Em 06/12/2013
 

Sexualidade, Sonho e Inconsciente

O autor faz uma revisão dos fundamentais conceitos de sexualidade, sonho e inconsciente, em psicanálise, tecendo interconexões com os achados mais recentes das pesquisas neurocientíficas.


Sexualidade, Sonho e Inconsciente[1]

 

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A descoberta de que muitos dos chamados traumas advinham de fantasias marca a decepção sofrida por Freud em relação à sua Neurótica, comunicada em carta à Fliess de 21 de setembro de 1897 (carta 69), data em que alguns consideram como correspondendo ao nascimento da Psicanálise, conjuntamente com o abandono da Teoria da Sedução, que supunha a existência de traumas sexuais concretos para explicar a etiologia das neuroses.

 

A partir de então, o estímulo endógeno passou a ocupar o centro de suas atenções e recebeu o nome de Trieb, traduzido do alemão para o português como pulsão. Assim a psicanálise passa a conceber um aparelho mental com origem na fonte biológica endógena (Trieb) – ponto de interseção entre o orgânico e o mental, “conceito na fronteira entre o mental e o somático, como um representante dos estímulos gerados no interior do organismo que atingem a mente” – como uma estrutura, um modelo de funcionamento e um órgão senso-perceptivo, a Consciência.

 

O termo "pulsão" (Trieb) aparece em Freud, pela primeira vez, no Projeto para uma psicologia científica (Projeto de uma psicologia para neurólogos), de 1895 (e não em 1905, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, como afirmam Laplanche e Pontalis, 1967/1970, p. 507). No "Projeto", Freud propõe a idéia de que o sistema psi estaria exposto a quantidades de excitação provenientes do interior do corpo (os estímulos endógenos) e nisto se encontraria a mola pulsional [Triebfeder] do mecanismo psíquico. A vontade, diz ele, seria o derivado das pulsões.

 

Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, partindo da análise das inversões e das perversões, Freud (1905/1953) mostra como o objeto da pulsão sexual é contingente e como seus alvos são variados. Aqui, tal qual no Projeto, supõe que um tipo específico de excitação surgiria dos órgãos somáticos (zonas erógenas), a excitação sexual. A pulsão sexual, portanto, se compõe de várias pulsões parciais. Estas se definem por suas fontes e seus alvos e incluem, notadamente, as pulsões oral, anal e fálica, mas também a pulsão escopofílica e a pulsão sádica.

 

A pulsão nunca poderá ser objeto da consciência e mesmo no inconsciente só poderá ser representado por uma idéia ou um representante, dizia Freud. Tem o papel de ser a chama propulsora da vida em todos os seres vivos, um estímulo sobre a mente, derivado de uma necessidade que a obriga a trabalhar para fazer cessar ou diminuir a excitação mediante uma ação organizada sobre o mundo externo, não seria, portanto, apenas uma descarga fisiológica. É observada no ser humano através de suas representações psíquicas. O núcleo da mente seria então formado pelos representantes da pulsão, quota de afeto e representação ou idéia, que darão origem ao afeto e ao pensamento. Assim temos que a pulsão, sendo endossomática, começa a fundar o psiquismo através do registro de suas representações, que poderemos chamar de quotas de afeto. O afetl, por sua vez, corresponde à descarga dessa excitação, como uma tradução subjetiva da quantidade de energia pulsional (Laplanche e Pontalis, 1997). O registro mnêmico dessa descarga afetiva relaciona-se à série prazer/desprazer e dá origem à representação, que futuramente poderá se desenvolver em fantasia e pensamento.

 

Dessa maneira, podemos pensar que a estrutura mental é composta por uma Estrutura Afetiva e por uma Estrutura Ideativa (Andrade, 2003).

 

A Matriz Afetiva é originada da descarga somática sobre a qual se desenvolverão as estruturas ideativas. É a etapa corporal do psiquismo, que corresponde ao que Freud denominou ego corporal. A estrutura afetiva da mente humana seria formada pelos registros mnêmicos de percepções de vivências afetivas dos primórdios da vida, quando as sensações de prazer e desprazer ocupavam todo o psiquismo, correspondendo à fase de ego corporal (quando o papel do ego psíquico é desempenhado pelo objeto na preservação da vida), com a mente regida por sensações de prazer e desprazer, num mecanismo de bio-regulação presente em todos os seres vivos. Com o amadurecimento do organismo, as quotas de afeto primitivo irão se proliferar em traços mnêmicos ou representações criando circuitos associativos (chamados de colaterais por Freud no “Projeto”, 1895) desenvolvendo as estruturas ideativas. Aos poucos as estruturas ideativas irão prevalecendo sobre as afetivas desenvolvendo o ego psíquico e com ele o processo secundário, onde, se tudo correr bem, predominará o Princípio da Realidade, que dará origem futuramente ao pensamento. Ao final, o pensamento nada mais seria do que uma descarga pulsional atenuada e provisória.que diminuirá a necessidade de descarga da energia pulsional.

 

Como vemos, o afeto tem suas origens nas entranhas do corpo, cuja descarga de energia cria um representante psíquico para tal excitação. Os registros mnêmicos destas descargas em suas interconexões se desenvolverão, por fim, à fantasia e à capacidade para pensar pensamentos.

 

Convencido da origem sexual da mente, Freud, a princípio, via o trauma como conseqüência de abusos sexuais sofridos, mas outro tipo de trauma acabou se evidenciando com os estudos sobre o narcisismo: o trauma da ferida narcísica sofrido pelo ego. Quer dizer, a princípio, a pulsão sexual é imune a traumas por ser auto-erótica, o que não ocorre com as pulsões de auto-preservação. Estas são vulneráveis à frustração e ao desprazer traumático para o ego ainda imaturo, que com a repetição de falhas em sua relação de dependência com o objeto poderá ter o seu desenvolvimento prejudicado, ferido narcisicamente.

 

Inicialmente classificadas como pulsões de auto-preservação (pulsões do eu) e pulsões sexuais (libido), mais adiante, o estudo do narcisismo demonstrou que as pulsões sexuais também atuavam no ego (auto-erótico) e posteriormente buscariam satisfação ligando-se aos objetos. Já as pulsões de auto-preservação, de início dependentes do objeto, aos poucos iriam tornando-se mais independentes deste.

 

Em outras palavras, uma parte das pulsões sexuais permanece ligada às pulsões de auto-preservação, dando-lhes componentes libidinais. Assim, por exemplo, quando uma pessoa come, devemos distinguir, conceitualmente, a pulsão alimentar (de auto-preservação), cujo alvo é a ingestão de alimento, e a pulsão oral (sexual), cujo alvo é o prazer da zona erógena oral.

 

Vendo a libido como uma energia comum a ambas as classes de pulsão (de auto-preservação e sexuais), Freud cria uma segunda teoria, que engloba as duas classes de pulsão como uma única Pulsão de Vida. Concebeu a dualidade, com a Pulsão de Morte a partir da tendência de todo o ser vivo a um retorno à sua condição inorgânica.

 

Em nota de rodapé, em Psicologia das Massas, Freud refere-se à oposição entre pulsões de vida e de morte dizendo que as pulsões sexuais são os legítimos representantes da pulsão de vida.

 

Observamos que apesar de Freud incluir as pulsões sexuais e as pulsões de auto-preservação no grupo das pulsões de vida, muitas vezes se refere ao grupo simplesmente como pulsões sexuais ou libido, o que amplia consideravelmente o conceito de sexual em psicanálise. Libido, que anteriormente era sinônimo de pulsão sexual, passou a ser empregada como equivalente de pulsão de vida.

 

Como Eros compreende também o sexual, o conceito de sexualidade se amplia em vários aspectos. Freud diz que a sexualidade é o que se opõe a morte. O psíquico se organizaria eroticamente em duas vias: a da sexualidade e a da sublimação, sendo a sublimação uma manifestação de Eros, a se realizar através de outros objetos não diretamente sexuais. Compreende-se a sublimação como sendo o destino da pulsão sexual que se realiza na cultura, sem deixar de ser sexualidade, ou seja, será o destino que se dá ao desejo que não pode ser satisfeito diretamente, criando novas possibilidades de satisfação, através de novos objetos no campo da cultura.

 

Mas o entendimento sobre da pulsão sexual como tal, não se altera, permanecendo como sendo uma exigência de trabalho feita ao aparelho psíquico, a partir da estimulação originada de fontes somáticas, provocando uma pressão em busca de descarga, associada a objetos, em sua busca de satisfação e originando o desejo.

 

Laplanche e Pontalis pontuam que: "Esta (a sexualidade), efetivamente, é definida sob o nome de Eros não como força disruptora, eminentemente perturbadora, mas como princípio de coesão, de ligação. Já o alvo da pulsão de morte é, pelo contrário, dissolver os agregados, e assim destruir as coisas" (p. 536). Podemos ver, nesta afirmação, o que diz Green (1988) a respeito das funções de ligação e desligamento referentes às pulsões de vida e de morte, respectivamente. A pulsão de morte, sendo, portanto, uma tendência à inércia, ao inanimado original.

 

Freud propõe que os movimentos psíquicos estão situados num modo de ser sexual e que não há estados dessexualizados na mente, situaando a origem da sexualidade no ponto de intersecção entre o  somático e o psíquico.

 

Como a pulsão inclui necessariamente um objeto e sendo a quota de afeto um componente da pulsão, a percepção da descarga somática/afeto é indissociável da percepção do objeto, daí o ego corporal estar também indissociado do objeto, o que faz o sujeito perceber o objeto como seu próprio corpo, do qual vai diferenciar-se à medida que as estruturas ideativas se desenvolverem. Por outro lado, como as estruturas afetivas nunca se extinguem haverá sempre um objeto interno representado com o sujeito. Na visão de Ferrari (2004) este será o primeiro e único objeto (Objeto Originário Concreto, o próprio corpo).

 

Ser o afeto vivenciado com o objeto é da mais alta importância na compreensão do que ocorre na relação transferencial e contratransferencial de uma análise, deflagradores naturais dos processos neuroquímicos, como evidenciam os estudos sobre attachment e empatia desenvolvido pelos neurocientistas. Esses estudos nos mostram que, embora a situação transferencial não seja igual à relação original mãe-bebê, seu campo de operação se situa em registros mnêmicos que reproduzem um clima afetivo que propicia aquisições afetivas e ideativas capazes de modificar a estrutura da personalidade.

 

Temos então que o Inconsciente dinâmico é produzido ininterruptamente, durante todo o tempo, a partir das demandas corporais pulsionais, criando marcas, representações mentais em seu caminho para a descarga, a satisfação. Da mesma maneira, a Consciência, como órgão senso-perceptivo, também é produzida da mesma forma ininterrupta.

 

Freud afirmava ser o sonho “a via régia para o Inconsciente”. De fato, ele nunca deixou de considerar sua Interpretação dos Sonhos (1900) como uma de suas obras mais importantes, apesar das críticas de vários autores de que não havia revisado a teoria com base em seus trabalhos posteriores, sobretudo porque à época não contava com o conceito de elaboração e não havia formulado a teoria da dualidade das pulsões (1923). Escreveu ele em seu prefácio para a terceira edição inglesa: “Uma percepção como esta ocorre apenas uma vez na vida”.

 

Freud pensava nos sonhos como guardiões do sono, protegendo-o das ameaças de tensões inconscientes, psicologicamente como sendo a realização de desejos infantis censuráveis pela consciência, que então sofreriam um processo de desfiguração, o que chamou de elaboração onírica, quando atingiriam a consciência como um episódio alucinatório, principalmente através de imagens.

 

Em nota de rodapé, ele nos fala do sonho como uma forma particular do pensamento, um funcionamento filogeneticamente mais antigo, proporcionado pelo estado de regressão do sono. Acreditava ainda, que o paciente em análise, sob associação livre no divã, encontra-se numa regressão semelhante à da pessoa que sonha, posição privilegiada para descrever imagens oníricas.

 

Em relação aos sonhos diurnos, à vida de fantasia ou devaneios, Freud (1911) nos mostra que se referem a uma categoria de pensamentos que se destacam ao se estabelecer o princípio da realidade, mantendo-se dele afastada e continuando a submeter-se ao princípio do prazer. Teriam início com o brincar da infância e mais tarde prosseguiriam como sonhos diurnos, delimitando-se ao espaço mental e abandonando os objetos externos.

 

Melanie Klein (1930), dando continuidade  àsidéias de Karl Abrahan, que já falava nos sonhos como sendo uma visão direta da operação dos processos internos, desenvolve a teoria das relações objetais. O sonho passa a ser visto como uma maneira de expressar fantasias inconscientes relacionadas aos objetos internos, com a encenação de um determinado conflito e sua tentativa de elaboração. Klein fala dos objetos do mundo externo como tendo representantes simbólicos no mundo interno, a partir da repressão e de um deslocamento do interesse pelo corpo da mãe.

 

Hanna Segal (1981, 1991) coloca que a estrutura do sonho revela a estrutura da personalidade. Desenvolvendo os ensinamentos de Klein, nos diz que o sonho seria uma busca de solução, em fantasia, para um conflito inconsciente. O trabalho onírico seria, então, parte da elaboração do próprio conflito, além de permitir uma comunicação consciente/inconsciente. Seria ainda um meio de comunicação com o próprio analista. Segal? se refere ao pessimismo de alguns analistas quanto à utilidade dos sonhos na análise e nos chama a atenção para o fato de que às vezes não basta interpretar apenas o conteúdo do sonho, mas que a função do sonho deveria ser interpretada primeiramente nesses casos. Esses seriam, por exemplo, os sonhos chamados evacuatórios, evacuados para dentro do objeto/analista e não serviriam à elaboração, mas sim à atuação na transferência, livrando-se de partes indesejadas do self e do objeto por identificação projetiva. Aqui, o ego está confundido com o objeto e o símbolo se confundiria com a coisa simbolizada, dando origem ao pensamento concreto e ao que chamou de equação simbólica, típica do funcionamento psicótico. Se o analista puder compreendê-los, passariam a ter também uma função de comunicação. A formação de símbolos não concretos é uma função do ego, diz, extremamente importante para que existam os sonhos elaborativos.  O símbolo é um produto da elaboração do luto, o que implicaria numa elaboração depressiva completa, com a aceitação por parte do sujeito da separação do objeto, tornando-se o símbolo seu representante.

 

No 29º Congresso Psicanalítico Internacional, ocorrido em 1975, em Londres, Masud Khan discute os seus conceitos de Sonho Bom, Espaço de Sonho e Experiência de Sonho.

 

Por Sonho Bom, entende o sonho incorporando um desejo inconsciente que estaria disponível para o ego quando a pessoa acorda.

 

Espaço Onírico, semelhante ao Espaço Transicional de Winnicott, adquirido através do processo de desenvolvimento a partir dos cuidados maternos e do holding do ambiente, seria o espaço onde se concretizaria a experiência do sonho.

 

Por sua vez, a Experiência de Sonho é um aspecto do processo primário, no qual o ego é atualizado por um funcionamento primário. É compreendida como uma experiência afetiva. A Experiência de Sonho pode ser também compreendida como conectada à falta básica, decorrente de uma deficiência na estrutura e funcionamento do ego. Num terceiro ponto, nos traz que a Experiência de Sonho seria um aspecto inconsciente da personalidade total, relacionada com o inconsciente que nunca se tornou pré-consciente, o núcleo da personalidade total, coincidindo com os conceitos de Freud de repressão primária.

 

A incapacidade para sonhar levaria, na visão de Khan, a uma atuação dos sonhos na realidade externa.

 

Bion (1959, 1960) concebe a elaboração onírica, como era conhecida até então, como apenas uma parte do trabalho do sonho. Entende o sonho como um processo contínuo, ativo inclusive durante todas as horas de vigília, porém não observável normalmente, exceto no paciente psicótico, quando ocorre a desagregação do ego dos vínculos com a realidade, deixando o id a descoberto. Entende o material consciente como tendo que submeter-se ao trabalho do sonho para converter-se em material adequado para armazenamento, seleção e transformação, desde a posição esquizoparanóide à posição depressiva (PS/PD) e o mesmo ocorrendo com o material inconsciente pré-verbal.

 

No modelo de Bion, o sonho seria um mecanismo através do qual o ego se vincularia aos dados sensoriais da realidade externa, dando-se conta das impressões sensoriais associadas ao princípio da realidade, bem como dos acontecimentos internos da realidade psíquica pré-verbal associados ao princípio do prazer. Afirma que nenhuma delas poderia associar-se com a consciência, a memória, a recordação, o inconsciente inclusive, ou a repressão sem que sejam transformadas pelo trabalho de sonho. Daí, as impressões e acontecimentos desconexos se tornariam susceptíveis de serem armazenados na memória. Numa etapa seguinte, as impressões assim armazenadas seriam revisadas, se estabeleceria uma relação entre elas, partindo de uma impressão sensorial eleita, e o lugar que cada uma ocupa no conjunto. E assim, mediante um fato selecionado, harmonizador no espaço, seria possível o interjogo entre as posições PS e PD. Resultariam daí, a consciência social, através do splitting do superego (movimento da posição D para PS) e o superego individual (desde quando o trabalho onírico efetuasse a síntese dos fragmentos da posição PS dando lugar à D).

 

Elabora o conceito de espaço de sonho, espaço onde se armazenam as impressões sensoriais depois de terem sido transformadas pelo trabalho de sonho, que também torna comunicável o material pré-comunicável e as impressões que derivam do contato da personalidade com o mundo externo. Ressalta que o contato com a realidade não depende do trabalho onírico e sim o acesso para a personalidade do material que se deriva deste contato.

 

Neurocientistas podem atestar hoje, por outros caminhos, contando com o desenvolvimento da tecnologia, o que descreveram Freud e, particularmente, Bion, a partir da observação e da experiência clínica: que os sonhos têm a função de organizar e ordenar o sistema de memória, juntando memórias recentes ao acervo pré-existente e funciona ininterruptamente, inclusive durante a vigília, embora só percebido em estado de sono, quando a atenção voltada para o exterior adormece.

 

Processos psíquicos inconscientes, presentes em camadas primitivas, se fundem com outros situados em extratos mais recentes, tendo por resultado o mesmo fenômeno econômico-dinâmico-topográfico produzido pela ação da psicanálise como método terapêutico. Assim, o sonho realiza diariamente uma espécie de psicanálise natural. É através do sonho que uma experiência adquirida é incorporada ao patrimônio psíquico. O bombardeio de excitações provenientes do tronco cerebral revolve todo o acervo de memórias antigas produzindo um estado de caos mental. Esse caos é organizado pela função do córtex que realiza a integração das memórias primitivas e recentes através do sonho (síntese e organização do ego). A patologia, segundo apontam estas pesquisas, seria o resultado de falhas nessa integração da mente primitiva com processos mais evoluídos. Tanto seria patológica a predominância de estruturas primitivas quanto das mais recentes.

 

O temor do paciente ao superego social e individual poderá fazer com que passe a atacar destrutivamente o mecanismo dos sonhos. Se a capacidade para o trabalho onírico for destruída, que é o responsável por dar nome às coisas (associando o dado sensorial à emoção que o acompanha), o paciente sentirá um terror sem nome, medo de morrer ou de perder a razão.

 

Bion faz uso do modelo digestivo comparando-o com a função do sonho e nos traz um interessante exemplo: Newton descobriu as leis da gravitação vendo cair uma maçã. Este enunciado seria o resultado do trabalho onírico, um símbolo pictórico, um ideograma dos fatos, necessário para armazenamento e recordação. O mesmo ocorreria com a experiência emocional. Se predominar o princípio da realidade, o ideograma converterá a experiência em susceptível de armazenamento e evocação; se predominar o princípio do prazer, a experiência será evacuada por identificação projetiva para dentro do objeto.

 

Bion passa a chamar o trabalho de sonho de trabalho de sonho alfa e posteriormente função alfa, e o material a ser transformado/ideogramado chama de elementos. Serão elementos alfa se passíveis de serem armazenados (que significa contidos e pensados, e dependerá da capacidade para tolerar a dor e o ódio à frustração) e elementos beta se só servirem à evacuação, à identificação projetiva (que poderá seguir três caminhos: serão descarregados dentro do corpo através de somatizações ou dos sintomas de crianças hiperativas; ou pelos órgãos dos sentidos através de alucinações; ou ainda através de actings/atuações).

 

Pacientes com grande dificuldade em tolerar frustração e com intenso ódio às suas verdades fundamentais se comportarão na análise com predomínio da arrogância, onipotência e onisciência, incapazes de aprender com a experiência (que requer suportar e enfrentar a dor do contato com a sua realidade interna e externa e através do pensamento e da capacidade criativa tentar modificá-la) o que promoverá o crescimento mental. Estariam a espera que alguém/continente (mãe/analista) provido de uma função alfa capaz de identificar este material recebido por identificação projetiva, possa “sonhá-lo”, nominá-lo e devolvê-lo, por assim dizer, ideogramados. A função alfa internalizada, oferece um espaço mental onde o trabalho de sonho poderá ser executado e é aí onde os processos primários começam a ser elaborados em processos secundários (origem do pensamento). Indo pouco mais além, os elementos alfa seriam, portanto, os responsáveis pela construção da barreira de contato, semi-permeável, que separaria consciente de inconsciente. Já os elementos beta formariam uma tela de contato psicótica, ou seja, permissiva e não auxiliariam em tal distinção.

 

Bion nos diz ser o verdadeiro sonho, o sonho submetido ao trabalho de sonho alfa, portanto, um promotor de vida, enquanto o sonho utilizado para identificações projetivas percebido como um artefato, “tão deficiente em qualidades promotoras de vida como o seio alucinado é deficiente em dar alimento”.

 

Pontalis (1972) nos traz a moderna concepção do sonho como experiência intersubjetiva na situação analítica.

 

Sob as condições do setting analítico, das associações livres por parte do analisando e da atenção flutuante por parte do analista, estar-se-ia num espaço entre o mundo de vigília e o mundo dos sonhos, na fronteira entre o processo primário e o processo secundário, espaço ideal onde a análise deverá se desenvolver. Se o sonho, através da tela alfa, produz uma barreira de contato para diferenciar consciente de inconsciente, é justamente para este local que deverá ser focalizada a atenção do analista, o local de trânsito dos elementos. Se o trabalho de sonho alfa (função alfa) está ativo tanto no estado de sono como no estado de vigília, a tela alfa está em contínuo processo de formação, o consciente e o inconsciente sendo também produzidos continuamente, inclusive durante a sessão de análise, temos que o analista e o analisando, através dos movimentos transferenciais/contratransferenciais participam ativamente deste sonho a dois, representação simbólica da experiência emocional. As projeções do paciente, captadas pela função alfa do analista são transformadas (sonhadas) em elementos alfa e o analista pode então ter o sonho que o paciente não pode ter. Tornando-se consciente dos conteúdos inconscientes do paciente, o analista daí deriva a sua interpretação e as devolve para o paciente, buscando transformar atuação em lembrança e tornar pensável o impensável.   

 

O desenvolvimento e evolução que poderá surgir deste encontro será sempre o que se passa com cada um e entre os dois participantes da dupla analista/analisando e não apenas com o analisando, o que altera substancialmente preceitos teóricos e técnicos tidos como tradicionais e privilegia a experiência emocional intersubjetiva, através do sonho a dois da sessão analítica.

 

Estudos neurofisiológicos realizados nos últimos anos têm trazido questionamentos e conclusões bastante interessantes, contribuindo para o debate sobre o ainda tão pouco conhecido funcionamento onírico e mental, cuja relação com as idéias psicanalíticas atuais se faz premente.

 

Charles Fischer (1991), constata por estudos eletroencefalográficos que a percentagem de sonhos num adulto normal é de 25% das oito horas de sono usuais, chegando a 50% no recém-nascido e a 80% num prematuro de sete meses, o que nos remonta ao sonho como criador da barreira de contato que iria diferenciar consciente de inconsciente, à partir da transformação da realidade interna e externa.

 

Palombo (1976), destaca o papel biológico dos sonhos possibilitando-nos a sobrevivência como organismos, integrando o registro de novas experiências ao armazenamento de memórias permanentes ligadas às necessidades pulsionais.

 

Michel Jouvert (1990), diretor do laboratório de onirologia de Lyon, encontra que no sono alternam-se 90 minutos de sono lento com ondas corticais amplas e lentas, repouso, com 20 minutos de sonho, com ondas corticais rápidas e curtas, iguais às do estado de vigília, quatro a seis vezes por noite. Refere que durante os 90 minutos de sono lento, a temperatura cerebral sofre um resfriamento que é quando reservas de glicogênio são armazenadas nas células da glia. Quando este resfriamento chega a um limite de perigo, a reserva de glicogênio desencadeia o sonho, evitando a morte.

 

Marie-JosépheChallamel constata que a atividade onírica se inicia no feto por volta das 28 semanas de vida e o sono lento com 32 semanas, chegando à conclusão de que primeiro o feto começa a sonhar e só depois a dormir.

 

Compreendemos o sonho, portanto, como promotor de vida e como condição não apenas para o sono, como para que se possa fazer a distinção entre estar dormindo e estar acordado, entre passado, presente e futuro, entre estar louco ou não estar e entre estar vivo (capaz de pensar e criar) e estar morto.

 

Concluo com uma citação de Mário Quintana, um de meus poetas favoritos, em que diz:

 

“Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa”.


 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bion, W. (1958) Cogitaciones. Valencia: Ed. Promolibros, 1996.

Challamel, M-J (1991).  In Czerny, J.,Montar e desmontar o cenário analítico e onírico. trabalho apresentado em reunião científica na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Fischer, C. (1991). In Czerny, J., Montar e desmontar o cenário analítico e onírico, trabalho apresentado em reunião científica na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Freud, S. (1923). O ego e o id.In Obras Completas, vol. XIX. Rio de Janeiro: Ed. Imago.

Freud, S. (1911). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In Obras Completas, vol. XII. Rio de Janeiro: Ed. Imago.

Goulart, A. (2000). Entre o Sentir e o Sofrer: Cem Anos Pensando o Impensável. In Revista Alter, vol. XIX, n. 02. Brasília.

Goulart, A. (2004). Afetos nas relações amorosas. Trabalho apresentado na V Jornada do Círculo Psicanalítico de Sergipe, inédito.

Goulart, A. (2010). O vínculo ameaça-dor. In Psicanálise em Revista, vol. 8, n. 1. Recife.

Goulart, A. (2009). Intersubjetividade e especificidade em psicanálise. InRevista Brasileira de Psicanálise, vol. 43, n. 03. São Paulo.

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Jouvert, M. (1990). Il explore l’empire des rêves. In Science & Avenir, n. 515, Lyon.

Khan, M. (1975). Dream psychology and the evolution of the psychoanalytic situation. In The dream discourse today, London: The New Library of Psychoanalysis.

Klein, M. (1930). La importancia de la formación de simbolos en el desarollo del yo. In ObrasCompletas, vol. I. Buenos Aires: Ed. Paidos, 1990.

Palombo, S. (1992). The Eros of dreaming. In International Journal of Psycho-Analysis, vol. 73, 637.

Pontalis, J-B. (1972). Dream as an object. In The Dream Discourse Today. London: The New Library of Psychoanalysis.

Quintna, M. (2010). In www.pensador.info/autor/Mario_Quintana

Segal, H. (1983). A função dos sonhos. In A Obra de Hanna Segal, cap. VII. Rio de Janeiro: Ed. Imago.

Thoma, H. (1992). Teoria e Prática da Psicanálise, vol. I. Porto Alegre: Ed. Artmed.

 

 

RESUMO: O autor faz uma revisão dos fundamentais conceitos de sexualidade, sonho e inconsciente, em psicanálise, tecendo interconexões com os achados mais recentes das pesquisas neurocientíficas.

PALAVRAS-CHAVE: sexualidade, sonho, inconsciente.

 

 

ABSTRACT: The author reviews the fundamental concepts of sexuality, dreams and unconscious in psychoanalysis, weaving interconnections with the latest findings of neuroscientific research.

KEY WORDS: sexuality, dreams, unconscious

 

 

 

 

Adalberto Goulart

 Membro Efetivo e Analista Didata IPA -   NPA/SPRPE

adalbertogoulart@uol.com.br

data de publicação: 06/12/2013



[1] Trabalho apresentado na XV Jornada da SPR, outubro de 2010.

 

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