna uma unidade e aquilo que é diferente a mim. A construção do pensar e da consciência também ocorre nesse mesmo modelo, pela interação, pela relação.

 

Consciência e inconsciente

 

Stella (2000) afirma que existe uma parte do inconsciente que é incognoscível, ou seja, não pode ser conhecida, entendida, representada, simbolizada. É essa parte do inconsciente que permite que ele continue diferenciando-se, enquanto estrutura, da consciência, pois, se todo o conteúdo inconsciente pudesse vir à consciência, deixaria de existir o inconsciente[7].

Entretanto, outro pensamento aparece. Enquanto estruturas, a consciência e o inconsciente vivem em relação, e isso significa que ambos trocam, constantemente,  impulsos, pulsões, pensamentos, ideias, sensações. Então, algo que estava reprimido pode vir à consciência e algo que está na consciência pode voltar a ser reprimido. Estamos falando, para sermos didáticos, de movimento, de uma espécie de fisiologia psíquica.

 

E, ainda, quando falamos de consciência, estamos falando de dois pontos: da capacidade de conhecer o que está ao redor, o objeto, o não-eu; e da capacidade de reconhecer a nós mesmos. Podemos ter conhecimento do que está ao nosso redor, do que está nos livros, na vida, no mundo e não termos condições de nos compreender, ou seja, ter consciência daquilo que somos, sentimos e percebemos. Chamamos de autoconsciência essa possibilidade de compreensão de nós mesmos, de descoberta da nossa identidade, da nossa configuração egoica – da expansão daquilo que somos nós em nossa unidade.

 

Mas, se anteriormente foi afirmado que nunca poderemos ter acesso a todo o nosso inconsciente, como pode ser isso? A proposta é que se busque sempre. O importante é sempre a pergunta, e não a resposta. A pergunta amplia a possibilidade de pensar e, consequentemente, de se conhecer. A resposta conclui, fecha, limita, põe um fim[8].

 

Nesse sentido, o processo de autoconhecimento, no sentido que Stella (2000, p. 270) destaca, nunca se extingue:  “Conhecer, em suma, é desvelar o inconsciente, e isso vale para todo conhecer, não só para o conhecimento psicanalítico”.

 

 

Autoconsciência

 

Buscar conhecer-se é ter a intenção de encontrar a verdade. A verdade, tida como saber absoluto, é inalcançável, porque sempre vai depender da compreensão que se tem da realidade e do mundo interno. Se nós não podemos chegar a esses dois extremos, como exposto anteriormente, a verdade é buscada em intenção[9]. Deve-se lembrar que a realidade jamais é apreendida em sua totalidade – quer seja pela limitação dos aparelhos da percepção, quer seja pela intervenção e influência do mundo psíquico – e que jamais o inconsciente poderá ser totalmente trazido à consciência porque parte dele é incognoscível e somente por isso não se torna totalmente consciente.

 

Qual seria então o objetivo da autoconsciência? O sentido de buscar o processo de autoconsciência é permitir maior fluidez entre os sistemas que interagem entre si, promovendo uma expansão da capacidade de lidar com a vida. Quanto maior a capacidade de reconhecer-se enquanto unidade, maior a dinâmica entre as coordenadas vertical e horizontal. Vejamos o que o professor Ferrari acrescenta:

 

 

Parece, pois, que o indivíduo aprende a ser tal, não tanto, e somente, através da autoconsciência, mas antes ainda, e principalmente, através da auto-observação. Na realidade, a auto-observação produz continuamente, e ao mesmo tempo modifica, ‘teorias’ (ou talvez pudéssemos qualificá-las como percepções empíricas) na dimensão vertical, no interior da relação corpo-mente. Em seguida, exprime outras distinções, que irão, desde as várias significações e papéis que as pessoas vão assumir, até a diferenciação entre objetos animados e inanimados. Este processo parte (momento inicial) do que Bion define como pré-concepção. Depois, torna-se conhecimento, mas só no sentido de condição de conhecer (FERRARI, 2000, p. 152-153).

 

O que temos observado aqui é a importância da construção pela interação, pela relação.  A relação também pode ser colocada como um diálogo. O diálogo é o modo como o saber e a verdade mais se aproximam, por seu caráter fluido e pelo fato de posições com hermenêuticas[10] diferentes poderem compartilhar experiências e informações, de forma a construir algo novo a partir do encontro, acrescentando e ampliando as possibilidades para ambos.

 

Quando se perde o diálogo, no funcionamento vertical, no funcionamento horizontal, ou em ambos, temos rigidez ao invés de movimento. E aquilo que deve sempre ser questionado torna-se fixo e passa a ser considerado verdade, ao invés de permanecer a dúvida que constrói. Lembremo-nos de que falamos sobre o fato de que perguntas abrem caminhos, enquanto respostas fecham. Essa absolutização é a razão dos distúrbios, das doenças. Stella resume muito bem esse assunto a seguir:

 

 

Se tivermos em mente o fato, incontestável, de que todo distúrbio psíquico – e não só psíquico – é, fundamentalmente, uma absolutização (ou uma sua consequência), ou seja, ele vale como a assunção de uma ideia – ou de um sistema de ideias –, de um problema, de um modo de ser, de uma lembrança, como se estes pudessem ser abstraídos da rede de remissões, que constitui o ‘psíquico’ tanto em sua estrutura quanto em sua função, e se, além disso, considerarmos o fato de que cada absolutização individual (fixação ideativa) traduz apenas, em formas determinadas, exemplificando-a, a absolutização do eu, o qual perde de vista o sentido de seu ser, porque não é mais capaz de conhecer seus limites; se levarmos em conta isso, então o diálogo não pode deixar de se revelar a única verdadeira forma de terapia, porque só em virtude do diálogo o eu, pondo em jogo a si mesmo e as suas pretensões (os assertos [sic] nos quais a cada vez se identifica), pode recuperar a inegável conscientização do valor transcendental do absoluto (STELLA, 2000, p. 352).

 

Com a absolutização, consequência da diminuição da fluidez entre os sistemas, perde-se, também, a possibilidade da liberdade. O indivíduo passa a funcionar em um sentido mais restrito, tolhendo-se, criando e estabelecendo regras de vida que vão tirando a possibilidade de reagir de forma nova e diferente às demandas pulsionais, instintuais e às intempéries do meio ambiente. Acabam por aumentar o sofrimento e a angústia dele.

 

Somente a possibilidade de voltar a abrir espaço para o não-saber sobre si permite que ele volte a se questionar e, com isso, volte a ampliar suas possibilidades de compreender a si. Instaurar ou reinstaurar o processo de autoconhecimento, buscando a autoconsciência, pode oferecer a possibilidade de suportar melhor o viver.

 

Nessa forma de pensar, então, em um processo analítico, o objetivo é a busca da autoconsciência do analisando através das experiências construídas com o psicanalista. É o diálogo da coordenada horizontal (analista-analisando) que pode possibilitar que o analisando reestabeleça o diálogo consigo mesmo, estabelecendo a fluidez da coordenada vertical e buscando, cada vez mais, a autoconsciência. Esse autoconhecimento só ocorre com a significação do eu, pois a hermenêutica do analista difere da do analisando pelo sistema único que existe em cada um. Então, somente interpretando o que diz o analista é que o analisando inicia seu processo de expansão interior. Após a possibilidade de auto-observação do paciente é que a transferência encontra o seu caráter horizontal, buscando, então, as relações com o mundo[11]. “Não é por acaso que analisar significa liberar os diversos do vínculo que os comprime, e é justamente por essa razão que o analista é um libertador, como indicava originariamente a expressão grega analyter” (STELLA, 2000, p. 336). Stella continua:

 

 

Fim autêntico do diálogo é, pois, o transcender o mundo da doxa, entregando-se àquela intentio veritatis que impõe a cada dialogador voltar-se para si próprio, refletindo, pondo em discussão a assunção acrítica de uma certeza como verdade. [...] Somente quando o eu discute consigo próprio, ele começa efetivamente a dialogar e cria, assim, as condições para evoluir e, portanto, para perseguir seu efetivo interesse. Interesse efetivo não é afirmar seu próprio ponto de vista, reduzindo ao silêncio todo ponto de vista que se mostre diferente, mas é dilatar seu próprio horizonte, indo além dos limites que, a cada vez, conotam a dimensão empírica do eu. [...] Nesta inversão, o eu recupera a si mesmo, e isso se realiza exatamente quando ele abandona a pretensão de conservar-se, aceitando perder-se na verdade. Recuperando a si mesmo, o eu recupera também a relação com seus semelhantes e com o mundo que o cerca, já que deixa de existir o pressuposto de todo conflito: a vontade de controle, a pretensão de possuir algo que deve ser subtraído a alguém (STELLA, 2000, p. 356-357).

 

A vida se constrói a dois. O DNA, no processo de recriação da vida por meiose e mitose, se separa e volta a se unir gerando uma pessoa totalmente diferente dos pais, mas trazendo, de alguma forma, uma memória filogenética. Assim como a vida se multiplica, o aparelho psíquico se renova pela relação de dois, ou mais, na criação de um que transcende ideias, sensações e emoções anteriores. Essa relação se dá pelo diálogo: diálogo consigo e com o meio, com os objetos.

 

 

Considerações finais

 

A autoconsciência, assim, expande as possibilidades de se conhecer através desse diálogo interno e externo. Esse é o objetivo último do desenvolvimento humano e também é o objetivo último de qualquer análise. O paciente citado no início do trabalho foi convidado a um processo de introspecção para poder entender o que acontecia com ele. Aos poucos, ele está começando a se questionar e a desconstruir suas verdades, repensar suas escolhas e compreender e pensar o que sente. Esse paciente, aos poucos, está desatando as cordas mentais que ele mesmo criou. Em outro momento, ele disse o seguinte: “Dra., a senhora não sabe como está me ajudando. Eu nunca parei para pensar sobre mim a vida toda. Achei que tinha que ser assim e ia levando. Mas você me faz umas perguntas sobre mim que eu não tenho resposta e fico pensando. Guardo as perguntas comigo e fico tentando pensar sobre elas entre as sessões. Acho que isso está me ajudando, embora não consiga respondê-las”.

 


[1]Versão original publicada em: CAMPAGNA, Joselane et al. (org.). Construções III: medo e paixão na formação analítica. Campo Grande: Gráfica Mundial, 2013, p. 139 a 156.

[2] Podemos compreender melhor o olhar de Ferrari sobre o corpo e o conceito de Uno desenvolvido por esse autor, com o auxílio do pensamento de Jaspers: “A força do uno nos leva da dispersão a nós mesmos, de modo que eu se torne idêntico a mim mesmo. Por causa da multiplicidade, hoje isto, amanhã aquilo, ocorre em mim uma cisão, pela qual não possuo a continuidade do uno. Graças a isto, minha vida, tomada em sua totalidade, sem plano – dado que, com um plano, se arruinaria, se tornaria racional [no sentido do racionalismo formal] e finita – torna-se uma continuidade, uma unidade, para que eu possa ficar cônscio de que sou em devir, de que não sou idêntico, mas me torno idêntico a mim mesmo. O uno é a origem, e no olhar para ele é buscada sua dimensão na práxis da vida. Por isso o uno é para mim, ao mesmo tempo, o absoluto da transcendência como uma, e em mim o unocomo guia em minha realização histórica. [...] O uno é, pois, infinitamente distante, inacessível, não cognoscível, o fundamento de todo ente, e, ao mesmo tempo, ele é muito próximo, quando sou entregue a mim mesmo em minha liberdade, e chego no caminho do tornar-me-idêntico-a-mim-mesmo” (JASPERS, 1990 apud STELLA, 2000, p. 294).

[3] “O Unoao nascer entra no marasmo provocado pela intensidade das sensações. Esta condição ativa o Binário, cuja função é conter e dar nova ordem ao marasmo sensorial através da dimensão da verticalidade.” (ROMANO; FACCHINI, 2000, p.366)

[4] “É a relação que se estabelece entre o Uno e o Binário e determina a coordenada que, pela interseção com a Horizontal, delineia e delimita a formação do espaço mental. Por meio da vertical, as sensações e emoções se movem da condição entrópica para a possibilidade de expressão, que marca a função precípua da horizontal.” (ROMANO; FACCHINI, 2000, p. 367)

[5] “A coordenada que, inter-seccionando a vertical, delineia e delimita o espaço mental. A horizontal, que não deve ser confundida com a relação, é a expressão do Binário, da temporalidade no estado potencial, bem como da relação com o mundo exterior, que pode dilatar-se até os limites extremos do conhecimento.” (ROMANO; FACCHINI, 2000, p. 363)

[6] “Conceito que indica o profundo sentido de identidade compreendido unicamente no sentido dinâmico, isto é, capaz de expandir-se e restringir-se, em relação a sua maior ou menor capacidade de estruturação, no decorrer das alternas vicissitudes da relação corpo-mente, entre Uno e Binário.” (ROMANO; FACCHINI: 2000, p. 361)

[7] “Permanece, porém, também para Freud, um resíduo incognoscível que impede a dissolução do inconsciente na consciência. Eliminar este resíduo significaria subtrair a própria consciência empírica, a qual, sem referência ao diferente de si, não é ela própria e anula a si própria.” (STELLA, 2000, p. 271)

[8] “Se a resposta é a tentativa de superar o problema, e, portanto, a pergunta, deve-se, porém, observar que a própria resposta configura problema. Com efeito, que sentido tem responder a uma pergunta? Geralmente, assume-se a resposta como extinção da pergunta, de modo que – segundo a perspectiva que se impõe na práxis – o acerto parece valer como ponto de chegada da busca. Mas é exatamente este ‘extinguir’ a pergunta que constitui problema.” (STELLA, 2000, p. 346)

[9] “O sentido transcendental, em que a consciência é unidade de si e do outro, coincide com seu emergir como ato além da dualidade, emergir que é demonstrado como inegável mediante a conscientização da insuficiência para si mesma da própria dualidade: a dualidade só é inteligível enquanto exige a unidade como seu fundamento; mas o fundamento unitário, embora exigido, não pode funcionar como condição legitimadora da dualidade que o exige. Por essa razão, o fundamento não deve ser entendido como o que ratifica a dualidade a subtrair-se para se tornar verdadeira. Em suma, o fundamento não deixa o ‘fundado’ ser, mas lhe impõe uma transformação radical. [...] Do ponto de vista de sua estrutura conceitual, a psique é intenção de verdade, isto é, espírito.” (STELLA, 2000, p. 293)

[10] “O espaço da hermenêutica surge, pois, em virtude da conscientização de que entre o signo e a significação – assumida como fundamento real – não pode existir correspondência imediata e unívoca.” (STELLA, 2000, p.339)

[11] “Inicialmente, o analista estudará principalmente os modos pelos quais o analisando chegou a bloquear a comunicação entre Uno e Binário, e operará no interior de seu sistema, a fim de reativá-la mediante o uso de seu próprio registro de linguagem. No início, o cenário em que se desenvolverá a função da transferência será a dimensão vertical. [...] Sucessivamente, quando o analisando tiver alcançado a capacidade de auto-observação e estiver em condição de ativar autonomamente áreas de sua própria mente, o analista pode deslocar a atenção para a dimensão horizontal (constelação edípica[11], configuração egoica, mundo exterior), no interior da qual a transferência assume a forma em que é mais conhecida.” (FERRARI, 2000, p.35-36)

 

REFERÊNCIAS

 

CHENIAUX JR., Elie. Sensopercepção. In:______. Manual de psicopatologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Cap.7.

FERRARI, Armando. A aurora do pensamento: do teatro edipiano aos registros de linguagem. São Paulo: Editora 34, 2000.

_________. O eclipse do corpo: uma hipótese psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

FERREIRA-LEMOS, Patrícia do Prado.  Navegar é fantasiar: relações virtuais e psicanálise. Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 42, n. 1, p. 59-66, jan./mar. 2011. Disponível em: . Acesso em: 28 out. 2011.

MENEZES, Petruska P. O virtual, o homem e a psicanálise. (Trabalho apresentado no XI Jornada de Psicanálise de Aracaju do Núcleo Psicanalítico de Aracaju, novembro de 2011).

ROMANO, Fausta; FACCHINI, Sandra. Glossário para a Aurora do Pensamento. In: FERRARI, Armando. A aurora do pensamento: do teatro edipiano aos registros de linguagem. São Paulo: Editora 34, 2000, p. 359-367.

SEGAL, Hanna. Sonho, fantasia e arte. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1993.

STELLA, Aldo. Considerações teoréticas. In: FERRARI, Armando. A aurora do pensamento: do teatro edipiano aos registros de linguagem. São Paulo: Editora 34, 2000, p. 247-358.

 

 

RESUMO: O presente trabalho procura entender o que é autoconsciência ou consciência sobre si mesmo através dos estudos baseados na hipótese do Objeto Originário Concreto, teoria desenvolvida pelo psicanalista Armando Ferrari. O estudo começa buscando entender o que é identidade ou configuração egoica e os conceitos de Ferrari sobre o funcionamento psíquico. Ao final, procura compreender como ocorre a consciência e sua percepção sobre si, enfatizando as relações sistêmicas como construtoras do diálogo que gera a liberdade, a intenção de verdade e a melhoria das possibilidades de adaptação à vida. A metodologia aplicada foi a de estudo de caso, com apoio do referencial teórico pertinente ao tema.

 

Palavras-chave: consciência de si mesmo, diálogo, Psicanálise, Objeto Originário Concreto.

 

 

Petruska Passos Menezes

Psicóloga 19/0636

Psicanalista em Formação pelo NPA/SPRPE

petruska@ymail.com

data de publicação: 31/01/2014

 

 

 

 

 

 

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