Em 10/12/2013
 

Conversa com um Querubim: O adeus a Madiba

No Psicanálise e Quotidiano desta semana Adalberto Goulart faz uma linda e delicada homenagem à Nelson Mandela


Conversa com um Querubim:

O adeus a Madiba

 

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“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”, nos diz Drummond no “Poema de Sete Faces”.

 

“Quando nasci veio um anjo safado, o chato dum querubim e decretou que eu tava predestinado a ser errado assim”, canta Chico Buarque em “Até o Fim”.

 

“Quando eu nasci um anjo louco muito louco veio ler a minha mão... me disse com um sorriso entre os dentes/vai bicho desafinar o coro dos contentes”, escreve Torquato Neto em “Let’s play that”.

 

“Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira”, quem nos fala é Adélia Prado em “Com licença poética”.

 

Todo mundo tem um anjo. Os religiosos, os esotéricos, os poetas e toda gente. Pois bem, eu também tenho o meu anjo e quando nasci o meu Gabriel disse-me assim: “Vai Adalberto! Faça a sua estreia, inaugure esta vida! E seja o que Deus quiser!”

 

Olhei bem para aquele querubim de cabelos encaracolados e disse: “Como assim? Não vai dizer para eu ser gauche, errado, desafinado, carregar bandeira, nada?”

 

Ora, um anjo dizendo “Seja o que Deus quiser!” Teria sido melhor não ter dito coisa alguma. Convenhamos, se um anjo não disser o que Deus quiser vai dizer o que? Que grande novidade na estreia, isso eu já sabia!, tentei provoca-lo. Não adiantou. Olhou para mim e fez “Hum Hum...”

 

Hum hum, hum hum... Não sabe dizer outra coisa? Ele sorriu com aquele ar angelical. Vai ao menos ficar no meu ombro para me proteger das intempéries?, arrisquei. E ele retrucou que não era papagaio de pirata, era anjo.

 

Tá bom, tá bom, lá vou eu.

 

E lá fui eu. Desisti do anjo, não sem antes lançar uma última provocação, daquelas que a gente fala baixinho, mas com intenção de que o outro escute: Anjo sádico...

 

Ele ouviu e sorriu. Piscou o olho esquerdo e se foi.

 

“Seja o que Deus quiser...” fiquei pensando. Com perdão pelo trocadilho ao contrário, indaguei para mim mesmo: Que diabos quer dizer “Seja o que Deus quiser...” O que quer Deus? Pensei que o querubim responderia: “Só Deus sabe...”

 

Já tá inaugurada, já fiz minha estreia me desentendendo com um anjo. Bela estreia, pensei. Já foi. Tropecei daqui, tropecei dali e aprendi que precisaria aprender. Tudo. Tudo? Quase tudo. Trazia já muita coisa sobre a história do universo, desde a poeira de estrelas até a minha estreia, impressa em meu DNA. Mas logo iria esquecer para depois passar a vida tentando lembrar e reaprender o que já não sabia que sabia.

 

Não demorei a compreender o que o anjo me dizia: a vida é sempre uma estreia. A cada dia, a cada momento. Sempre. Nunca é possível saber o que acontecerá, o passado simplesmente passou, não retorna jamais. E se a suspeita é de que o passado é o que se presentifica, ora, então não é passado, é presente. Claro que a experiência adquirida conta e muito. O dia seguinte nada mais é do que o que construímos no dia anterior mais o desconhecido. Mas sempre no aqui e agora do tempo presente, quaisquer que sejam as circunstâncias. Assim, cada instante é uma estreia, quando se descortina o desconhecido.

 

O que importa é suportar não saber para que a estreia de cada instante seja de fato verdadeira e única como é. O nascimento de cada instante, diria o anjo. Tudo o que existe, sempre, consiste neste instante. Este instante em que escrevo é tudo. E tem consequências muito importantes. Pensar no passado ou no futuro nos tira a possibilidade do presente que é a única, de fato, a existir. Em outras palavras, se não vivermos o presente, refugiados no passado ou projetados para o futuro, não vamos viver coisa alguma.

 

E, a meu ver, este é um dos maiores ensinamentos deixados pelo Pimpinela Negro, como a imprensa o chamava, ou Madiba como era carinhosamente conhecido por seus amigos e por seu povo. Neste cinco de dezembro de 2013, Nelson Rolihlahla Mandela nos deixou, a todos, um pouco mais órfãos. Aos 95 anos, faleceu em Johanesburgo o líder africano que lutou pela igualdade racial, com o final do regime do apartheid e pela independência do seu povo. Pelo espírito rebelde, revolucionário e humanista, Madiba recebeu a sentença de prisão perpétua em 11 de junho de 1964, tendo ocupado a cela 46664, de 2,5 por 2,1 metros e uma janela de 30 centímetros. Permaneceu preso até 11 de fevereiro de 1990, durante 26 anos. Em julho de 1991 foi eleito presidente sul-africano, instaurando a democracia como o primeiro governante negro, com o objetivo maior de reconciliar oprimidos e opressores, uns com os outros e consigo mesmos.

 

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar é preciso aprender. E se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar”, nos disse em uma de suas falas, nos mostrando o poder libertador do perdão.

 

Em 1993 foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, juntamente com Frederik de Klerk (último presidente branco da África do Sul). Na ocasião, dissera Nelson Mandela: "O valor deste prêmio que dividimos será e deve ser medido pela alegre paz que triunfamos, porque a humanidade comum que une negros e brancos em uma só raça humana teria dito a cada um de nós que devemos viver como as crianças do paraíso" e homenageou Frederik de Klerk com as palavras “...teve a coragem de admitir que um terrível mal tinha sido feito para o nosso país e nosso povo com a imposição do sistema apartheid”.

 

Ódio, mágoas e ressentimentos substituídos pelo perdão, pela harmonia e pela paz entre os homens e destes para com a natureza. Assim Madiba acreditava ser possível construir um mundo melhor para os nossos descendentes, em que cada dia traz o aprendizado do passado num presente único que contribui para a construção do amanhã, como já me ensinava o meu anjo inaugural.

 

"A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade” (Mandela, 1996).

 

Tá dado o recado. O meu e o do anjo.

 

 

 

Adalberto Goulart

 Membro Efetivo e Analista Didata IPA -   NPA/SPRPE

adalbertogoulart@uol.com.br

data de publicação: 10/12/2013

 

 

 

 

Perfil do Dr. Adalberto Goulart

 

 

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